A viagem da vida - até agora

Aqui conto um pouco mais sobre como foi a minha viagem que se iniciou em outubro de 2024 e terminou em janeiro de 2025.

Precisei de tempo para organizar minhas ideias. Tempo para realmente acreditar que tudo aquilo realmente aconteceu.

Já era estranho pensar que eu, Aline, uma menina da Baixada Fluminense, já havia atravessado o Oceano Atlântico em 2022 para passar 40 dias na Europa. Às vezes, me pegava pensando nisso e voltava nas fotos para reforçar pra mim que aquilo tinha sido real.

Quando recebi a notícia da Soul Bilíngue, em maio, que minha viagem aconteceria em novembro de 2024, eu tinha 5 meses para organizar tudo. A maior preocupação sempre foi com os gastos. Eu tinha medo de não conseguir arcar com o que precisaria, de passar perrengue financeiro e todas essas coisas. Felizmente, isso se resolveu com a vaquinha e com o apoio de muitas pessoas ao meu redor. Algumas, nem ao meu redor estavam. Desde maio, eu recebia todo mês uma doação de um tal Bruno Cavalcante, que até hoje eu não sei quem é, mas que sou muito grata pela recorrência das doações. Além disso, tive um apoio muito grande dos meus queridos amigos mastodônticos, como Flávio e Daniel.

O Mastodon foi uma rede de apoio desde quando eu ainda estava concorrendo à bolsa. As pessoas me ajudaram financeiramente, com dicas de viagem, passagens, objetos essenciais e isso foi completamente importante para que a viagem ocorresse da forma que ocorreu.

Meu medo, logo após ao financeiro, era também o da imigração. Acredito que qualquer pessoa do sul-global quando viaja para a Europa tem esse receio por ser uma área de procura constante por moradia e trabalho. No fim, deu tudo muito certo.

Consegui entrar na Europa, no dia 28 de outubro de 2024. Tive alguns problemas com a viagem, mas isso eu contarei mais pra frente.

Passei 88 dias em viagem, conheci Portugal, Malta, Itália, Suécia e Marrocos. Também tive uma paradinha em Madrid – mas não por escolha.

Fiz muitos registros ao longo desses dias. Fui mais blogueira que o comum na rede de fotos de pessoas felizes – você sabe qual –, mas certamente não postei nem 10% de tudo que vivi.

Resolvi criar então, aqui no blog, uma série de textos falando um pouco mais sobre os momentos que mais me marcaram, para compartilhar, um pouco, com aqueles que se interessarem sobre a viagem mais marcante da minha vida até agora.

“O interior que gosto de ver nem sempre é o da cidade – muitas vezes é o meu. E todas as viagens lembram-me do quanto estou disposta a crescer, como ser, ao desbravar várias histórias, cores, culturas e cantinhos por esse mundão. 💖”

Escrevi esse trecho em 24 de outubro de 2024, sem saber que essa outra viagem que estava por vir me mudaria muito mais do que qualquer outra de antes.

O dia da viagem

Meu voo saía do Aeroporto de Guarulhos. Estava marcado para 20h30 do dia 28 de outubro.

Eu nunca tinha ido até aquele aeroporto, por isso decidi ir um pouco mais cedo, acompanhada da minha amiga Sofia, que trabalha no aeroporto.

Quando estava saindo de casa, recebi um e-mail informando que meu voo tinha sido cancelado e que eu havia sido alocada para o voo das 5h da manhã seguinte. Conversei com a minha amiga e ela me aconselhou a ir até o aeroporto e tentar uma realocação em alguma outra companhia. Quando cheguei, a fila já estava grande e, segundo os atendentes, o sistema estava lento.

Fila no guiche da companhia

Passei 4h em pé em uma fila em busca de uma realocação. Depois de tanto tempo, você começa a conversar com pessoas que estão na mesma situação que você.

O meu destino era Porto, em Portugal, e havia uma conexão em Madrid. Havia pessoas indo para diversos destinos, algumas também para Portugal. Muitos comentavam sobre como poderia ser difícil se comunicar no aeroporto de Madrid, onde os funcionários são conhecidos por sua arrogância e grosseria.

Adoro assistir documentários de aeroportos, e assistindo o de Miami, uma vez uma funcionária comentou que um dos maiores problemas dentro de aeroportos com cancelamentos e atrasos é manter o público calmo. Isso não aconteceu naquela fila. Depois de algumas horas, houve bate boca e estresses de pessoas que queriam prioridade ou furar a fila. Foi bem estressante, e esse foi o meu primeiro perrengue chique.

Consegui a alocação por outra companhia aérea, desta vez com a conexão em Lisboa. Fiquei feliz, já que o idioma na imigração não seria uma barreira. Antes de embarcar, ainda consegui dar um abraço na Sofia e agradecer pelo café que ela me levou enquanto eu estava na fila.

Enquanto eu estava na fila, ela aindam levou café.

E o bom disso tudo é que o voo estava vazio e consegui dormir esticada nas quatro cadeiras da fileira do meio da aeronave.

Passei pela imigração em Lisboa, foi muito tranquilo e mesmo eu com minha pasta cheia de documentos à disposição, a moça apenas perguntou se eu ia para estudar e logo depois carimbou meu passaporte.

A parte ruim é que a minha previsão de chegada era às 11h40 lá no Porto, mas cheguei apenas às 16h30. E foi incrível sair do portão, exausta, carregando minhas malas, e ver Daniel me esperando com café quentinho. <3

Eu havia realmente chegado na Europa. E ali eu senti que minha viagem havia começado.

Uma semana no Porto.

Passei uma semana em Portugal, no Porto, antes de ir para Malta. Comprei uma calça e duas camisas no brechó da imagem abaixo, o que me custou o total de 4€!

Brechó numa praça

Aproveitei para rever minha amiga Lindley. A última vez que tínhamos nos visto tinha sido em Lisboa, em 2023. Ela estava de passagem por lá, e eu também, voltando para o Brasil.

Lindley e eu

Nos conhecemos na faculdade. Tínhamos uma amiga em comum e eu a observava e a admirava por entre os corredores da Faculdade de Letras, na UFRJ.

Quando estava ainda me inscrevendo na Soul Bilíngue, ela me contou que eles contribuíram para sua vaquinha quando estava para imigrar com a irmã.

Não éramos proximas, nem aqui no Brasil, e nem quando nos vimos em Lisboa. Mas dessa vez foi diferente.

Ela agora morava no Porto. Saímos juntas para almoçar, para tomar uma cerveja e esses encontros com ela tornaram essa relação um pouco mais especial. Ela também é da Baixada Fluminense, então podíamos compartilhar visões que só nós duas conseguiríamos entender.

Compartilhar o caos que é ter acesso aos “benefícios” de estar na Europa; conversar sobre a esperança de uma revolta armada; e trocar abraços quando ela falava da saudade do Rio de Janeiro. Houve lágrimas derramadas, mas também a vi dar risada – algo que eu tinha acabado de descobrir que, por mais sorridente que ela fosse, não era algo fácil.

Lindley mostrando o anel que comprou no brechó

Foram só alguns dias, poucos momentos. Mas dali a um mês, eu voltaria pro Porto, e teríamos mais tempo juntas para estreitar uma amizade sincera que havia acabado de começar, de forma espontânea e acolhedora.