decolonyala

“o futuro é ancestral”

Quando Ailton Krenak fala isso, sinto que recebo um abraço. É a coisa mais linda de se ouvir, uma comunicação afetiva. Suspeito que esse tipo de linguagem não pertence aos jovens e demanda uma boa quantidade de sensibilidade, adquirida com muito do que já se viu na estrada do tempo. Nunca tinha ouvido ninguém falar com tanta leveza sobre o fluxo da existência.

Mesmo eu, que desde criança morei com meus avós maternos, não tinha essa referência de um velho sábio que nos explica sobre todas as coisas, nos acalma sobre o tempo e ri da nossa ansiedade com o maior carinho. Antes de pensar sobre ancestralidade, a ideia que eu tinha sobre meus avós não era uma história romântica.

Meus avós eram muito rígidos e pareciam sempre muito estressados. Do tipo difícil de agradar. Do tipo de quem já se fodeu muito na vida e esperava ter uma velhice tranquila. Do tipo que não esperava ter que se responsabilizar pelos filhos dos filhos aos 60. Do tipo que deixava claro o incômodo.

Eu entendo essa busca por ancestralidade como ferramenta para conseguir olhar para trás e compreender a si mesmo. E o pouco que eu coletei de conhecimento, ao longo dos anos, sobre os pais dos meu avós, me dá alguma referência. Pouco mesmo, porque ao contrário de mim, eles não gostavam de falar sobre os que vieram antes.

Da minha bisa Teodora, disseram um dia que era uma negra “zangada”, que praticava algum tipo de “magia”, que conversava com pedras e que dividia uma manga para os três filhos. Um deles meu avô. Do meu biso José, vovó diz até hoje que tinha olhos puxados “igual japonês”, mas que a pele era escura de “tanto pegar sol”.

Alguns desses registros me contam sobre tempos em que esconder a própria origem, no caso dos meus avós, preta e indígena, era questão de sobrevivência. Por isso, não julgo quem carrega um medo (muito antigo) de retomar esses assuntos.

Me dói pensar sobre isso.

Reconheço que tenho muita sorte de poder falar sobre essa história indígenafro, ou afroindígena, e tentar desenhar qualquer sonho tendo isso como base. Resgate não é um papo goodvibes. Resgate é sobre responsabilidade e reparação. Pra mim, é o ponto de partida para um fluxo de existência não-linear. Ou, para entender com o coração, o que o Ailton tá dizendo.

Afinal, o tempo originário é circular. Mas isso é outra história...