Primeiro encontro

Quando pensamos em sexo, a grande maioria das pessoas já visualizam mentalmente o sexo hétero. Como lésbica, penso, instantaneamente, em um sexo com mulheres. É engraçado como isso faz com que várias situações que seriam constrangedoras, caso acontecessem entre homem e mulher, não sejam. Essa semana aconteceu algo engraçado que me deixou reflexiva sobre essa liberdade e intimidade que só existe entre as mulheres – conversamos umas com as outras nas filas dos banheiros sobre sentimentos como se fossemos amigas de longa data. Geração do Tinder, né, vamos lá. Terminei meu relacionamento há alguns meses. 9 meses de namoro, terminamos porque ela precisou ir embora para outro estado. Enfim, fiquei naquelas. Segui tentando lembrar como é todo esse jogo de flertar e desenrolar. Instalei o Tinder mais uma vez. Mudei a foto, renovei a minibiografia e finalmente estava pronta para atacar. Match! Ela estuda psicologia aqui na UFRJ , é vegetariana e me encantou quando começou a falar aleatoriedades. Tivemos horas de assuntos nada entediantes e isso é um ótimo começo para uma interação a partir de um aplicativo. Curtíamos as mesmas músicas, ela adorava cerveja e fumava maconha. Marcamos de ir ao CCBB e depois tomamos uma cerveja na Ouvidor, uma rua famosa por sua boemia em meio ao caos do centro do Rio de Janeiro, e ali no bar bebemos alguns litros de cerveja. Gostaria de fazer um adendo irrelevante: o litrão de Brahma custava R$16. Depois que algumas cervejas foram tomadas, o álcool começou a fazer efeito e as duas deixaram a vergonha de lado para que o beijo saísse. Desenrolamos. Fomos para a casa dela. Beijos pra lá e pra cá. Amassos pra lá e pra cá. Eis que lembro de uma sequela sapatão: não cortei minhas unhas. Diversas cenas de vaginas arranhadas por unhas grandes me vêm à mente. Argh, sinto nervoso só de pensar. Será que a insegurança que senti ali é semelhante a de um homem que está sem camisinha na carteira?! Acho que não, porque eles nem parecem se preocupar tanto quanto as mulheres. Tentei não pensar na minha unha, mas isso me vinha à mente o tempo inteiro. Pensei em roer, mas sem uma lixa a situação não ficaria muito boa também. Pensei em pedir um cortador de unha pra ela, na cara dura; mas não tive coragem por ainda ser o primeiro encontro. Ainda tinha a incerteza se iríamos transar ou não. Até que em um momento, percebi que já estávamos tirando nossas roupas. Ia rolar. Quando fui pensar novamente sobre o tamanho de minhas unhas, o pensamento foi cortado pelo desejo e me vi sentindo seus pelos e seus gostos na minha boca. Esqueci da unha, meus dedos já estavam dentro dela e então eu percebi que minhas unhas talvez nem estivessem tão grandes quanto imaginei. Aprendi a lição e atualmente, tenho um cortador de unha em meu molho de chaves. O vai e vem, os corpos suados se encostando... mas sinto algo estranho no meio da transa. As minhas coxas estavam mais molhadas do que deveriam… porque minha menstruação decidiu descer naquele exato momento. No mesmo momento entendi o estresse e a carência que senti durante aquela aquela semana. E agora?! Aviso pra ela?! Ela nem percebeu ainda!! São muitos pensamentos!! Ai meu deus!!! Comecei a ficar desesperada e logo ela percebeu que minha feição estava estranha. Parei, olhei pra ela e falei “Cara, acho que minha menstruação desceu”. Eu não achava, já tinha certeza, mas não sabia como falar. Ela olhou as próprias mãos cheias de sangue. Fiquei esperando uma reação e aqueles segundos demoraram a eternidade. Ela fez uma cara normal. Me deu um beijo, foi ao banheiro para lavar as mãos e terminamos no chuveiro o que já tinha começado. Depois de muita risada, ainda colocamos o lençol de molho no sabão. A liberdade no sexo lésbico me encanta, me fascina. Transar com pessoas do mesmo sexo que você te obriga a reinventar o ato, e aprender a transar diferente, porque só nos ensinam sobre o sexo hétero baseado na penetração. Episódios como esse acontecem e eles vêm para nos dar mais experiência. Sexo é muito mais do que mostram que é. Não é limitado nem previsível, tem situações constrangedoras e engraçadas. Essa não foi a primeira vez que me senti constrangida na transa e, com certeza, não será a última. Às vezes, essas situações podem render até um texto para entreter quem sabe que isso acontece.