Falei

Não sei falar sobre muitos assuntos. Mesmo quando eu tenho domínio sobre, não consigo falar. É difícil dimensionar quando falar com e para as outras pessoas se tornou difícil para mim.

Na formatura do prézinho, eu fui oradora da turma. É provável que esse tenha sido o único momento em que eu estava segura do que tinha que falar. Eu, com 6 anos, na frente de algumas dezenas de pais que me olhavam ansiosos, prontos para verem seus filhos jurarem, depois de mim, que seriam crianças educadas, que brincariam na hora de brincar e estudariam na hora de estudar, obedecendo seus professores. Essa era uma parte do discurso, eu lembro bem. Outra coisa que lembro é que esqueci de dizer “mão direita estendida”, a primeira frase da sequência que eu ensaiei por meses até decorar. Fico me perguntando se esse meu medo (?) de falar tem alguma relação com esse pequeno ato falho do meu pequeno eu de 1999.

Até hoje eu tenho problemas com apresentações. Eu nunca estou segura o suficiente. Eu passo mal, de verdade, e quem me vê apresentando nem imagina tudo que eu passei segundos antes. Uma vez, no primeiro semestre da graduação, uma professora me chamou de lado antes de uma apresentação de seminário para elogiar minha escrita e terminou dizendo “se você apresentar tão bem quanto escreve, tá feita!”. Por que ela tinha que colocar as expectativas dela em cima de mim desse jeito? Obviamente, a apresentação foi horrível porque eu não soube lidar com a pressão. Mas o problema ultrapassa as questões do falar academicamente.

Não deve ser medo de falar, em si, mas a falta de oportunidade, um momento que sempre escapa. Eu não falo alto, eu não gosto de interromper, eu não me imponho: as pessoas não me ouvem. Sei que perdi a oportunidade de falar muito sobre tantas coisas. E todas elas vão se acumulando. Quem nunca pensou “eu devia ter dito isso ou aquilo”? Fico remoendo tudo que nunca vou ter a oportunidade de dizer. Às vezes me pergunto o que derivaria do meu comentário, que rumos a conversa tomaria? Isso, eu também nunca vou saber.

Fiz três sessões de terapia em 2016. A psicóloga esperava que eu falasse sobre a minha experiência com o racismo, o que me levou àquele consultório. Eu queria falar sobre aquilo e queria falar sobre tantas outras coisas, mas eu não conseguia. Ela tentou tirar algumas coisas de mim, bem aos poucos e eu percebi que ela estava tentando.

“Está tudo bem com você?” “Sim, tudo bem.” “E com a sua família, você tem algum problema?” “Não, tudo bem.” “Você está num relacionamento?” “Sim.” “E como está seu relacionamento?” “Bem, tudo bem.”

Eu não consegui passar dessa barreira. Falar é difícil, falar sobre mim é muito mais. Por alguns motivos não continuei na terapia, e me arrependo até hoje de não ter falado sobre essas três coisas (eu, minha família e meu relacionamento) que não estavam tão bem quanto eu queria fazer parecer. No momento específico da terapia estava tudo bem, mas e antes? E tudo que eu já passei? Eu realmente não tinha nada a dizer? No final, eu falei sobre algumas coisas sem muita profundidade e a psicóloga tirou algumas conclusões sobre mim que pareceram verdadeiras. Saí de lá chorando nas três sessões e com a impressão de que ainda tinha muito sobre o que falar, mas não falei.

Avançando para 2020, procurei, por motivos de saúde, o atendimento fraterno na casa espírita que frequento, pensei “por que não dar uma chance, já que outros tratamentos não funcionaram tão bem?”. A primeira etapa do atendimento é conversar com um dos tarefeiros da casa, uma breve entrevista para que o atendimento possa ser direcionado. Às vezes, o problema é menos físico e mais emocional ou espiritual. Eu não sabia o que esperar dessa conversa. A atendente queria me conhecer melhor e pediu para que eu falasse sobre mim. Revelei logo de início que a conversa poderia não durar muito se ela não conduzisse algumas perguntas. Eu, falando de mim, assim, do nada? O que exatamente ela queria saber? A partir das perguntas dela, falei de onde vim, o que estou fazendo em outro estado, como comecei a frequentar esse centro espírita, apenas me situando no mundo, tranquilo. Então ela começou a me perguntar sobre mim, especificamente sobre meus sentimentos, a minha família, o meu relacionamento. De novo, essas três coisas. Naquele momento específico, estava tudo bem, eu não tinha nada para falar sobre, então, por que eu queria chorar? Tive que me segurar durante toda a conversa e desabei quando encerramos a ligação. Naquele momento, sim, naquele momento estava tudo bem. Apesar de não ter dito tudo que eu precisava dizer, senti um alívio. Não remarquei um novo atendimento e, por mais que eu não tenha problema em chorar na frente das pessoas, tem coisas sobre as quais eu ainda não sei como falar.

Meus amigos aceitaram que eu sou assim caladona e faço meu papel de figurante nas conversas, com algumas interjeições aqui e ali, e um riso de fundo. Não me incomoda na maior parte do tempo e me sinto até confortável de ser assim, por eles não me forçarem a falar sobre o que quer que seja. Das poucas vezes que eu falei mais do que meia dúzia de frases, uma amiga ficou em choque. Ela não me interrompeu e, depois, confidenciou que nunca tinha me ouvido falar tanto. Outra amiga, acha que eu falo de forma certeira, isto é, apenas quando eu tenho algo para falar. Ela não sabe quanto tempo eu pensei sobre o assunto até eu conseguir não perder a oportunidade de expor minha visão. Eu penso demais, mas não sei me expressar muito bem. Tenho muitas coisas na mente, mas são poucas as pessoas que conseguem (ou estão verdadeiramente dispostas a) escutar.

Voltando um pouco no tempo, em meados de 2010, meu namoro começou porque uma pessoa se disponibilizou a ouvir as minhas dores adolescentes, nós duas adolescentes na época. Muitas vezes eram apenas bobagens, mas ela tinha ouvidos só para mim. Passávamos horas conversando no ponto de ônibus, perdendo ônibus de propósito para a conversa não acabar. Eu era o foco de sua atenção, algo que, até aquele momento, eu nunca tinha sentido. Ela soube me ouvir e me ensinou a conversar, a me abrir mais, a falar sobre os meus sentimentos. Ela que, às vezes, não sabe falar sobre os próprios. Nessas conversas iniciais, mesmo falando sobre tudo um pouco, acho que nunca chorei. Era fácil de conversar com ela. Ela era só minha amiga e eu comecei a querer um pouco mais: um pouco mais dela e um pouco mais desse sentimento de ser ouvida. Hoje, 10 anos depois, ela continua sendo a pessoa que eu procuro para desabafar e talvez a única que sabe me escutar, respeitando o meu tempo. Infelizmente eu só aprendi a me abrir com ela.

Não sei quão fundo vai esse “problema”. Como eu disse, não é uma questão de saber ou não saber falar, mas de não saber expressar, de nunca achar o momento certo, de não dominar a conversa, de sentir que não tem ninguém para me escutar. Será simples caso de resignação ou não tenho mais como mudar?

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