Line ليني

Estudante de letras escrevendo um pouco sobre tudo. Ah, e apaixonada por rosa. telegram: @alinesmota

Carta para alguém que nunca soube ler

Quando penso em você, a minha memória é da gente na praia. Sua mão segurava a minha enquanto eu me banhava bem naquele pedacinho de mar que não chegava ao calcanhar. Às vezes, você sumia, e quando eu conseguia avistar uma careca brilhante quase em alto mar, já sabia quem estava lá. Você voltava reclamando da água gelada que deu câimbra, abraçava todo mundo com o corpo molhado e até trazia alguns mariscos que pegou no meio desta aventura. Ah, essa careca! Já te conheci com ela. Você andava com aquele pentezinho redondo, bem “de velho”, e vivia penteando. Pouco cabelo, mas pouco cabelo sempre arrumado. Em casa, durante o dia, a gente não podia fazer barulho, porque você trabalhava à noite e era seu momento para descansar. Na bolsa do trabalho, carregava um banquinho portátil para o trem cheio e um clássico espelho de borda laranja que tirava da bolsa, virava para alguém e perguntava “qual é o bicho que vai dar hoje?”. Depois esse trabalho mudou. Você voltou a fazer e vender salgadinhos… OS MELHORES SALGADINHOS DO MUNDO! E enquanto eles estavam sendo feitos, não podíamos entrar na cozinha de jeito nenhum, para não cair cabelo! E como você brigava e brigava por isso. Sempre foi meio nojento, né? Não bebia água na casa dos outros porque tinha nojo dos copos; evitava comer na rua porque tinha nojo das unhas… Você comprava as coisas mais inúteis do mundo. Lembro da vez que voltamos de São Paulo com um pilão gigante que você nunca usou. Eu usava pra brincar, mas tinha que ser escondido. Às vezes eu acho que minha fobia de sapos foi herdada de você, porque lembro que odiava até as pelúcias. E eu amava te dar susto com elas. E falando em susto, tá aí algo que me lembra MUITO você. Vivia me dando susto, mas não só comigo. Era com todo mundo. E algumas vezes errava a dose, como quando fingiu que minha irmã tinha sido roubada na cachoeira e fez minha mãe pirar. Você sempre foi conversador, mas nem todos os netos te davam bola, né? Só eu. Você sempre foi curioso, mas ninguém tinha muita paciência para te ensinar. Só eu. Uma vez, ouvi você chamando a vovó pra dançar na sala. Eu estava na varanda. Ela não quis e respondeu “as crianças estão aí!”. Você foi a primeira pessoa a me dizer que me amaria independente de qualquer escolha que eu tomasse na minha vida. Foi quem ficou do meu lado quando papai me deu tapa na cara, que ficou do meu lado quando papai fazia questão de me humilhar. Você foi meu primeiro “aluno de informática”. Meu exemplo de motivação e que me ensinou a ter paciência para ensinar. Você foi meu primeiro patrão, aos sábado, quando eu tinha 11 ou 12 anos. Você muitas vezes foi rude, teve falas problemáticas; ou brigou comigo por eu me interessar em conversa de adulto, por sentar de perna aberta, por corrigir a fala dos outros, e por puxar o mouse ou celular da sua mão, em vez de ensinar a fazer. Ah, e se tem uma coisa em que você era bom – além da cozinha, das piadas, e do nado – era na matemática! Chegava em um lugar e conseguia calcular a metragem em alguns minutos, só no olhar. É… essa carta é para alguém que nunca soube ler e agora nem pode mais aprender. Alguém que não soube ler textos, mas sabia ler pessoas, sentimentos e corações. Sabia calcular, não só a metragem quadrada, mas a soma de todos os amores à sua volta. Vovô, é muito estranho pensar que você não está mais aqui. Mas vá em paz, sabendo do meu profundo amor e da minha enorme admiração por ti. Infelizmente, acho que nunca tive a coragem de verbalizar que sempre amei muito você.

De sua neta “universitária que mora longe”, Aline Mota

Rio de Janeiro, 18 de novembro de 2022.

você é lenha fogo carvão vento até graveto mantém meu fogo aceso e desafia as leis da física mesmo com seu corpo molhado em mim não me apaga mais me molha e me queima por dentro

(Mar, 2023)

Não fui à feira pra te ver.

Pelo contrário, fui à feira com você. Simples momento de acalento, pensando em alimento que nem precisa ser comida. Alimentei-me do cheiro dos temperos, das cores das frutas e do verde das escarolas e chicórias que vi pelas bancadas. Provei uma fruta nova. Diferente. E dela deixei a semente seguir pela minha garganta para que semeie em mim todo seu doce sabor. —

Sinto a mistura de todos os cheiros, cores e sons com seus olhares, falas e toques. A companhia simples, mas que deixa tudo mais gostoso. Como um limão, em um caldo de cana, melhorando o que já era de bom gosto.

(Abr, 2023)

precisei fugir do nosso mundo pra recriar o meu com miséria de medo e fartura de afeto —

ando dando não pra miséria quero minha dispensa cheia de amor, cuidado e carinho corpo preto forte demais pra ser cuidado escuro demais pra ser amado mulher preta que só serve pra servir ou tapar algum buraco que não fui eu que abri

(Jun, 2022)

Blackout Quem gosta de ficar no escuro? Há luz pra todo mundo?

Ambientes muito claros me trazem insegurança Tenho fotofobia E quando escureço minha vida Encontro conforto Porque meus olhos não choram

Blackout. Quem gosta de se sentir inseguro? Prefiro estar com os meus No breu A estar sozinha Em um local translúcido.

(Jun, 2020)

gostar de barulho de chuva pra dormir... tá aí um privilégio que nunca tive! quando via as gotas caindo já sentia meu desespero vindo seria mais uma noite acordada atenta aos barulhos da madrugada com cochilos e sustos e pesadelos onde eu morria soterrada via o desespero de mamãe olhando as árvores balançando mandando eu parar de chorar às vezes também aos prantos dizendo que a chuva já ia passar ou cantando pra disfarçar o barulho do barranco que caía atrás de algum cômodo

no fim da chuva torrencial mamãe tentava ser otimista com uma sensação de alívio e alegria dizia “deu pra guardar bastante água graças a Jeová. fazia tempo que não chovia”

gostar de barulho de chuva pra dormir... tá aí um privilégio que nunca tive! quando via as gotas caindo já sentia meu desespero vindo seria mais uma noite acordada atenta aos barulhos da madrugada com cochilos e sustos e pesadelos onde eu morria soterrada via o desespero de mamãe olhando as árvores balançando mandando eu parar de chorar às vezes também aos prantos dizendo que a chuva já ia passar ou cantando pra disfarçar o barulho do barranco que caía atrás de algum cômodo

no fim da chuva torrencial mamãe tentava ser otimista com uma sensação de alívio e alegria dizia “deu pra guardar bastante água graças a Jeová. fazia tempo que não chovia”

tu me chama pra dá um dois faço questão de bolar quatro nós faz um corre e até meio dia fuma um quarto divido uma seda com duas piteira pra dois bem bolado acendo os dois um de cada lado e fazendo fofoca nós fuma um, dobrado

tem gente que me tira dos eixos e eu nem sou um caminhão é a insegurança da ultrapassagem em que tu não sabe se pode ir ou não

minha prova do detran nunca fiz mas sinto que reprovaria de primeira

és a quinta marcha mas só dirigi automáticos

a baliza que me fez bater no poste de tanto nervosismo

Uma crespa em desespero

Desde muito jovem, meus cabelos foram uma questão. Minha mãe tem cabelo liso – levemente ondulado, segundo ela –, e sempre reclamava de ter que arrumar o meu. “Você puxou o cabelo duro da família do seu pai” e por volta dos 11 anos passei pelo maldito processo que praticamente toda mulher de cabelo crespo já passou: o famoso alisamento. Não sei se alisamento é realmente um bom termo, porque o cabelo fica de um jeito que nem sei descrever, mas não é alisado com certeza. Eu chamava de relaxamento, o que faz muito mais sentido pra mim hoje. Mamãe me acordava duas horas antes do horário previsto para nossa saída para lavar, pentear e fazer as simples e demoradas tranças baianas, para não parecer que meu cabelo cresce pro alto; para não mostrar que ele é crespo. Na escola, andava com cabelo amarrado e mamãe dizia que era para prevenir a manifestação de piolhos. E um dia, aquelas pessoas que fotografavam crianças com adereços e acessórios fofos apareceram onde eu estudava, e mamãe pagou para eu ser fotografada. Fui de trança, com o cabelo grande e penteado (diria até que aparentava ser evangélica, mas não sei até que ponto isso pode ser pejorativo), mas uma das funcionárias não se contentou com minha trança e teve a ideia de soltar meu cabelo para pentear. Pentear meu cabelo, crespo, à seco. Isso aconteceu; e sim, ela era branca. Lembro muito bem dela percebendo que tinha feito besteira quando penteou a primeira mecha. Ela chegou a pedir ajuda a outro funcionário, porque não sabia como lidar com meu cabelo. Não julgarei, por muito tempo nem eu soube. Voltei pra sala com tristeza, com medo de ouvir alguma “gracinha” (leia: racismo) de algum colega. Quando cheguei em casa, a frase que mamãe exclamou foi “QUE CABELO É ESSE?!” e expliquei toda a situação desesperadora. Minha mãe deve ter ficado chateada, pois já tinha me arrumado, mas a fotógrafa achou que não. A foto está em sua estante até hoje. Odiei a foto por muito tempo, por achar que meu cabelo estava extremamente horrível e com aspecto de “cabelo ruim”. Hoje, olho pra essa fotografia e vejo uma menina, sem dente, com cabelo natural e olhinhos brilhantes de criança. E queria dizer para a pequena Aline daquele dia que seu cabelo era lindo. E mais, que sua beleza transparecia de qualquer jeito.

(Aline Mota, 2019)