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“Cara de índio”

Ontem, 09 de agosto, foi dia internacional dos povos indígenas. E essa é uma data importante pra lembrar sobre a diversidade de corpos-território existentes no Brasil.

Uma das formas mais recorrentes de preconceito contra indígenas é negar a sua existência fora da conhecida imagem construída através das instituições políticas e reforçada na mídia e sistema educacional: um corpo de pele “parda”, cabelos lisos e pretos em corte de cuia, olhos puxados, nudez, penas, isolados no mato...

E mesmo com toda essa definição amplamente difundida no senso comum, aqueles que se enquadram nesse estereótipo, ainda precisam ouvir: de um lado, que são “índios falsos” caso morem na cidade, usem tênis, celular, falem inglês ou tenham cabelos crespos... do outro, que são negros, pois alguns são lidos como “pardos”, e pardos e pretos podem ser considerados negros em alguns contextos.

Tá formada a confusão...

Pra começar a desenrolar esse nó, é preciso aceitar que indígenas são totalmente capazes de descreverem a si mesmos. E não é proibido ser indígena fora da imagem criada pelo branco sobre o que é “um indígena de verdade”.

Dito isso, é importante considerar que num país continental como o Brasil, com todo seu histórico de colonialidade ainda em curso – que institucionalizou por muito tempo a violência sexual de homens brancos contra mulheres pretas e indígenas – nasceram um grande número de mestiços.

Portanto, para além do tal fenótipo “cara de índio”, existem indígenas com vários tipos de corpos, de cabelos e de cores de pele diferentes. E dentro do movimento indígena, a perspectiva é étnica. A distinção entre pessoas é feita a partir da etnia a qual pertencem. São consideradas as características culturais principalmente.

Nesse sentido, indígena não é necessariamente “raça” (cor da pele). “Raça” é uma criação colonial. Quem inventou a divisão da espécie humana pela “raça” (cor da pele) é “racialista”. E o fez com o intuito de justificar dominação e desumanizar os “diferentes”.

Mas... pelo que eu observo (e posso estar errada), no movimento negro isso é um pouco diferente. Houve uma certa adaptação do termo “raça” para delimitação e construção de uma identidade pautada principalmente por características físicas, como a cor da pele. Especialmente no Brasil.

Essa estratégia permite falar sobre a reivindicação de direitos e reparação histórica para com pessoas de ascendência africana. Se “raça” é a cor da pele, como inventou a branquitude colonizadora, então brancos tem uma dívida gigantesca para com negros – sei que é mais profundo do que isso.

A ideia aqui é apenas trazer a importância de reconhecer essas diferenças de interpretação do conceito de “raça” para tentar compreender em que momento elas podem convergir para uma aliança entre movimentos. E pensar que o que nos une é maior do que o que nos separa. Sempre com respeito as diferentes cosmovisões que permeiam nossas continuidades culturais, pra não cairmos no erro infantil de disputar protagonismo.

E quem é o branco nessa história? É todo aquele que tem pouca melanina?

Na visão indígena, os brancos são aqueles que até hoje se comportam com uma mentalidade colonial para com a diversidade de modos de existir no mundo. Brancos são aqueles que trabalham para dominar e desqualificar quaisquer outras culturas e existências que julguem ameaçadoras a sua “liberdade de opressão”. Brancos são os que pensam que podem comer o mundo.

A maioria tem pouca melanina sim, mas ainda é possível encontrar mentalidades colonizadoras em diferentes peles. E também, existem indígenas de pele clara e olhos azuis aqui no Brasil.