us memu preto zica (ou Emicida, Racionais, Trindade e raízes)

O ano era 2019 e Emicida lançava o álbum AmaRelo. Quando ouvi as músicas, que soavam suaves e doloridas iguais às lágrimas de um pretinho que não podia chorar, eu entendi muita coisa. Entendi que o rap não podia ser excludente, que o rap deveria proteger pessoas, ensinar e trazer esperança. Seja ela pela violência de um Facção Central, pela tradição de um Athaliba e a Firma ou pelo colorido de um Rico Dalasam. O AmaRelo não era só pros pretos e pretas. Ele foi para todo mundo que, naquele momento, fugia de um discurso fascista de ódio e perseguição.

AmaRelo era esperança.

Em pouco tempo, se tornou o hino de muita gente e, durante a explosão da pandemia de 2020, se tornou a esperança daquelas pessoas que só queriam sobreviver mais um dia que parecia não acabar nunca. O “lá-ia, lá-ia, lá, ia” das pessoas escravizadas, levava esperança para as pessoas brancas trancadas em casa. Explicavam pra elas o que toda pessoa preta sempre soube:

Tudo que nóiz tem é nóiz.

O AmaRelo nos ensinou que tudo tem sua ordem. Seu começo e seu fim. Que o mesmo ódio no coração de toda pessoa brasileira, havia uma beleza infindável a mais do que a gente conhecia. AmaRelo usou nossa dor pra juntar nossos cacos e construir corações em conjuntos. E seis anos depois, Emicida retorna com o “Emicida Racional VL. 3”.

“Quem é me compreende, quem é rap sabe” – Sabotage

Um pouco de Tim Maia, um pouco de Kl Jay, um pouco de Vida Loka, mas sempre Racionais. Quem é preto como eu, já ta ligado qual é. Todas as batidas das raízes de um Emicida, eram rimadas pelas raízes Racionais do rap. Era sobre nós, era para nós. Dessa vez só pra nóis, porque ouvir Voz Ativa sempre nos traz um ódio bom, que só nosso peito conhece. Talvez por isso, depois do AmaRelo, essa fita mixada seja tão underground.

Algumas semanas depois, ele lança o “Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores”. Emicida usou o mais controverso álbum dos Racionais MC's para provar que ele ainda é um MC. Que ele ainda caminha com a gente. Ele apagou as fotos do Instagram e colou nas batalhas de rap, uma volta às raízes de um tempo que mordia cachorro por fome.

“Zica, vai lá!” – Deus

Apesar das Mesmas Cores & Mesmos Valores, nos mostrou que somos Legítimos Herdeiros disso tudo. Que o rap é nosso, que o Hip Hop foi criado por nóis, que os tambores ainda são tocados por nóis, que a rua ainda é nóis. E mesmo depois do sopro do AmaRelo, ainda questionávamos “o que nóiz faz com essa dor?”. A gente ainda é duro como a ponta de uma caneta, que foge de tiros laicos n'A mema praça.

E no final, quando ele rima as músicas do Racionais Mc's, pra contar uma nova história ele diz pra gente que a história ainda é nossa. Que o rap ainda é nosso. Que os tambores ainda é nosso. Que as MPC ainda é nossa.

A rua ainda é nóiz.