Comic Sans ainda mora aqui

Lancei minha contribuição no #tersoftware: usem Comic Sans novamente. Que saudade.

Obviamente eu estava gastando minha onda, mas a saudade estava dizendo uma coisa séria. Certas tecnologias desaparecem sem ir embora. Elas deixam um jeito de escrever, um barulho de inicialização, uma cor de janela ou uma sensação que continua rodando em segundo plano.

A Comic Sans começou a ser desenhada por Vincent Connare na Microsoft em outubro de 1994. Ele trabalhava com programas de aparência divertida e percebeu que aquelas interfaces precisavam de uma letra que parecesse falar como os quadrinhos que lia. A fonte nasceu para acompanhar personagens e balões, não para carregar sozinha toda a formalidade do mundo.

A Comic Sans foi distribuída com o pacote Microsoft Plus! do Windows 95, apareceu em versões do próprio Windows, no Publisher e no Internet Explorer. Também integrou as fontes que a Microsoft ofereceu para uso na web. Essa disponibilidade ajuda a explicar pq ela apareceu em todo lugar: trabalho de escola, aviso de condomínio, convite de aniversário, cartaz de igreja, comunicado sério e placa que definitivamente não deveria estar sorrindo :)

Em 1996, por acaso o ano que nasci, o Microsoft Comic Chat transformava conversas de IRC em pequenos quadrinhos. As mensagens viravam balões e os personagens mudavam de expressão. Antes dos stickers e das reações, já existia uma tentativa de dar corpo e humor à conversas online. A Microsoft considera esse programa uma das primeiras casas reais da Comic Sans. Em julho de 2026, o código do Comic Chat foi aberto ao público — uma lembrança antiga que voltou a rodar literalmente.

Ela continua fazendo pequenas aparições. Ao pesquisar “comic sans” no Google, a própria página de resultados muda de tipografia e apresenta a busca em Comic Sans. É um easter egg: a fonte aparece para explicar a si mesma. Como todo detalhe de um serviço online, o efeito pode variar por dispositivo e mudar no futuro.

A fonte também entrou para a história da ciência. Em 4 de julho de 2012, apareceu na apresentação da equipe ATLAS sobre a descoberta de uma partícula compatível com o bóson de Higgs. A escolha virou assunto. Dois anos depois, no dia 1º de abril, o CERN publicou que toda a comunicação da instituição passaria a usar Comic Sans. Era uma piada, claro. O anúncio dizia, em resumo, que grande parte do sucesso da descoberta devia ter vindo da fonte. Até a física de partículas soube brincar com a própria apresentação.

No #tersoftware, a recomendação puxou outras. Fantasque Sans para o terminal. TeX Gyre Pagella para livros. IBM Plex para quando a pessoa deseja uma fonte sem serifa e, ao mesmo tempo, cultiva suas contradições. É aí que o fediverso fica interessante: uma lembrança não precisa terminar em opinião. Ela pode abrir uma mesa e deixar outras pessoas colocarem suas referências nela.

Talvez a Comic Sans nunca tenha sido apenas uma fonte ruim ou boa. Talvez ela seja uma marca de quando começamos a escolher, sozinhos, a aparência das palavras na tela — e exageramos porque finalmente podíamos.

E agora quais fontes dominam sua memória visual? Sabe qual a fonte do seu WhatsApp?

Qual fonte ainda mora em você?

Fontes

✍️ Publicado com carinho por Rafael Ramires Baptista, acompanhe novidades na Bantu Social.