o falso positivo dos nativos digitais
pra quem nasceu nos anos 90, vivemos a emergente dominação dos computadores, cabos de rede e wifi. ao passo que brincava na rua, ralava joelho e pulsavam corações.
quem tem mais de 50 anos, tem aqueles que pedem ajuda, auxílio, a cura pro antídoto da hiperdigitalização: “meu filho, configura isso pra mim?”
hoje estou na porta dos 30. meus colegas, amigos, e parentes da mesma faixa etária sofrem com golpes via WhatsApp. dos mais simples aos mais complexos, da ligação de operadora à conversas profundas e longas com perfis falsos de donos de grandes empresas. gente com receio de que seus dados estejam circulando por aí, tornam-se exímias a cada mês que passa, já que os anos mudam muito, nem dá pra contar o que acontece ao longo de 365 dias com precisão.
tenho atendido pessoas entre 25 a 35 anos, pra lidar com problemas envolvendo transferência de arquivos em massa, organização de pastas, acúmulo de uma vida pra mais de 10 anos digitalizada. essas mesmas pessoas, estão preocupadas com sua vida pra além dos próprios aquivos, imagens e vídeos.
perguntas como: “como sabem meu email?” + “de onde pegaram meu telefone?” + “como sabem que eu tenho interesse nisso?”, organizam uma insatisfação coletiva de que existe uma linha muito mal traçada entre o que são SEUS ARQUIVOS e o que são SEUS DADOS.
agora, explicar pra um adulto, que o armazenamento em nuvem, é um computador de uma empresa privada que guarda em um dispositivo tal qual um HD, pendrive, e até SSD, é uma coisa. explicar para uma criança ou adolescente que sequer viu um pendrive na vida, o que concretamente é o que a indústria dos dados evoca como nuvem, é um desafio tácito, coerente com esse tempo e inegavelmente, um desafio divisor de gerações, digo, no que cada geração consegue agenciar, reconhecer como problema, e buscar uma solução pra si e sua comunidade.
não acredito que nascidos nos anos 90 estão mais preparados à essa era, e nem que nascidos nos anos 10 sabem mais do que nós. acredito que existe uma insistente prática mercadológica de roubar o vocabulário imaginativo, afetivo e dengoso de nossas bocas e sonhos, pra nos aglutinar em emaranhados de discos rígidos, galpões imensos e uma nova roupagem pra colonização. não existem nuvem com seus dados, não existe inteligência que seja artificial, muito menos generativa, não existe temperatura que ajustada pode fazer você obter respostas melhores, não existe nada disso. são palavras roubadas do nosso cotidiano, esmagadas pela obtenção massiva de lucro. mentiras contadas com seriedade, gráficos e a semiótica da mais sofisticada patifaria do Vale do Silício.
tenho medo do conceito de “que não tenho nada pra esconder”, quando estamos falando de tecnologias capazes de sitiar em dispositivos físicos seus desejos mais subjetivos, nomear suas querências e mapear seus movimentos ao longo de dias, meses, anos, quiçá decadas. você nunca mostrou isso pra ninguém, nem pro seu terapeuta. nem para seu analista. ninguém nunca te acompanhou por tantos anos, coletando cada rastro seu, concatenando seus horários, seus pedidos, seus aceitos, seus rejeitos, seus sujeitos ao longo dos anos. ninguém, nem você.
posso acreditar que não há nada a se esconder, mas talvez estejamos falando também de que não há nada pra se mostrar, além do perfil homogêneio de ser humano que estamos paulatinamente nos tornando, com a performance decorada atribuída a quem fica nesse moinho rodando, online, clicando, os dedos rolando. a vista cansando, os olhos piscando. quase um tique. tudo num toque, e mais um toque, quase um tique, mais um toque.
numa rede social de trabalho, decidi manifestar um pouco do meu cansaço, e da minha preocupação com gente, que assim como eu, tem se preocupado com como e pra onde as coisas vão, ou melhor, estão indo.
iniciei esse texto no linkedin, priorizei aqui. jamais usarei substack e minhas palavras são caras demais pra colocar em qualquer lugar, mas também gosto da ideia de que estou conversando com você, sem precisar sair de casa, sem te tirar de casa, e sem sobrecarregar a sua, a minha, a nossa alma.
✍️ Publicado com carinho por Rafael Ramires Baptista, acompanhe novidades na Bantu Social.