<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/">
  <channel>
    <title>dobrado</title>
    <link>https://blog.bantu.social/dobrado/</link>
    <description></description>
    <pubDate>Mon, 04 May 2026 18:25:49 +0000</pubDate>
    <item>
      <title>us memu preto zica (ou Emicida, Racionais, Trindade e raízes)</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/us-memu-preto-zica-ou-emicida-racionais-trindade-e-raizes</link>
      <description>&lt;![CDATA[O ano era 2019 e Emicida lançava o álbum AmaRelo. Quando ouvi as músicas, que soavam suaves e doloridas iguais às lágrimas de um pretinho que não podia chorar, eu entendi muita coisa. Entendi que o rap não podia ser excludente, que o rap deveria proteger pessoas, ensinar e trazer esperança. Seja ela pela violência de um Facção Central, pela tradição de um Athaliba e a Firma ou pelo colorido de um Rico Dalasam. O AmaRelo não era só pros pretos e pretas. Ele foi para todo mundo que, naquele momento, fugia de um discurso fascista de ódio e perseguição.&#xA;&#xA;AmaRelo era esperança.&#xA;!--more--&#xA;Em pouco tempo, se tornou o hino de muita gente e, durante a explosão da pandemia de 2020, se tornou a esperança daquelas pessoas que só queriam sobreviver mais um dia que parecia não acabar nunca. O &#34;lá-ia, lá-ia, lá, ia&#34; das pessoas escravizadas, levava esperança para as pessoas brancas trancadas em casa. Explicavam pra elas o que toda pessoa preta sempre soube:&#xA;&#xA;Tudo que nóiz tem é nóiz.&#xA;&#xA;O AmaRelo nos ensinou que tudo tem sua ordem. Seu começo e seu fim. Que o mesmo ódio no coração de toda pessoa brasileira, havia uma beleza infindável a mais do que a gente conhecia. AmaRelo usou nossa dor pra juntar nossos cacos e construir corações em conjuntos. E seis anos depois, Emicida retorna com o &#34;Emicida Racional VL. 3&#34;.&#xA;&#xA;&#34;Quem é me compreende, quem é rap sabe&#34; - Sabotage&#xA;&#xA;Um pouco de Tim Maia, um pouco de Kl Jay, um pouco de Vida Loka, mas sempre Racionais. Quem é preto como eu, já ta ligado qual é. Todas as batidas das raízes de um Emicida, eram rimadas pelas raízes Racionais do rap. Era sobre nós, era para nós. Dessa vez só pra nóis, porque ouvir Voz Ativa sempre nos traz um ódio bom, que só nosso peito conhece. Talvez por isso, depois do AmaRelo, essa fita mixada seja tão underground.&#xA;&#xA;Algumas semanas depois, ele lança o &#34;Emicida Racional VL 2 - Mesmas Cores &amp; Mesmos Valores&#34;. Emicida usou o  mais controverso álbum dos Racionais MC&#39;s para provar que ele ainda é um MC. Que ele ainda caminha com a gente. Ele apagou as fotos do Instagram e colou nas batalhas de rap, uma volta às raízes de um tempo que mordia cachorro por fome.&#xA;&#xA;&#34;Zica, vai lá!&#34; - Deus&#xA;&#xA;Apesar das Mesmas Cores &amp; Mesmos Valores, nos mostrou que somos Legítimos Herdeiros disso tudo. Que o rap é nosso, que o Hip Hop foi criado por nóis, que os tambores ainda são tocados por nóis, que a rua ainda é nóis. E mesmo depois do sopro do AmaRelo, ainda questionávamos &#34;o que nóiz faz com essa dor?&#34;. A gente ainda é duro como a ponta de uma caneta, que foge de tiros laicos n&#39;A mema praça.&#xA;&#xA;E no final, quando ele rima as músicas do Racionais Mc&#39;s, pra contar uma nova história ele diz pra gente que a história ainda é nossa. Que o rap ainda é nosso. Que os tambores ainda é nosso. Que as MPC ainda é nossa.&#xA;&#xA;A rua ainda é nóiz.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>O ano era 2019 e Emicida lançava o álbum AmaRelo. Quando ouvi as músicas, que soavam suaves e doloridas iguais às lágrimas de um pretinho que não podia chorar, eu entendi muita coisa. Entendi que o rap não podia ser excludente, que o rap deveria proteger pessoas, ensinar e trazer esperança. Seja ela pela violência de um Facção Central, pela tradição de um Athaliba e a Firma ou pelo colorido de um Rico Dalasam. O AmaRelo não era só pros pretos e pretas. Ele foi para todo mundo que, naquele momento, fugia de um discurso fascista de ódio e perseguição.</p>

<p>AmaRelo era esperança.

Em pouco tempo, se tornou o hino de muita gente e, durante a explosão da pandemia de 2020, se tornou a esperança daquelas pessoas que só queriam sobreviver mais um dia que parecia não acabar nunca. O “lá-ia, lá-ia, lá, ia” das pessoas escravizadas, levava esperança para as pessoas brancas trancadas em casa. Explicavam pra elas o que toda pessoa preta sempre soube:</p>

<p>Tudo que nóiz tem é nóiz.</p>

<p>O AmaRelo nos ensinou que tudo tem sua ordem. Seu começo e seu fim. Que o mesmo ódio no coração de toda pessoa brasileira, havia uma beleza infindável a mais do que a gente conhecia. AmaRelo usou nossa dor pra juntar nossos cacos e construir corações em conjuntos. E seis anos depois, Emicida retorna com o “Emicida Racional VL. 3”.</p>

<p>“Quem é me compreende, quem é rap sabe” – Sabotage</p>

<p>Um pouco de Tim Maia, um pouco de Kl Jay, um pouco de Vida Loka, mas sempre Racionais. Quem é preto como eu, já ta ligado qual é. Todas as batidas das raízes de um Emicida, eram rimadas pelas raízes Racionais do rap. Era sobre nós, era para nós. Dessa vez só pra nóis, porque ouvir Voz Ativa sempre nos traz um ódio bom, que só nosso peito conhece. Talvez por isso, depois do AmaRelo, essa fita mixada seja tão underground.</p>

<p>Algumas semanas depois, ele lança o “Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores &amp; Mesmos Valores”. Emicida usou o  mais controverso álbum dos Racionais MC&#39;s para provar que ele ainda é um MC. Que ele ainda caminha com a gente. Ele apagou as fotos do Instagram e colou nas batalhas de rap, uma volta às raízes de um tempo que mordia cachorro por fome.</p>

<p>“Zica, vai lá!” – Deus</p>

<p>Apesar das Mesmas Cores &amp; Mesmos Valores, nos mostrou que somos Legítimos Herdeiros disso tudo. Que o rap é nosso, que o Hip Hop foi criado por nóis, que os tambores ainda são tocados por nóis, que a rua ainda é nóis. E mesmo depois do sopro do AmaRelo, ainda questionávamos “o que nóiz faz com essa dor?”. A gente ainda é duro como a ponta de uma caneta, que foge de tiros laicos n&#39;A mema praça.</p>

<p>E no final, quando ele rima as músicas do Racionais Mc&#39;s, pra contar uma nova história ele diz pra gente que a história ainda é nossa. Que o rap ainda é nosso. Que os tambores ainda é nosso. Que as MPC ainda é nossa.</p>

<p>A rua ainda é nóiz.</p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/us-memu-preto-zica-ou-emicida-racionais-trindade-e-raizes</guid>
      <pubDate>Tue, 30 Dec 2025 20:46:36 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Santissima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-hqv3</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia&#xA;Capitulo 2 - Kamikakushi&#xA;Capítulo 3 - Trimúrti&#xA;Capítulo 4 - O fim&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;“Tive que sobreviver. Vocês dois tiveram vida de playboy, eu cresci na zona industrial. Os Revolucionários foram minha salvação, consegui sobreviver muitos anos ainda. E lá eu tive um propósito para minha vida. Quando você apareceu naquele prédio, eu precisei escolher salvar o que era mais importante pra mim. Não foi fácil e me garantiu um futuro. E a gente nem era tão amigo assim, só nos conhecemos há muito tempo.”&#xA;&#xA;Nenhum dos dois esboçou reação alguma para o que havia sido dito. A doença, a chuva, os dois anos no fim do mundo. Nada poderia ser mais doloroso que aquelas palavras. Rafa apertava sua mandíbula como se segurasse a raiva que sentia engasgada. Levantou-se apoiando uma das mãos no chão e deu dois passos duros e sonoros, em direção a Marcelo que estava em pé logo depois do batente porta da cozinha. Pedro, encostado na janela com os braços cruzados, acompanhou a amiga com os olhos. Compartilhava da sua dor e raiva.&#xA;&#xA;Ela parou a poucos centímetros dele, sem completar o passo. Dobrou levemente seu joelho esquerdo, apoiando seu peso na perna que havia ficado para trás. Girou o torço para a direita, mantendo seu olhar fixo no do amigo, e fechou seu punho. Com os dedos do seu pé de apoio, forçou-se contra o chão de carpete, ajudando seu corpo a rotacionar de volta como um estilingue. O punho viajou como uma flecha acertando o rosto, que nem teve o reflexo de piscar, fazendo-o cair ao mesmo tempo que o braço terminava a trajetória de ira.&#xA;&#xA;“Cala a sua boca! Não precisa contar tudo pra gente, o mundo acabou e fizemos algumas merdas, tudo bem. Mas você não tem o direito de falar que nunca fomos amigos. Vocês são tudo que eu tenho hoje e vai ser tudo que eu vou ter, daqui a dois dias quando acabar o mundo.”&#xA;&#xA;Ainda caído no chão da cozinha, sentou-se puxando as pernas para si e encarou a amiga com o olho que ainda conseguia abrir. Pensou em tantas coisas para falar, mas somente se levantou apoiando no armário da cozinha. Pegou um pano de prato pra estancar o sangue do supercílio aberto e foi em direção à saída.&#xA;&#xA;“A gente te espera aqui, amanhã a noite”. Rafa olhou pela última vez o amigo que, parado na porta, esboçou um sorriso curto e foi embora sem responder. O céu escureceu e não tiveram vontade de conversar. Logo ela deitou-se no sofá e fingiu dormir, Pedro foi fazer o mesmo em sua cama. Talvez o Marcelo só tivesse feito algumas besteiras. Mas, no fundo, tinha esperança que ele ainda voltasse e explicasse tudo.&#xA;&#xA;No dia do fim, o mundo se comportou de forma estranhamente normal. As pessoas foram trabalhar como se bombas não fossem cair de madrugada. O dia passou com a ansiedade e a incerteza do fim. Assistiram a programas de TV que tentavam explicar o acontecido e dava palco para malucos que teorizavam sobre o delírio. No final do dia protegeram as janelas com móveis e deixaram a porta da cozinha destrancada, caso o amigo viesse.&#xA;&#xA;Mas ele não veio. Assim como as bombas.&#xA;&#xA;Ninguém de fato entendeu o que aconteceu ou o que deveria ter acontecido. Os ataques nucleares não aconteceram durante a madrugada e pareceu óbvia a relação com assassinato de seis líderes mundiais naquela noite. O ataque foi coordenado por um grupo desconhecido e até hoje não divulgaram seus nomes ou seus motivos. Pedro e Rafa até hoje são amigos e frequentam o bar favorito do Marcelo. Aquele que escolheu salvar o que era mais importante para si.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade" rel="nofollow">Capítulo 1 – Escatologia</a>
<a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9" rel="nofollow">Capitulo 2 – Kamikakushi</a>
<a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-lgbb" rel="nofollow">Capítulo 3 – Trimúrti</a>
<strong>Capítulo 4 – O fim</strong></p>



<p>“Tive que sobreviver. Vocês dois tiveram vida de playboy, eu cresci na zona industrial. Os Revolucionários foram minha salvação, consegui sobreviver muitos anos ainda. E lá eu tive um propósito para minha vida. Quando você apareceu naquele prédio, eu precisei escolher salvar o que era mais importante pra mim. Não foi fácil e me garantiu um futuro. E a gente nem era tão amigo assim, só nos conhecemos há muito tempo.”</p>

<p>Nenhum dos dois esboçou reação alguma para o que havia sido dito. A doença, a chuva, os dois anos no fim do mundo. Nada poderia ser mais doloroso que aquelas palavras. Rafa apertava sua mandíbula como se segurasse a raiva que sentia engasgada. Levantou-se apoiando uma das mãos no chão e deu dois passos duros e sonoros, em direção a Marcelo que estava em pé logo depois do batente porta da cozinha. Pedro, encostado na janela com os braços cruzados, acompanhou a amiga com os olhos. Compartilhava da sua dor e raiva.</p>

<p>Ela parou a poucos centímetros dele, sem completar o passo. Dobrou levemente seu joelho esquerdo, apoiando seu peso na perna que havia ficado para trás. Girou o torço para a direita, mantendo seu olhar fixo no do amigo, e fechou seu punho. Com os dedos do seu pé de apoio, forçou-se contra o chão de carpete, ajudando seu corpo a rotacionar de volta como um estilingue. O punho viajou como uma flecha acertando o rosto, que nem teve o reflexo de piscar, fazendo-o cair ao mesmo tempo que o braço terminava a trajetória de ira.</p>

<p>“Cala a sua boca! Não precisa contar tudo pra gente, o mundo acabou e fizemos algumas merdas, tudo bem. Mas você não tem o direito de falar que nunca fomos amigos. Vocês são tudo que eu tenho hoje e vai ser tudo que eu vou ter, daqui a dois dias quando acabar o mundo.”</p>

<p>Ainda caído no chão da cozinha, sentou-se puxando as pernas para si e encarou a amiga com o olho que ainda conseguia abrir. Pensou em tantas coisas para falar, mas somente se levantou apoiando no armário da cozinha. Pegou um pano de prato pra estancar o sangue do supercílio aberto e foi em direção à saída.</p>

<p>“A gente te espera aqui, amanhã a noite”. Rafa olhou pela última vez o amigo que, parado na porta, esboçou um sorriso curto e foi embora sem responder. O céu escureceu e não tiveram vontade de conversar. Logo ela deitou-se no sofá e fingiu dormir, Pedro foi fazer o mesmo em sua cama. Talvez o Marcelo só tivesse feito algumas besteiras. Mas, no fundo, tinha esperança que ele ainda voltasse e explicasse tudo.</p>

<p>No dia do fim, o mundo se comportou de forma estranhamente normal. As pessoas foram trabalhar como se bombas não fossem cair de madrugada. O dia passou com a ansiedade e a incerteza do fim. Assistiram a programas de TV que tentavam explicar o acontecido e dava palco para malucos que teorizavam sobre o delírio. No final do dia protegeram as janelas com móveis e deixaram a porta da cozinha destrancada, caso o amigo viesse.</p>

<p>Mas ele não veio. Assim como as bombas.</p>

<p>Ninguém de fato entendeu o que aconteceu ou o que deveria ter acontecido. Os ataques nucleares não aconteceram durante a madrugada e pareceu óbvia a relação com assassinato de seis líderes mundiais naquela noite. O ataque foi coordenado por um grupo desconhecido e até hoje não divulgaram seus nomes ou seus motivos. Pedro e Rafa até hoje são amigos e frequentam o bar favorito do Marcelo. Aquele que escolheu salvar o que era mais importante para si.</p>

<p><strong>Tipo</strong></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-hqv3</guid>
      <pubDate>Wed, 21 Aug 2024 14:08:25 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Esfera de Dyson</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/esfera-de-dyson</link>
      <description>&lt;![CDATA[Naquela sala de cantos arredondados eram tomadas as decisões mais importantes do mundo. Talvez fosse exagero, mas tinha certeza que a hipótese que trazia naquele monte de papéis enrolados na sua mão tremula iriam mudar a vida de todos os seres vivos daquele planeta. O nervosismo fazia seu corpo se balançar em órbita, revezando o peso em cada um de seus pés.&#xA;!--more--&#xA;Era a primeira vez naquele recinto e, de verdade, esperava que nunca precisasse ir para lá. Por mais que seus colegas de trabalho sonhassem com o reconhecimento de ser recebido ali pelo seu Líder Governamental, ela preferia estar no trabalho recolhendo dados de seu telescópio preferido. Já havia perdido a noção do tempo que estava lá esperando, dos ensaios para aquela conversa e até mesmo as dúzias de dias que tinham se passado desde que percebera algo estranho. No começo pensou serem apenas erros nas medições, mas agora, parada próxima ao sofá, não existia a possibilidade daquilo ser apenas um sonho mal dormido.&#xA;&#xA;Em meio aos pensamentos emaranhados, um grupo atravessa abruptamente a porta dupla e pesada, fazendo a parecer tão leve quanto folhas. A frente deles, estava o Líder do Governamental. Seus pés batiam forte fazendo um som de trote, mesmo com sua visão fixada no chão logo a sua frente, parecia muito mais imponente que nas imagens transmitidas diariamente nos noticiários. Ele não olhou pra ela, sentou-se a mesa e esperou calmamento que sua equipe se posicionasse em volta dele como se fossem atores se preparando para uma apresentação. Ao todo eram seis, três pareciam seguranças com sua postura verticalmente perfeita e dois carregavam pastas e pranchetas, segurando-as como se, deixá-las cair, fosse despertar uma nova guerra.&#xA;&#xA;— Pois bem, doutora. Você deve saber que não sou um Líder Governamental preocupado com espaço, estrelas e planetas. Já temos problemas demais aqui no chão pra eu me preocupar com coisas que acontecem nas luas.&#xA;&#xA;— É muito mais longe, senhor. — e se arrependeu totalmente da resposta automática. Sempre teve dificuldades em não ser inconveniente, mas o nervosismo parecia retirar qualquer filtro que aprendera durante esses anos de vida acadêmica.&#xA;&#xA;— É mesmo? Meu Conselheiro de Ciência e Tecnologia que insistiu que eu ouvisse o que você tem pra falar. Fale logo antes que eu me arrependa. — O olhar perfurante fez ela se sentir invisível e desejar novamente estar apenas analisando números no observatório.&#xA;&#xA;— Certo... — abaixou sua cabeça para olhar suas mãos que desenrolavam tremulas os papéis já úmidos e amarrotados. Respirou fundo como enchesse de coragem para começar sua explicação ensaiada dúzias de vezes. — O senhor sabe como nós começamos a observar o espaço? Foi há 2298 anos, quando reparamos uma nova luz no céu. Uma cientista na época desenvolveu o primeiro telescópio e percebeu que a luz era uma estrela tão forte que brilhava até mesmo durante o dia. Após muitos anos descobrimos que isso foi uma supernova, uma estrela como a nossa que explodiu com uma força tão grande que o brilho dela chamou nossa atenção. E foi assim que começamos a nossa pesquisa sobre o espaço.&#xA;&#xA;— Sim, mas e daí? Apareceu mais algum “superestrela” no nosso céu?&#xA;&#xA;— Supernova. — nesse momento dentro dela irradiou um calor tão grande que ela tinha a certeza que poderia explodir de constrangimento e cegar a todos naquela sala, mas pensou rápido e seguiu antes que pudesse haver uma resposta — É exatamente o contrário. — dirigiu-se a mesa e espalhou finalmente os papéis a frente do Líder do Governamental, que prontamente ignorou. — Há aproximadamente cinco dúzias de anos, o nosso Chefe do Departamento de Astronomia documentou que uma estrela estava diminuindo seu brilho gradualmente. Mas como ela estava a mais de 14 mil anos-luz de distância, nunca conseguimos obter informação o suficiente para entender esse fenômeno. Isso se tornou um grande mistério na época, pois antes de morrer, estrelas explodem causando um brilho enorme e somente depois apagam.&#xA;&#xA;Ela parou para retomar seu fôlego, observando se o Líder Governamental estava interessado nos papéis que jogara na mesa, mas ele ainda a observava de uma forma profunda. Ao mesmo tempo que não deixava saber se estava ou não prestando atenção ao que era dito.&#xA;&#xA;— O Chefe do Departamento de Astronomia continuou a monitorar estrelas próximas e somente três dúzias anos atrás, com o lançamento do telescópio A-306, que conseguimos ter uma visão mais completa do universo. Porém, com os cortes em ciência devido à Grande Guerra, muitos estudos foram congelados e essa pesquisa ficou esquecida.&#xA;&#xA;— Sim, o mundo precisou parar e estrelas são menos importantes que as bilhões de vidas perdidas na Grande Guerra.&#xA;&#xA;— Sem dúvidas, Líder Governamental. Porém, uma dúzia de anos atrás fui encarregada de retomar algumas pesquisas que poderiam ser úteis. E entre elas eu encontrei os relatórios antigos do Chefe do Departamento de Astronomia. — ela gentilmente posicionou seis dedos no papel cheio de números e gráficos que estava mais no centro da mesa e empurrou lentamente para o outro lado.&#xA;&#xA;O Líder Governamental abaixou os olhos, girou o papel em sua direção e balançando levemente sua cabeça percorria as linhas ali escritas. Ela esperou impaciente, mas calada, por uma deixa para continuar sua explicação.&#xA;&#xA;Uma deixa que não veio.&#xA;&#xA;— Olhe, por mais que uma ou duas estrelas desapareçam no céu, o que isso tem a ver? Daqui a 24 dias eu vou viajar para discutir o tratado de armas nucleares e sinceramente não vejo por que me preocupar com isso.&#xA;&#xA;— Não são uma ou duas estrelas... Há 28 anos o Chefe do Departamento de Astronomia havia catalogado 8 estrelas que havia diminuído seu brilho. Hoje elas e outras 17 desapareceram dos céus. — Talvez fosse pelo tom preocupado em sua voz, pela falta de folego ou pelos números. Mas ela percebeu que pela primeira vez que o líder estava prestando atenção no que ela dizia. — E cada vez mais, estrelas próximas de nós estão se apagando.&#xA;&#xA;— Você quer dizer que corremos o risco de daqui a alguns anos a nossa estrela se apague?&#xA;&#xA;Ela sentiu que a tensão de seus músculos venceu e calmamente deixou seu corpo cair no sofá e descansou sua visão olhando para janela. Uma das luas brilhava parcialmente coberta por um edifício vizinho. Não sabia muito bem como explicar a hipótese que a incomodava, apesar dos ensaios prévios.  &#xA;&#xA;— O senhor conhece a “Placa de transição de hidrogênio”? Ela foi encontrada por arqueólogos em 3723.&#xA;&#xA;— Sim, um dos meus antepassados era o Líder Governamental na época. Foi uma grande descoberta para nós. Até hoje não sabemos exatamente de onde veio, mas especula-se que alguma civilização de muito longe enviou essa placa de alumínio e ouro. A única informação que conseguimos decifrar foram a “transição hiperfina do hidrogênio” e o que parece ser a representação de seres alienígenas. — declamou como se lesse as informações de um livro escolar.&#xA;&#xA;— Exato. Mas nessa placa existem algumas linhas em um padrão radial, nós sempre supomos que fosse um mapa, mas nunca conseguimos encontrar essa coordenada no espaço. — ela se levantou ainda tremula e arrastou algum de seus pés pela sala até alcançar novamente a mesa e empurrar outro papel para o Líder Governamental — Quando eu retomei a pesquisa do Chefe do Departamento de Astronomia, resolvi alinhar o telescópio A-306 para região da primeira estrela, afim de tentar identificar a causa inicial ou verificar se havia outras estrelas próximas se apagando.&#xA;&#xA;Por um mero momento ela esqueceu que estava ali, respirou fundo duas vezes repassando as informações em sua mente. Será que ela estava louca? Será que era um erro de calibragem? Será que ela seria ridicularizada por todos os séculos restantes de sua vida?  &#xA;&#xA;— Encontrei esses pulsares que se encaixa perfeitamente no descrito na placa. E ao pontar o telescópio para o centro desse padrão pude encontrar uma pequena estrela que possui 9 planetas que orbitam em sua volta.&#xA;&#xA;— Devo confessar, doutora, que quando entrei nessa sala não imaginava que a sua descoberta fosse tão importante. Mas ainda não entendi a urgência e os motivos para que o Conselheiro de Ciência e Tecnologia convocasse essa reunião.  &#xA;&#xA;— O senhor conhece o conceito da “Estrela de Dyson”? — ela esperou por uma resposta, mas entendeu logo que um Líder Governamental não pode simplesmente admitir ignorância e prosseguiu — É uma ideia criada por um filósofo onde diz que o pico energético de uma civilização seria construir uma estrutura que cobrisse totalmente uma estrela, consumindo sua radiação emitida e transformando-a em energia.&#xA;&#xA;— E isso é possível?&#xA;&#xA;— Atualmente, não. Não para nós. Mas em teoria, se uma civilização fosse tecnologicamente avançada o suficiente, iria precisar de muita energia para colonizar outras estrelas e, quem sabe, até mesmo toda nossa galáxia. É provável que após a construção da sua primeira “Esfera de Dyson”, seu crescimento seria exponencial e predaria outras estrelas e sistemas estrelares.&#xA;&#xA;Um silêncio dominou novamente a sala, pela primeira vez o Líder Governamental jogou seu corpo para trás, fazendo a cadeira reclinar e desviando o olhar para o teto. Ela, impaciente, rompeu o silêncio que incomodava a todos na sala.&#xA;&#xA;— Não sei se o senhor compreendeu o que estou propondo, mas...&#xA;&#xA;— Sim, eu entendi. Você esta supondo que a civilização que enviou “Placa de transição de hidrogênio” é muito mais avançada que a nossa e que esta consumindo outras estrelas, colonizando nossa galáxia.&#xA;&#xA;— Sim. — pela última vez respirou fundo e soltou os finalmente os ombros — E estão vindo na nossa direção.&#xA;&#xA;contos]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Naquela sala de cantos arredondados eram tomadas as decisões mais importantes do mundo. Talvez fosse exagero, mas tinha certeza que a hipótese que trazia naquele monte de papéis enrolados na sua mão tremula iriam mudar a vida de todos os seres vivos daquele planeta. O nervosismo fazia seu corpo se balançar em órbita, revezando o peso em cada um de seus pés.

Era a primeira vez naquele recinto e, de verdade, esperava que nunca precisasse ir para lá. Por mais que seus colegas de trabalho sonhassem com o reconhecimento de ser recebido ali pelo seu Líder Governamental, ela preferia estar no trabalho recolhendo dados de seu telescópio preferido. Já havia perdido a noção do tempo que estava lá esperando, dos ensaios para aquela conversa e até mesmo as dúzias de dias que tinham se passado desde que percebera algo estranho. No começo pensou serem apenas erros nas medições, mas agora, parada próxima ao sofá, não existia a possibilidade daquilo ser apenas um sonho mal dormido.</p>

<p>Em meio aos pensamentos emaranhados, um grupo atravessa abruptamente a porta dupla e pesada, fazendo a parecer tão leve quanto folhas. A frente deles, estava o Líder do Governamental. Seus pés batiam forte fazendo um som de trote, mesmo com sua visão fixada no chão logo a sua frente, parecia muito mais imponente que nas imagens transmitidas diariamente nos noticiários. Ele não olhou pra ela, sentou-se a mesa e esperou calmamento que sua equipe se posicionasse em volta dele como se fossem atores se preparando para uma apresentação. Ao todo eram seis, três pareciam seguranças com sua postura verticalmente perfeita e dois carregavam pastas e pranchetas, segurando-as como se, deixá-las cair, fosse despertar uma nova guerra.</p>

<p>— Pois bem, doutora. Você deve saber que não sou um Líder Governamental preocupado com espaço, estrelas e planetas. Já temos problemas demais aqui no chão pra eu me preocupar com coisas que acontecem nas luas.</p>

<p>— É muito mais longe, senhor. — e se arrependeu totalmente da resposta automática. Sempre teve dificuldades em não ser inconveniente, mas o nervosismo parecia retirar qualquer filtro que aprendera durante esses anos de vida acadêmica.</p>

<p>— É mesmo? Meu Conselheiro de Ciência e Tecnologia que insistiu que eu ouvisse o que você tem pra falar. Fale logo antes que eu me arrependa. — O olhar perfurante fez ela se sentir invisível e desejar novamente estar apenas analisando números no observatório.</p>

<p>— Certo... — abaixou sua cabeça para olhar suas mãos que desenrolavam tremulas os papéis já úmidos e amarrotados. Respirou fundo como enchesse de coragem para começar sua explicação ensaiada dúzias de vezes. — O senhor sabe como nós começamos a observar o espaço? Foi há 2298 anos, quando reparamos uma nova luz no céu. Uma cientista na época desenvolveu o primeiro telescópio e percebeu que a luz era uma estrela tão forte que brilhava até mesmo durante o dia. Após muitos anos descobrimos que isso foi uma supernova, uma estrela como a nossa que explodiu com uma força tão grande que o brilho dela chamou nossa atenção. E foi assim que começamos a nossa pesquisa sobre o espaço.</p>

<p>— Sim, mas e daí? Apareceu mais algum “superestrela” no nosso céu?</p>

<p>— Supernova. — nesse momento dentro dela irradiou um calor tão grande que ela tinha a certeza que poderia explodir de constrangimento e cegar a todos naquela sala, mas pensou rápido e seguiu antes que pudesse haver uma resposta — É exatamente o contrário. — dirigiu-se a mesa e espalhou finalmente os papéis a frente do Líder do Governamental, que prontamente ignorou. — Há aproximadamente cinco dúzias de anos, o nosso Chefe do Departamento de Astronomia documentou que uma estrela estava diminuindo seu brilho gradualmente. Mas como ela estava a mais de 14 mil anos-luz de distância, nunca conseguimos obter informação o suficiente para entender esse fenômeno. Isso se tornou um grande mistério na época, pois antes de morrer, estrelas explodem causando um brilho enorme e somente depois apagam.</p>

<p>Ela parou para retomar seu fôlego, observando se o Líder Governamental estava interessado nos papéis que jogara na mesa, mas ele ainda a observava de uma forma profunda. Ao mesmo tempo que não deixava saber se estava ou não prestando atenção ao que era dito.</p>

<p>— O Chefe do Departamento de Astronomia continuou a monitorar estrelas próximas e somente três dúzias anos atrás, com o lançamento do telescópio A-306, que conseguimos ter uma visão mais completa do universo. Porém, com os cortes em ciência devido à Grande Guerra, muitos estudos foram congelados e essa pesquisa ficou esquecida.</p>

<p>— Sim, o mundo precisou parar e estrelas são menos importantes que as bilhões de vidas perdidas na Grande Guerra.</p>

<p>— Sem dúvidas, Líder Governamental. Porém, uma dúzia de anos atrás fui encarregada de retomar algumas pesquisas que poderiam ser úteis. E entre elas eu encontrei os relatórios antigos do Chefe do Departamento de Astronomia. — ela gentilmente posicionou seis dedos no papel cheio de números e gráficos que estava mais no centro da mesa e empurrou lentamente para o outro lado.</p>

<p>O Líder Governamental abaixou os olhos, girou o papel em sua direção e balançando levemente sua cabeça percorria as linhas ali escritas. Ela esperou impaciente, mas calada, por uma deixa para continuar sua explicação.</p>

<p>Uma deixa que não veio.</p>

<p>— Olhe, por mais que uma ou duas estrelas desapareçam no céu, o que isso tem a ver? Daqui a 24 dias eu vou viajar para discutir o tratado de armas nucleares e sinceramente não vejo por que me preocupar com isso.</p>

<p>— Não são uma ou duas estrelas... Há 28 anos o Chefe do Departamento de Astronomia havia catalogado 8 estrelas que havia diminuído seu brilho. Hoje elas e outras 17 desapareceram dos céus. — Talvez fosse pelo tom preocupado em sua voz, pela falta de folego ou pelos números. Mas ela percebeu que pela primeira vez que o líder estava prestando atenção no que ela dizia. — E cada vez mais, estrelas próximas de nós estão se apagando.</p>

<p>— Você quer dizer que corremos o risco de daqui a alguns anos a nossa estrela se apague?</p>

<p>Ela sentiu que a tensão de seus músculos venceu e calmamente deixou seu corpo cair no sofá e descansou sua visão olhando para janela. Uma das luas brilhava parcialmente coberta por um edifício vizinho. Não sabia muito bem como explicar a hipótese que a incomodava, apesar dos ensaios prévios.</p>

<p>— O senhor conhece a “Placa de transição de hidrogênio”? Ela foi encontrada por arqueólogos em 3723.</p>

<p>— Sim, um dos meus antepassados era o Líder Governamental na época. Foi uma grande descoberta para nós. Até hoje não sabemos exatamente de onde veio, mas especula-se que alguma civilização de muito longe enviou essa placa de alumínio e ouro. A única informação que conseguimos decifrar foram a “transição hiperfina do hidrogênio” e o que parece ser a representação de seres alienígenas. — declamou como se lesse as informações de um livro escolar.</p>

<p>— Exato. Mas nessa placa existem algumas linhas em um padrão radial, nós sempre supomos que fosse um mapa, mas nunca conseguimos encontrar essa coordenada no espaço. — ela se levantou ainda tremula e arrastou algum de seus pés pela sala até alcançar novamente a mesa e empurrar outro papel para o Líder Governamental — Quando eu retomei a pesquisa do Chefe do Departamento de Astronomia, resolvi alinhar o telescópio A-306 para região da primeira estrela, afim de tentar identificar a causa inicial ou verificar se havia outras estrelas próximas se apagando.</p>

<p>Por um mero momento ela esqueceu que estava ali, respirou fundo duas vezes repassando as informações em sua mente. Será que ela estava louca? Será que era um erro de calibragem? Será que ela seria ridicularizada por todos os séculos restantes de sua vida?</p>

<p>— Encontrei esses pulsares que se encaixa perfeitamente no descrito na placa. E ao pontar o telescópio para o centro desse padrão pude encontrar uma pequena estrela que possui 9 planetas que orbitam em sua volta.</p>

<p>— Devo confessar, doutora, que quando entrei nessa sala não imaginava que a sua descoberta fosse tão importante. Mas ainda não entendi a urgência e os motivos para que o Conselheiro de Ciência e Tecnologia convocasse essa reunião.</p>

<p>— O senhor conhece o conceito da “Estrela de Dyson”? — ela esperou por uma resposta, mas entendeu logo que um Líder Governamental não pode simplesmente admitir ignorância e prosseguiu — É uma ideia criada por um filósofo onde diz que o pico energético de uma civilização seria construir uma estrutura que cobrisse totalmente uma estrela, consumindo sua radiação emitida e transformando-a em energia.</p>

<p>— E isso é possível?</p>

<p>— Atualmente, não. Não para nós. Mas em teoria, se uma civilização fosse tecnologicamente avançada o suficiente, iria precisar de muita energia para colonizar outras estrelas e, quem sabe, até mesmo toda nossa galáxia. É provável que após a construção da sua primeira “Esfera de Dyson”, seu crescimento seria exponencial e predaria outras estrelas e sistemas estrelares.</p>

<p>Um silêncio dominou novamente a sala, pela primeira vez o Líder Governamental jogou seu corpo para trás, fazendo a cadeira reclinar e desviando o olhar para o teto. Ela, impaciente, rompeu o silêncio que incomodava a todos na sala.</p>

<p>— Não sei se o senhor compreendeu o que estou propondo, mas...</p>

<p>— Sim, eu entendi. Você esta supondo que a civilização que enviou “Placa de transição de hidrogênio” é muito mais avançada que a nossa e que esta consumindo outras estrelas, colonizando nossa galáxia.</p>

<p>— Sim. — pela última vez respirou fundo e soltou os finalmente os ombros — E estão vindo na nossa direção.</p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/esfera-de-dyson</guid>
      <pubDate>Sat, 06 Jan 2024 13:03:26 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Santissima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-lgbb</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia&#xA;Capitulo 2 - Kamikakushi&#xA;Capítulo 3 - Trimúrti!--more--&#xA;&#xA;O fogo saía azul e se transformava em uma cor amarelada, indicava que o gás estava no fim, mas que a civilização ainda existia. Distraído pela chama, Pedro percebeu que percebia como sentiu falta até mesmo do assobio agudo da sua chaleira. Filtrou o café em sua garrafa térmica preta, que combinavam com os detalhes do seu apartamento industrial, atravessou a sala e não conseguia tirar o sorriso na sua boca vendo seus amigos ali.&#xA;&#xA;Rafa estava sentada com os pés na poltrona, que ficava de costas pra cozinha. Vestia o clássico macacão surrado e uma camisa branca. Comia o sorvete duro entortando a fina colher de metal enquanto discutia com Marcelo sobre o final do mundo. Ele, no entanto, encostado na janela da sala, questionava detalhes da história, entre um pega e outro do seu baseado, pois não tinha essas lembranças.&#xA;&#xA;“Então, vocês estão me dizendo que houve bombas no mundo todo, rolou um inverno nuclear. Todos morreram, menos nós, que ficamos vagando pelas ruas por dois anos até chegar nossa hora. Voltamos no tempo e agora só algumas pessoas lembram?”, deu uma longa tragada e esticou a mão para ela, “Sei lá, não pode ser outra coisa? Centésimo macaco? Histeria coletiva? Eu sei que o mundo tá esquisito, não entendi ainda o que ta rolando. Você apareceu em casa toda desesperada, no chat do trampo uma galera ta histérica falando de déjà vu, enquanto outras tão tipo eu. Eu não tô duvidando de vocês, mas quero entender”&#xA;&#xA;Enquanto discutiam os acontecimentos, Pedro continuou calado, sentado no chão. Tentava dividir sua atenção entre os dois discutindo, a apresentadora de TV e seus pensamentos. Olhou a data em seu celular e faltavam poucos dias para as explosões, sentiu um arrepio que disparou seu coração ao lembrar da chuva ácida que corroeu sua pele por meses.&#xA;&#xA;“Você não morreu…”, seu sussurro quebrou a conversa e chamou toda atenção para si. “Eu morri do lado da Rafa, logo depois dela. Você ficou vivo”, tentou encará-lo, mas o sol lá fora ofuscava transformando-o em sombra. “Nós dois acordamos logo depois de morrer, você não. Talvez você não tenha morrido, por isso não se lembra”.&#xA;&#xA;“Espera… Eu lembro de ter ficado doente logo depois do Marcelo sumir. Mas como você morreu?”, o silêncio dominou a sala por extensos segundos. Entre o balançar ansioso da Rafa e o olhar que evita o mundo de Marcelo, Pedro continuou. “Eu levei um tiro, perto o bairro industrial. Estava procurando comida, quando fui abordado por um cara do grupo dos Revolucionários e ele atirou em mim”, buscou o olhar do amigo que havia lhe ferido, mas ele agora soprava a fumaça para fora da janela.&#xA;&#xA;A sala adotou um som sepulcral. A Rafa sentou-se no chão ao lado dele e apertou sua mão. Marcelo ocupou o lugar dela na poltrona, largando-se como se ocupasse mais espaço do que era possível. Era bom estar ali, com seus amigos, mas sentia um incômodo, pois sempre que o olhava, ele retribuía como se olhasse por cima dos seus ombros.&#xA;&#xA;Ela se levantou, saltitou, como sempre evitando os calcanhares no chão, até o banheiro comentando como sentiu falta de sentar em uma privada limpa. Passou pela porta, mas saiu colocando somente a cabeça pra fora, “Ainda bem que no fim do mundo tive vocês ao meu lado”, e voltou.&#xA;&#xA;Pedro caminhou seus olhos por cada centímetro da sala até encontrar os pés descalços do Marcelo. A bermuda de basquete e a camisa velha era exatamente como lembrava dele. Mas quando alcançou seus olhos, se encararam o suficiente para ouvir o ponteiro do relógio na parede se mover. Percebeu o contemplar sofrido dele e naquele momento não tinha como ter dúvidas: Ele também se lembrava.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade" rel="nofollow">Capítulo 1 – Escatologia</a>
<a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9" rel="nofollow">Capitulo 2 – Kamikakushi</a>
<strong>Capítulo 3 – Trimúrti</strong></p>

<p>O fogo saía azul e se transformava em uma cor amarelada, indicava que o gás estava no fim, mas que a civilização ainda existia. Distraído pela chama, Pedro percebeu que percebia como sentiu falta até mesmo do assobio agudo da sua chaleira. Filtrou o café em sua garrafa térmica preta, que combinavam com os detalhes do seu apartamento industrial, atravessou a sala e não conseguia tirar o sorriso na sua boca vendo seus amigos ali.</p>

<p>Rafa estava sentada com os pés na poltrona, que ficava de costas pra cozinha. Vestia o clássico macacão surrado e uma camisa branca. Comia o sorvete duro entortando a fina colher de metal enquanto discutia com Marcelo sobre o final do mundo. Ele, no entanto, encostado na janela da sala, questionava detalhes da história, entre um pega e outro do seu baseado, pois não tinha essas lembranças.</p>

<p>“Então, vocês estão me dizendo que houve bombas no mundo todo, rolou um inverno nuclear. Todos morreram, menos nós, que ficamos vagando pelas ruas por dois anos até chegar nossa hora. Voltamos no tempo e agora só algumas pessoas lembram?”, deu uma longa tragada e esticou a mão para ela, “Sei lá, não pode ser outra coisa? Centésimo macaco? Histeria coletiva? Eu sei que o mundo tá esquisito, não entendi ainda o que ta rolando. Você apareceu em casa toda desesperada, no chat do trampo uma galera ta histérica falando de déjà vu, enquanto outras tão tipo eu. Eu não tô duvidando de vocês, mas quero entender”</p>

<p>Enquanto discutiam os acontecimentos, Pedro continuou calado, sentado no chão. Tentava dividir sua atenção entre os dois discutindo, a apresentadora de TV e seus pensamentos. Olhou a data em seu celular e faltavam poucos dias para as explosões, sentiu um arrepio que disparou seu coração ao lembrar da chuva ácida que corroeu sua pele por meses.</p>

<p>“Você não morreu…”, seu sussurro quebrou a conversa e chamou toda atenção para si. “Eu morri do lado da Rafa, logo depois dela. Você ficou vivo”, tentou encará-lo, mas o sol lá fora ofuscava transformando-o em sombra. “Nós dois acordamos logo depois de morrer, você não. Talvez você não tenha morrido, por isso não se lembra”.</p>

<p>“Espera… Eu lembro de ter ficado doente logo depois do Marcelo sumir. Mas como você morreu?”, o silêncio dominou a sala por extensos segundos. Entre o balançar ansioso da Rafa e o olhar que evita o mundo de Marcelo, Pedro continuou. “Eu levei um tiro, perto o bairro industrial. Estava procurando comida, quando fui abordado por um cara do grupo dos Revolucionários e ele atirou em mim”, buscou o olhar do amigo que havia lhe ferido, mas ele agora soprava a fumaça para fora da janela.</p>

<p>A sala adotou um som sepulcral. A Rafa sentou-se no chão ao lado dele e apertou sua mão. Marcelo ocupou o lugar dela na poltrona, largando-se como se ocupasse mais espaço do que era possível. Era bom estar ali, com seus amigos, mas sentia um incômodo, pois sempre que o olhava, ele retribuía como se olhasse por cima dos seus ombros.</p>

<p>Ela se levantou, saltitou, como sempre evitando os calcanhares no chão, até o banheiro comentando como sentiu falta de sentar em uma privada limpa. Passou pela porta, mas saiu colocando somente a cabeça pra fora, “Ainda bem que no fim do mundo tive vocês ao meu lado”, e voltou.</p>

<p>Pedro caminhou seus olhos por cada centímetro da sala até encontrar os pés descalços do Marcelo. A bermuda de basquete e a camisa velha era exatamente como lembrava dele. Mas quando alcançou seus olhos, se encararam o suficiente para ouvir o ponteiro do relógio na parede se mover. Percebeu o contemplar sofrido dele e naquele momento não tinha como ter dúvidas: Ele também se lembrava.</p>

<p><strong>Tipo</strong></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-lgbb</guid>
      <pubDate>Thu, 03 Aug 2023 20:40:37 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Santissima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia&#xA;Capitulo 2 - Kamikakushi!--more--&#xA;&#xA;Limpou suas lágrimas com as mãos e se sentiu um idiota. Já estavam sujas da chuva gosmenta cuspida pelo céu. Elas traziam um gosto de lixo queimado e faziam a pele sentir-se olhos cortando cebola. Se apoiou à ripa pregada na porta e desfaleceu e caiu no degrau do trailer. Empurrou a porta com seu pé esquerdo e arrastou-se lentamente em direção à cama, cavando espaço entre os entulhos do corredor. Tentando se acomodar no canto do quarto, encostou a cabeça no colchão e abraçou as pernas daquele jeito que se sentia seguro.&#xA;&#xA;Ficou reparando no bagunçado do cabelo e nas saboneteiras que já não tinham como serem mais profundas. Observou as pálpebras abrindo vagarosamente como as de um cão velho cheio de ternura, mas pronto para o fim. Ela levantou o indicador como se tentasse ter forças para alcançar o rosto dele, descansando perto do dela, mas desistiu. Pedro esticou seu braço e alcançou sua mão.&#xA;&#xA;Quis lhe contar que tinha encontrado-o, mas não teve coragem. Estava procurando comida no mercado e, entre um corredor e outro, o viu contra a pouca luz que vinha da rua. Marcelo se aproximou, parando a uma prateleira de distância. &#34;Você precisa ir embora logo, têm pessoas observando e não querem te ver por aqui&#34;. Pedro percebeu um mal agouro subindo pelas costas com o olhar agressivo do amigo, que já havia visto, mas nunca recebido. Recuou meio passo com a cautela que aprendera nos anos juntos.&#xA;&#xA;&#34;A Rafa tá doente de novo&#34;, contou das dores e implorou por um sinal de solidariedade que não veio. Os cabelos cacheados passando dos ombros já não combinavam com o semblante carrancudo. Era evidente que ele havia entrado para a milícia, só não conseguia entender o motivo. Tentou novamente se aproximar e foi ameaçado com a pistola, &#34;Não se aproxime! Os Revolucionários não querem civis aqui. Qualquer desconhecido será tratado como inimigo! Vá embora!&#34;&#xA;&#xA;Insistiu e ouviu um estrondo. Seu corpo cambaleou para trás, olhou para baixo e notou um novo buraco na surrada capa. Desesperado, correu tentando se esconder atrás das prateleiras caídas e fugiu pelas portas de vidros quebradas da entrada. Correu como se sua vida dependesse disso.&#xA;&#xA;Não dependia.&#xA;&#xA;&#34;Mesmo depois do fim do mundo, nunca achei que ele fosse atirar em mim&#34;, olhando para a ponta do nariz da Rafa, tateou procurando inutilmente sinais de vida em seu pescoço. Encostou a cabeça na parede, esticou suas pernas, soltou sua costela que ainda sangrava e sorriu. Agora eles finalmente podiam descansar. Respirou fundo uma última vez. Foi acordado pelo despertador do seu celular.&#xA;&#xA;Levantou assustado, tropeçou para fora da cama e caiu ao lado da janela que balançava as cortinas e deixava o sol brincar com a luz que emanava da agradável manhã. Procurou o celular que havia voado com a queda. Olhou para a tela e havia trinta e duas ligações perdidas e outras dezenas de mensagens não lidas. As duas últimas eram da Rafa:&#xA;&#xA;CARALHO! ACORDA PORRA! Eu tenho certeza que não foi sonho! Vou passar no Marcelo e vou ai!&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade" rel="nofollow">Capítulo 1 – Escatologia</a>
<strong>Capitulo 2 – Kamikakushi</strong></p>

<p>Limpou suas lágrimas com as mãos e se sentiu um idiota. Já estavam sujas da chuva gosmenta cuspida pelo céu. Elas traziam um gosto de lixo queimado e faziam a pele sentir-se olhos cortando cebola. Se apoiou à ripa pregada na porta e desfaleceu e caiu no degrau do trailer. Empurrou a porta com seu pé esquerdo e arrastou-se lentamente em direção à cama, cavando espaço entre os entulhos do corredor. Tentando se acomodar no canto do quarto, encostou a cabeça no colchão e abraçou as pernas daquele jeito que se sentia seguro.</p>

<p>Ficou reparando no bagunçado do cabelo e nas saboneteiras que já não tinham como serem mais profundas. Observou as pálpebras abrindo vagarosamente como as de um cão velho cheio de ternura, mas pronto para o fim. Ela levantou o indicador como se tentasse ter forças para alcançar o rosto dele, descansando perto do dela, mas desistiu. Pedro esticou seu braço e alcançou sua mão.</p>

<p>Quis lhe contar que tinha encontrado-o, mas não teve coragem. Estava procurando comida no mercado e, entre um corredor e outro, o viu contra a pouca luz que vinha da rua. Marcelo se aproximou, parando a uma prateleira de distância. “Você precisa ir embora logo, têm pessoas observando e não querem te ver por aqui”. Pedro percebeu um mal agouro subindo pelas costas com o olhar agressivo do amigo, que já havia visto, mas nunca recebido. Recuou meio passo com a cautela que aprendera nos anos juntos.</p>

<p>“A Rafa tá doente de novo”, contou das dores e implorou por um sinal de solidariedade que não veio. Os cabelos cacheados passando dos ombros já não combinavam com o semblante carrancudo. Era evidente que ele havia entrado para a milícia, só não conseguia entender o motivo. Tentou novamente se aproximar e foi ameaçado com a pistola, “Não se aproxime! Os Revolucionários não querem civis aqui. Qualquer desconhecido será tratado como inimigo! Vá embora!”</p>

<p>Insistiu e ouviu um estrondo. Seu corpo cambaleou para trás, olhou para baixo e notou um novo buraco na surrada capa. Desesperado, correu tentando se esconder atrás das prateleiras caídas e fugiu pelas portas de vidros quebradas da entrada. Correu como se sua vida dependesse disso.</p>

<p>Não dependia.</p>

<p>“Mesmo depois do fim do mundo, nunca achei que ele fosse atirar em mim”, olhando para a ponta do nariz da Rafa, tateou procurando inutilmente sinais de vida em seu pescoço. Encostou a cabeça na parede, esticou suas pernas, soltou sua costela que ainda sangrava e sorriu. Agora eles finalmente podiam descansar. Respirou fundo uma última vez. Foi acordado pelo despertador do seu celular.</p>

<p>Levantou assustado, tropeçou para fora da cama e caiu ao lado da janela que balançava as cortinas e deixava o sol brincar com a luz que emanava da agradável manhã. Procurou o celular que havia voado com a queda. Olhou para a tela e havia trinta e duas ligações perdidas e outras dezenas de mensagens não lidas. As duas últimas eram da Rafa:</p>

<p>CARALHO! ACORDA PORRA! Eu tenho certeza que não foi sonho! Vou passar no Marcelo e vou ai!</p>

<p><strong>Tipo</strong></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9</guid>
      <pubDate>Wed, 02 Aug 2023 13:05:45 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O Vento</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/o-vento</link>
      <description>&lt;![CDATA[(ou &#34;O Salto&#34;)&#xA;&#xA;Aviso de Conteúdo: Esse texto trata sobre tragédia e morte.!--more--&#xA;&#xA;Foram os minutos mais longos da minha vida. Foram quantos? Vinte minutos? Trinta? Quarenta? Não sei. O calor me fazia sentir um cachorro preso em um carro nos dias quentes de verão da minha infância, mas tudo tem uma saída. Às vezes é mais fácil olhar a janela lá fora, o vento naquela altitude era algo que eu nunca tinha sentido. As janelas, que sempre estavam fechadas, não mostravam o quão implacável e penetrante ele é.&#xA;&#xA;Eu sempre gostei de vento.&#xA;&#xA;Quando era só criança do interior eu gostava de imitar o velho labrador da família que andava com a cabeça pra fora na camionete do meu pai. Um dia perguntei pra ele, qual era o vento mais forte de todos, ele me respondeu serem os tornados. Agora sei que ele estava errado. Mas tudo bem, meu velho nunca subiu mais que dez andares.&#xA;&#xA;Agora sinto o vento passando pelo meu corpo, meus ouvidos só sentem ruído ensurdecedor e as minhas roupas assoviam e batem de forma engraçada. Me sinto um super-homem em declínio. Vejo o planeta aumentando cada vez mais, mostrando pra mim a imensidão que é esse mundo.&#xA;&#xA;Nunca fui pra Califórnia, dizem que as praias de lá são lindas. Nunca fui pro Alasca, queria poder pescar naqueles lagos congelados. Nunca desci o rio Mississippi. O máximo que fiz da minha vida foi descer elevadores. Grandes caixas de ferro, onde colocam espelhos para que a gente não se sinta claustrofóbico. Agora aqui fora, vendo a imensidão da terra, questiono se as pessoas sabem o que é ter medo de verdade.&#xA;&#xA;Será que minha mãe está vendo isso? Naquela poltrona velha e encardida de fumaça, com sua lata de cerveja na mão, ela pode estar vendo a TV com seus olhos fixos e a cinza de cigarro prestes a cair no chão. Será que eu tô passando em algum canal agora? Será que ela vai me reconhecer? Espero que não, não gostaria que ela sentisse um aperto no peito vendo seu filho chegar ao coração da terra.&#xA;&#xA;Meu ouvido entupiu, minha camisa começou a rasgar com o vento que invade cada pedaço do meu corpo, me sinto violado. Meus olhos ardem, mas não consigo fechá-los. As lágrimas nem escorrem pelo rosto, se perdem no ar como se fossem aquelas plantinhas engraçadas que a gente assoprava quando era criança. Queria voar como elas. Sentir que o ar está contra mim, não que eu esteja contra ele.&#xA;&#xA;Ouço pessoas gritando, ouço sirenes tocando, vejo um carro de bombeiro. Quando eu ainda estava na escola, os bombeiros foram lá e desde aquele dia eles viraram meus heróis. Queria que heróis fossem iguais nos quadrinhos e que eles pudessem me salvar. Estou chegando de volta de onde vim, vejo a terra crescendo e agora ela nem parece tão grande. Aquela mulher olha pra mim. Desculpa moça, não queria que&#xA;&#xA;Tipo:&#xA;&#xA;#contos #contosAgosto]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>(ou “O Salto”)</p>

<p><strong>Aviso de Conteúdo: Esse texto trata sobre tragédia e morte.</strong></p>

<p>Foram os minutos mais longos da minha vida. Foram quantos? Vinte minutos? Trinta? Quarenta? Não sei. O calor me fazia sentir um cachorro preso em um carro nos dias quentes de verão da minha infância, mas tudo tem uma saída. Às vezes é mais fácil olhar a janela lá fora, o vento naquela altitude era algo que eu nunca tinha sentido. As janelas, que sempre estavam fechadas, não mostravam o quão implacável e penetrante ele é.</p>

<p>Eu sempre gostei de vento.</p>

<p>Quando era só criança do interior eu gostava de imitar o velho labrador da família que andava com a cabeça pra fora na camionete do meu pai. Um dia perguntei pra ele, qual era o vento mais forte de todos, ele me respondeu serem os tornados. Agora sei que ele estava errado. Mas tudo bem, meu velho nunca subiu mais que dez andares.</p>

<p>Agora sinto o vento passando pelo meu corpo, meus ouvidos só sentem ruído ensurdecedor e as minhas roupas assoviam e batem de forma engraçada. Me sinto um super-homem em declínio. Vejo o planeta aumentando cada vez mais, mostrando pra mim a imensidão que é esse mundo.</p>

<p>Nunca fui pra Califórnia, dizem que as praias de lá são lindas. Nunca fui pro Alasca, queria poder pescar naqueles lagos congelados. Nunca desci o rio Mississippi. O máximo que fiz da minha vida foi descer elevadores. Grandes caixas de ferro, onde colocam espelhos para que a gente não se sinta claustrofóbico. Agora aqui fora, vendo a imensidão da terra, questiono se as pessoas sabem o que é ter medo de verdade.</p>

<p>Será que minha mãe está vendo isso? Naquela poltrona velha e encardida de fumaça, com sua lata de cerveja na mão, ela pode estar vendo a TV com seus olhos fixos e a cinza de cigarro prestes a cair no chão. Será que eu tô passando em algum canal agora? Será que ela vai me reconhecer? Espero que não, não gostaria que ela sentisse um aperto no peito vendo seu filho chegar ao coração da terra.</p>

<p>Meu ouvido entupiu, minha camisa começou a rasgar com o vento que invade cada pedaço do meu corpo, me sinto violado. Meus olhos ardem, mas não consigo fechá-los. As lágrimas nem escorrem pelo rosto, se perdem no ar como se fossem aquelas plantinhas engraçadas que a gente assoprava quando era criança. Queria voar como elas. Sentir que o ar está contra mim, não que eu esteja contra ele.</p>

<p>Ouço pessoas gritando, ouço sirenes tocando, vejo um carro de bombeiro. Quando eu ainda estava na escola, os bombeiros foram lá e desde aquele dia eles viraram meus heróis. Queria que heróis fossem iguais nos quadrinhos e que eles pudessem me salvar. Estou chegando de volta de onde vim, vejo a terra crescendo e agora ela nem parece tão grande. Aquela mulher olha pra mim. Desculpa moça, não queria que</p>

<p><em>Tipo:</em></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:contosAgosto" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contosAgosto</span></a></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/o-vento</guid>
      <pubDate>Tue, 01 Aug 2023 10:55:24 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Pseudociência, método cientifico e capitalismo.</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/pseudociencia-metodo-cientifico-e-capitalismo</link>
      <description>&lt;![CDATA[(ou porque reiki não deveria estar no SUS)&#xA;&#xA;Atenção: Esse é um texto criado por uma pessoa que só fez a primeira série do fundamental, não sabe nada sobre ciência e academia. Não me leve a sério, me leve para tomar um café.&#xA;&#xA;A primeira vez que ouvi falar sobre Método Cientifico eu estava vendo Mundo de Beakman, na TV Cultura. Na época não foi importante, mas aprendi esse nome. Não me tornei alguém que gostava de ciência, nos próximos anos afundei e ficção tipo Julio Verne e conspirações como &#34;A Terra Oca&#34;. Na adolescência eu me atraí muito pelo ateísmo e ceticismo, comecei a duvidar das coisas e nunca parei. Porém, diferente das pessoas do ateísmo ativista, eu nunca liguei muito pra pseudociências, mitos e religiões. Fui um apateísta por natureza.&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Antes de começar preciso explicar o que para mim é Ciência, Método Cientifico e Pseudociências.&#xA;&#xA;Ciência são universidades, pesquisa privada ou governamental, industria farmacêuticas.&#xA;Método Cientifico é a forma que temos de testar uma hipótese para ver se ela é valida ou não.&#xA;Pseudociência é qualquer fato que não possa ser comprovado pelo método cientifico, citado acima.&#xA;&#xA;Grande parte dos argumentos das pessoas a minha volta são sobre ciência, não sobre o método cientifico. E concordo com a maioria. Hoje boa parte da ciência é feita por um pequeno grupo de pessoas brancas, europeia ou e estadunidenses. A história da ciência é repleta de racismo, eugenia, abusos e colonialismo. Mas isso tudo não invalida o método cientifico, pois ele ainda pode ser exercido por qualquer pessoa no mundo, seja ela uma pessoa cientista ou não.&#xA;&#xA;O problema começa quando pessoas querem fazer equivalência de coisas que não passam pelo método cientifico, junto das que passam. E normalmente o argumento é contra a ciência, seus preconceitos e colonialismo. O que, repito, é válido. Mas esquecem que mesmo nas pseudociências e &#34;medicinas alternativas&#34;, existem vários homens brancos poderosos por trás.&#xA;&#xA;A homeopatia, por exemplo. É uma medicina alternativa, criada na França por volta do ano de 1807, por um homem branco. Essa medicina alternativa é suportada por inúmeras empresas farmacêuticas que fazem lobby para que, cada vez mais, seja incluída nas medicinas tradicionais. Por isso não faz sentido ser contra medicina tradicional, e apoiar homeopatia. Pois seu lobby e fabricantes são os mesmo.&#xA;&#xA;  &#34;Mas e as medicinas indígenas? E as asiáticas? Você acha que nada disso tem valor?&#34;&#xA;&#xA;Não necessariamente. Para responder isso, preciso explicar algumas coisas antes.&#xA;&#xA;No Brasil, a saúde é um direito do cidadão. Por isso temos o SUS onde podemos ter tratamento, remédios e assistência médica &#34;gratuitamente&#34;. (aspas, pois afinal, pagamos impostos) O Brasil é um país (em teoria), laico. Laicismo é um princípio político que rejeita a influência de igreja na esfera pública do estado. Por esses motivos, e não somente, coloca pseudociências e fatos científicos na mesma equivalência pode ser perigoso. &#xA;&#xA;Afinal, devemos usar o tratamento com picadas de abelha da mesma forma que usamos antibióticos? Mesmo que usemos apenas como &#34;terapias complementares&#34;, devemos usar Constelação familiar (prática sexista, abusiva, criada por nazistas) da mesma forma que usamos meditação?&#xA;&#xA;Por isso, chego finalmente ao ponto que eu gostaria: por que equivaler essas práticas que não passam no método cientifico com as que passam? Elas não deveriam ser consideradas equivalente às religiões? Assim damos a liberdade para quem quiser usufruir as práticas, o faça sem que o estado seja obrigado financiar elas para todas as pessoas.&#xA;&#xA;Hoje a pseudociência incluí desde medicinas alternativas nazistas, passando por colocar ozônio nos anus e até chegar em horóscopo. Vocês, que apoiam pseudociências, apoiam e acreditam nelas todas? Sinceramente, espero que não. Volto a dizer que a ciência hoje é baseada em vários casos de abuso, racismo, escravidão, etc., mas o método cientifico ainda é a melhor opção que temos hoje. Usamos o método cientifico para testar hipóteses e deixamos de lado as que não conseguimos testar.&#xA;&#xA;Se achar melhor por ser adepto ao método cientifico ou ao cristianismo, não te faz melhor ou pior, pois são coisas diferentes. Assim como antibióticos e homeopatia também são. E invalidar o método cientifico por erros de pessoas brancas e colonialistas, não faz sentido. Afinal, qualquer pessoa pode testar qualquer pseudociência e verificar se ela funciona ou não.&#xA;&#xA;Enquanto negamos método cientifico, estamos a mercê da Constelação Familiar que culpa a vítimas de abuso e coisas menores, como de depender de horóscopo para conseguir emprego. E todas as pessoas que apoiam que pseudociências tenham a mesma equivalência da ciência, apoia isso.&#xA;&#xA;  &#34;Mas eu não apoio constelação familia e não reconheço como ciência&#34;&#xA;&#xA;Que bom, mas não pode ser hipócrita em não reconhecer a Constelação Familiar e reconhecer Reiki como ciência.&#xA;&#xA;No fim, só queria dizer que vocês não precisam só acreditar na ciência, na verdade, nem deveriam acreditar tanto nela. Testem, busquem conhecimento, questione. Mas não misturem coisas que são diferentes. Pois fica parecendo a galera da &#34;umbanda vegana&#34;.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>(ou porque reiki não deveria estar no SUS)</p>

<p><strong>Atenção</strong>: Esse é um texto criado por uma pessoa que só fez a primeira série do fundamental, não sabe nada sobre ciência e academia. Não me leve a sério, me leve para tomar um café.</p>

<p>A primeira vez que ouvi falar sobre Método Cientifico eu estava vendo <a href="https://youtu.be/GbjlO6IfGA0" rel="nofollow">Mundo de Beakman</a>, na TV Cultura. Na época não foi importante, mas aprendi esse nome. Não me tornei alguém que gostava de ciência, nos próximos anos afundei e ficção tipo Julio Verne e conspirações como “A Terra Oca”. Na adolescência eu me atraí muito pelo ateísmo e ceticismo, comecei a duvidar das coisas e nunca parei. Porém, diferente das pessoas do ateísmo ativista, eu nunca liguei muito pra pseudociências, mitos e religiões. Fui um apateísta por natureza.</p>



<p>Antes de começar preciso explicar o que para mim é Ciência, Método Cientifico e Pseudociências.</p>
<ul><li><strong>Ciência</strong> são universidades, pesquisa privada ou governamental, industria farmacêuticas.</li>
<li><strong>Método Cientifico</strong> é a forma que temos de testar uma hipótese para ver se ela é valida ou não.</li>
<li><strong>Pseudociência</strong> é qualquer fato que não possa ser comprovado pelo método cientifico, citado acima.</li></ul>

<p>Grande parte dos argumentos das pessoas a minha volta são sobre ciência, não sobre o método cientifico. E concordo com a maioria. Hoje boa parte da ciência é feita por um pequeno grupo de pessoas brancas, europeia ou e estadunidenses. A história da ciência é repleta de racismo, eugenia, abusos e colonialismo. Mas isso tudo não invalida o método cientifico, pois ele ainda pode ser exercido por qualquer pessoa no mundo, seja ela uma pessoa cientista ou não.</p>

<p>O problema começa quando pessoas querem fazer equivalência de coisas que não passam pelo método cientifico, junto das que passam. E normalmente o argumento é contra a ciência, seus preconceitos e colonialismo. O que, repito, é válido. Mas esquecem que mesmo nas pseudociências e “medicinas alternativas”, existem vários homens brancos poderosos por trás.</p>

<p>A homeopatia, por exemplo. É uma medicina alternativa, criada na França por volta do ano de 1807, por um homem branco. Essa medicina alternativa é suportada por inúmeras empresas farmacêuticas que fazem lobby para que, cada vez mais, seja incluída nas medicinas tradicionais. Por isso não faz sentido ser contra medicina tradicional, e apoiar homeopatia. Pois seu lobby e fabricantes são os mesmo.</p>

<blockquote><p>“Mas e as medicinas indígenas? E as asiáticas? Você acha que nada disso tem valor?”</p></blockquote>

<p>Não necessariamente. Para responder isso, preciso explicar algumas coisas antes.</p>

<p>No Brasil, a saúde é um direito do cidadão. Por isso temos o SUS onde podemos ter tratamento, remédios e assistência médica “gratuitamente”. (aspas, pois afinal, pagamos impostos) O Brasil é um país (em teoria), laico. Laicismo é um princípio político que rejeita a influência de igreja na esfera pública do estado. Por esses motivos, e não somente, coloca pseudociências e fatos científicos na mesma equivalência pode ser perigoso.</p>

<p>Afinal, devemos usar o tratamento com picadas de abelha da mesma forma que usamos antibióticos? Mesmo que usemos apenas como “terapias complementares”, devemos usar Constelação familiar (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=OYOWWAPjpmE" rel="nofollow">prática sexista, abusiva, criada por nazistas</a>) da mesma forma que usamos meditação?</p>

<p>Por isso, chego finalmente ao ponto que eu gostaria: <strong>por que equivaler essas práticas que não passam no método cientifico com as que passam? Elas não deveriam ser consideradas equivalente às religiões?</strong> Assim damos a liberdade para quem quiser usufruir as práticas, o faça sem que o estado seja obrigado financiar elas para todas as pessoas.</p>

<p>Hoje a pseudociência incluí desde medicinas alternativas nazistas, passando por colocar ozônio nos anus e até chegar em horóscopo. Vocês, que apoiam pseudociências, apoiam e acreditam nelas todas? Sinceramente, espero que não. Volto a dizer que a ciência hoje é baseada em vários casos de abuso, racismo, escravidão, etc., mas o método cientifico ainda é a melhor opção que temos hoje. Usamos o método cientifico para testar hipóteses e deixamos de lado as que não conseguimos testar.</p>

<p>Se achar melhor por ser adepto ao método cientifico ou ao cristianismo, não te faz melhor ou pior, pois são coisas diferentes. Assim como antibióticos e homeopatia também são. E invalidar o método cientifico por erros de pessoas brancas e colonialistas, não faz sentido. Afinal, qualquer pessoa pode testar qualquer pseudociência e verificar se ela funciona ou não.</p>

<p>Enquanto negamos método cientifico, estamos a mercê da Constelação Familiar que culpa a vítimas de abuso e coisas menores, como de depender de horóscopo para conseguir emprego. E todas as pessoas que apoiam que pseudociências tenham a mesma equivalência da ciência, apoia isso.</p>

<blockquote><p>“Mas eu não apoio constelação familia e não reconheço como ciência”</p></blockquote>

<p>Que bom, mas não pode ser hipócrita em não reconhecer a Constelação Familiar e reconhecer Reiki como ciência.</p>

<p>No fim, só queria dizer que vocês não precisam só acreditar na ciência, na verdade, nem deveriam acreditar tanto nela. Testem, busquem conhecimento, questione. Mas não misturem coisas que são diferentes. Pois fica parecendo a galera da “umbanda vegana”.</p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/pseudociencia-metodo-cientifico-e-capitalismo</guid>
      <pubDate>Mon, 23 Jan 2023 12:06:22 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Bloqueio da instância ursal.zone</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/bloqueio-da-instancia-ursal-zone</link>
      <description>&lt;![CDATA[(Aos que não sabem eu sou o Dobrado, admin e criador da bantu.social.)&#xA;&#xA;A bantu.social existe há mais de dois anos. Ela foi criada com &#34;a intenção de ser um espaço acolhedor e menos tóxico, tentamos ser uma instância que abriga pessoas de todas as nacionalidades, etnias, formatos de corpos, gêneros, de identidades e orientações sexuais diversas, feministas, neuro divergente, independente de religião, raça e orientação política&#34;. Assim é descrito em nossa instância. Esse texto é relativamente novo, sendo construído com o apoio de várias pessoas.&#xA;&#xA;Quando criamos bantu.social o fediverso não era &#34;tudo mato&#34;, como dizem por aí. Encontramos ruas asfaltadas e as pessoas já estavam trocando as luzes para led. Brincadeiras à parte, fomos muito bem recebides por instâncias maiores e eu mantive contato próximo com pessoas da administração da masto.donte.com.br, mastodon.com.br e ursal.zone.&#xA;&#xA;Relatos de problemas entre bantu e ursal.zone&#xA;&#xA;Tudo abaixo representa o meu ponto de vista da situação.&#xA;&#xA;O primeiro atrito sobre Aviso de Conteúdo aconteceu em 5 de Maio de 2022, quando @andrecf@bantu.social fez um toot pedindo para que as pessoas que estavam entrando na ursal naquele momento repensassem sobre o uso de Aviso de Conteúdo para política em linhas públicas ou para seguidores que não eram da mesma instância, já que as regras das instâncias eram diferentes e o uso do Aviso de Conteúdo era importante para muitas pessoas. Me lembro que a @Ursalzona@ursal.zone (admin) fez um toot dizendo que era para colocar Aviso de Conteúdo sobre política. Porém, no mesmo dia a conta @arles@ursal.zone se opôs a isso e citou censura. Nesse momento a admin da ursal apagou os toots e fez outro, dizendo que Aviso de Conteúdo para política era censura e inclusive marcou várias contas da instância ursal.zone e o @andrecf, dando a entender que era uma exigência ou tentativa de interferir nas regras da instância. Os toots da ursal.zone foram apagados, mas ainda restam as respostas do @andrecf@bantu.social. Nesse caso ficou evidente o uso de poder da administradora (uma mulher branca) de uma instância maior chamando outras pessoas para intimidar a opinião de um homem preto.&#xA;&#xA;Isso inclusive gerou reflexão dentro da própria instância da ursal.zone, com pessoas discutindo o uso de Aviso de Conteúdo e como isso afetaria a ursal.zone perante o fediverso: https://ursal.zone/@AnitaEscAltF4/108251073117108539. Ou seja, nem todas as pessoas da ursal.zone são contra o uso de Aviso de Conteúdo, ao contrário do que diz a admin da instância.&#xA;&#xA;Houve também o caso em que eu (@dobrado@bantu.social) fui acusado de &#34;roubar&#34; um emoji de uma versão cartoon do Luís Inácio Lula da Silva, logo após a confusão com o @andrecf@bantu.social. A admin já havia &#34;permitido&#34; usar emojis da ursal.zone outras vezes, porém em uma thread onde nós dois estávamos marcados ela respondeu: &#34;@dobrado num fala mais comigo&#34;. Eu respondi que não estava ignorando ela. Essa conversa passou por:&#xA;&#xA;Ela dizendo que eu a ataquei quando citei como pessoas brancas muitas vezes atacam as outras, pois citei uma discussão nossa em que ela tentou explicar que ela não é branca por ser latina.&#xA;Disse &#34;e a ironia é ver o emoji do Lula na Bantu&#34;. No mesmo toot disse que era tudo bem eu pegar, mas achou errado eu não pedir. Sugeriu que eu a via como uma &#34;criatura horrenda que tanto mal fez&#34;, coisa que eu nunca disse. Após eu dizer que ia retirar o emoji da bantu, ela continuou dizendo o quão errado foi eu pegar sem pedir.&#xA;Ela começou a dizer que a vida dela era difícil e que não precisava que eu fechasse portas para ela, argumentando que eu a proibi de me seguir. Porém, expliquei que as portas não estavam fechadas: eu apenas deixei de segui-la, a retirei dos meus seguidores e fechei minha conta para me preservar de ataques e toots sem aviso de conteúdo, deixando outros canais abertos.&#xA;A conversa terminou com eu pedindo desculpas por algo que eu nem fiz de errado.&#xA;&#xA;Mais recentemente ela enviou uma mensagem direta para mim, uma pessoa que administra outra instância e uma pessoa que modera outra. Nessa DM ela:&#xA;&#xA;Afirmou que as pessoas da ursal estavam sofrendo &#34;bullying&#34; pra usar Aviso de Conteúdo em assuntos de política.&#xA;Argumentou que já nos ajudou, que fez propaganda para nós e que nos elogiou. Como se nos cobrasse pelo seu comportamento gentil.&#xA;Quis a suspensão da conta de uma pessoa que falou que ia bloquear quem não usasse Aviso de Conteúdo para política. Chamou a pessoa dessa conta de &#34;canalha&#34;, disse que bloqueou a conta. E pediu para que essa conta fosse apagada.&#xA;Disse que uma pessoa que modera a bantu.social mentiu ao dizer que ela, a admin da ursal, atua para não ser usado Aviso de Conteúdo em política. Sendo que ela mesma sustentou não usar Aviso de Conteúdo, na thread sobre a conta do ponto anterior, e apagou posteriormente. E também postou sobre isso em outra thread.&#xA;Terminou dizendo que qualquer toot falando mal da ursal, incitando usuário ou fazendo provocações ia ser denunciado como discurso de ódio.&#xA;&#xA;Isso resume bem os problemas com a instância e como isso atinge as pessoas que tem conta aqui. Quando a Ursalzona fala &#34;nunca tive denúncias de racismo&#34;, talvez seja porque ela esta intimidando as pessoas e ninguém veja sentido em denunciar a administradora da instância.&#xA;&#xA;Após o bloqueio da mastodon.art vimos como foi desastrosa a forma como ela lidou com a situação, inclusive usando choro como estratégia para silenciar pessoas marginalizadas. E como, novamente, ela usou de seu poder como administradora de uma instância grande para incentivar pessoas a atacar a mastodon.art. E ainda fez declarações consideradas transfóbicas, como mostra o relato da administração da mastodon.art.&#xA;&#xA;Em nenhum momento a Ursalzona se dispôs a reconhecer ou escutar as acusações de racismo e preferiu desacreditar as pessoas que tentaram mostrar os problemas de suas atitudes. Por isso, eu creio que essa não seja uma instância com a qual queremos interagir, nem que nos faça bem como coletivo. Sei que muitas pessoas daqui seguem pessoas de lá, mas enquanto a administradora não se portar de forma razoável e menos bélica, não acho que seja viável manter uma ligação com a instância.&#xA;&#xA;Sobre o bloqueio&#xA;&#xA;O bloqueio não será definitivo. Estamos abertos a conversar e, se houverem mudanças, retirar o bloqueio. Para quaisquer dúvidas e respostas sobre o assunto, meu email é dobrado@duck.com]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>(Aos que não sabem eu sou o Dobrado, admin e criador da bantu.social.)</p>

<p>A bantu.social existe há mais de dois anos. Ela foi criada com “a intenção de ser um espaço acolhedor e menos tóxico, tentamos ser uma instância que abriga pessoas de todas as nacionalidades, etnias, formatos de corpos, gêneros, de identidades e orientações sexuais diversas, feministas, neuro divergente, independente de religião, raça e orientação política”. Assim é descrito em nossa instância. Esse texto é relativamente novo, sendo construído com o apoio de várias pessoas.</p>

<p>Quando criamos bantu.social o fediverso não era “tudo mato”, como dizem por aí. Encontramos ruas asfaltadas e as pessoas já estavam trocando as luzes para led. Brincadeiras à parte, fomos muito bem recebides por instâncias maiores e eu mantive contato próximo com pessoas da administração da masto.donte.com.br, mastodon.com.br e ursal.zone.</p>

<h3 id="relatos-de-problemas-entre-bantu-e-ursal-zone">Relatos de problemas entre bantu e ursal.zone</h3>

<p>Tudo abaixo representa o meu ponto de vista da situação.</p>

<p>O primeiro atrito sobre Aviso de Conteúdo aconteceu em 5 de Maio de 2022, quando <a href="https://blog.bantu.social/@/andrecf@bantu.social" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>andrecf@bantu.social</span></a> fez um toot <a href="https://bantu.social/@andrecf/108250159074850783" rel="nofollow">pedindo para que as pessoas que estavam entrando na ursal naquele momento repensassem sobre o uso de Aviso de Conteúdo para política em linhas públicas ou para seguidores que não eram da mesma instância</a>, já que as regras das instâncias eram diferentes e o uso do Aviso de Conteúdo era importante para muitas pessoas. Me lembro que a <a href="https://blog.bantu.social/@/Ursalzona@ursal.zone" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>Ursalzona@ursal.zone</span></a> (admin) fez um toot dizendo que era para colocar Aviso de Conteúdo sobre política. Porém, no mesmo dia a conta <a href="https://blog.bantu.social/@/arles@ursal.zone" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>arles@ursal.zone</span></a> se opôs a isso e citou censura. Nesse momento a admin da ursal apagou os toots e fez outro, dizendo que Aviso de Conteúdo para política era censura e <a href="https://bantu.social/@andrecf/108250368905110685" rel="nofollow">inclusive marcou várias contas da instância ursal.zone e o @andrecf</a>, dando a entender que era uma exigência ou tentativa de interferir nas regras da instância. Os toots da ursal.zone foram apagados, mas ainda restam as respostas do <a href="https://blog.bantu.social/@/andrecf@bantu.social" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>andrecf@bantu.social</span></a>. Nesse caso ficou evidente o uso de poder da administradora (uma mulher branca) de uma instância maior chamando outras pessoas para intimidar a opinião de um homem preto.</p>

<p>Isso inclusive gerou reflexão dentro da própria instância da ursal.zone, com pessoas discutindo o uso de Aviso de Conteúdo e como isso afetaria a ursal.zone perante o fediverso: <a href="https://ursal.zone/@AnitaEscAltF4/108251073117108539" rel="nofollow">https://ursal.zone/@AnitaEscAltF4/108251073117108539</a>. Ou seja, nem todas as pessoas da ursal.zone são contra o uso de Aviso de Conteúdo, ao contrário do que diz a admin da instância.</p>

<p>Houve também o caso em que eu (<a href="https://blog.bantu.social/@/dobrado@bantu.social" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>dobrado@bantu.social</span></a>) fui acusado de “roubar” um emoji de uma versão cartoon do Luís Inácio Lula da Silva, logo após a confusão com o <a href="https://blog.bantu.social/@/andrecf@bantu.social" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>andrecf@bantu.social</span></a>. A admin já havia <a href="https://bagulhos.bantu.social/media_attachments/files/109/439/059/182/215/450/original/9c315ab85dafa76b.png" rel="nofollow">“permitido” usar emojis da ursal.zone outras vezes</a>, porém em uma thread onde nós dois estávamos marcados ela respondeu: “@dobrado num fala mais comigo”. Eu respondi que não estava ignorando ela. Essa conversa passou por:</p>
<ol><li>Ela dizendo que eu a ataquei quando citei como pessoas brancas muitas vezes atacam as outras, pois citei uma discussão nossa em que ela tentou explicar que ela não é branca por ser latina.</li>
<li>Disse “e a ironia é ver o emoji do Lula na Bantu”. No mesmo toot disse que era tudo bem eu pegar, mas achou errado eu não pedir. Sugeriu que eu a via como uma “criatura horrenda que tanto mal fez”, coisa que eu nunca disse. Após eu dizer que ia retirar o emoji da bantu, ela continuou dizendo o quão errado foi eu pegar sem pedir.</li>
<li>Ela começou a dizer que a vida dela era difícil e que não precisava que eu fechasse portas para ela, argumentando que eu a proibi de me seguir. Porém, expliquei que as portas não estavam fechadas: eu apenas deixei de segui-la, a retirei dos meus seguidores e fechei minha conta para me preservar de ataques e toots sem aviso de conteúdo, deixando outros canais abertos.</li>
<li>A conversa terminou com eu pedindo desculpas por algo que eu nem fiz de errado.</li></ol>

<p>Mais recentemente ela enviou uma mensagem direta para mim, uma pessoa que administra outra instância e uma pessoa que modera outra. Nessa DM ela:</p>
<ol><li>Afirmou que as pessoas da ursal estavam sofrendo “bullying” pra usar Aviso de Conteúdo em assuntos de política.</li>
<li>Argumentou que já nos ajudou, que fez propaganda para nós e que nos elogiou. Como se nos cobrasse pelo seu comportamento gentil.</li>
<li>Quis a suspensão da conta de uma pessoa que falou que ia bloquear quem não usasse Aviso de Conteúdo para política. Chamou a pessoa dessa conta de “canalha”, disse que bloqueou a conta. E pediu para que essa conta fosse apagada.</li>
<li>Disse que uma pessoa que modera a bantu.social mentiu ao dizer que ela, a admin da ursal, atua para não ser usado Aviso de Conteúdo em política. Sendo que ela mesma sustentou não usar Aviso de Conteúdo, na thread sobre a conta do ponto anterior, e apagou posteriormente. <a href="https://ursal.zone/@Ursalzona/109313782482942628" rel="nofollow">E também postou sobre isso em outra thread</a>.</li>
<li>Terminou dizendo que qualquer toot falando mal da ursal, incitando usuário ou fazendo provocações ia ser denunciado como discurso de ódio.</li></ol>

<p>Isso resume bem os problemas com a instância e como isso atinge as pessoas que tem conta aqui. Quando a Ursalzona fala “nunca tive denúncias de racismo”, talvez seja porque ela esta intimidando as pessoas e ninguém veja sentido em denunciar a administradora da instância.</p>

<p>Após o bloqueio da mastodon.art vimos como foi desastrosa a forma como ela lidou com a situação, <a href="https://ursal.zone/@DanielaAbade/109434180335403171" rel="nofollow">inclusive usando choro</a> como <a href="https://bit.ly/3B0pqG2" rel="nofollow">estratégia para silenciar pessoas marginalizadas</a>. E como, novamente, ela usou de seu poder como administradora de uma instância grande para incentivar pessoas a atacar a mastodon.art. E ainda fez declarações consideradas transfóbicas, <a href="https://mastodon.art/@Curator/109434440448815405" rel="nofollow">como mostra o relato da administração da mastodon.art</a>.</p>

<p>Em nenhum momento a Ursalzona se dispôs a reconhecer ou escutar as acusações de racismo e preferiu desacreditar as pessoas que tentaram mostrar os problemas de suas atitudes. Por isso, eu creio que essa não seja uma instância com a qual queremos interagir, nem que nos faça bem como coletivo. Sei que muitas pessoas daqui seguem pessoas de lá, mas enquanto a administradora não se portar de forma razoável e menos bélica, não acho que seja viável manter uma ligação com a instância.</p>

<h3 id="sobre-o-bloqueio">Sobre o bloqueio</h3>

<p>O bloqueio não será definitivo. Estamos abertos a conversar e, se houverem mudanças, retirar o bloqueio. Para quaisquer dúvidas e respostas sobre o assunto, meu email é <a href="mailto:dobrado@duck.com" rel="nofollow">dobrado@duck.com</a></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/bloqueio-da-instancia-ursal-zone</guid>
      <pubDate>Thu, 01 Dec 2022 18:09:33 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Eu vou andar com meu pinto pra fora</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/eu-vou-andar-com-meu-pinto-pra-fora</link>
      <description>&lt;![CDATA[Pensando hoje eu percebi que andar com meu pinto dentro da calça não faz sentido. Sou uma pessoa vista como homem pela sociedade. Todos sabem que eu sou homem, sabem que eu nascei homem e sabem que eu tenho um pinto. A maioria absoluta do mundo não sabe os detalhes dele, lógico. Seu tamanho, cor e formato. Mas todo sabem ou assumem que eu tenho um pinto. Hoje um pouco menos da metade população mundial é de pessoas que possuem pinto. Se é algo tão comum, se faz tão parte da nossa vida, por que esconder?&#xA;!--more--&#xA;Você vê pessoas com pinto todos os dias na rua, na televisão, você escuta elas falando em podcast e rádio. Nos livros das escolas existem desenhos de pinto. Pinto é normal e todos deveriam conhecer um pinto. Isso resolveria muitos problemas, como assédio. Se todos andassem com o pinto pra fora, qual seria o problema de receber fotos de pinto? Você já viu vários, um a mais nem vai fazer diferença&#xA;&#xA;É devido à censura do pinto que assédios sexuais existem. Se todos os pintos fossem públicos, as pessoas não sofreriam com isso. O pinto deve ser normalizado na sociedade para que todas as pessoas tenha conhecimento dele, suas formas e sua importância. Eu precisar esconder meu pinto é uma forma do fascismo espalhar o pânico moral. Afinal, o fascismo quer que o mundo seja censurado e todas as pessoas sejam obrigadas a usar roupas e não mostrar seus pintos.&#xA;&#xA;Como progressistas temos que normalizar o pinto e espalhar ele por aí. Ensinando as crianças sobre o que ele representa, seus perigos e suas vantagens. Pinto, vagina, seios. Tudo isso faz parte de um ambiente saudável e consciente.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Você com certeza achou esse texto um absurdo, né? E realmente é. Mas se você trocar o &#34;pinto&#34; por &#34;aviso de conteúdo&#34;, talvez faça mais sentido. xD&#xA;&#xA;Por muitas vezes os pedidos de Aviso de Conteúdo sobre futebol, BBB, notícias ou política é muito mal recebido. Principalmente esse último. As pessoas gostam de enfiar goela abaixo assuntos políticos que elas consideram importantes e que as pessoas devam ler sobre aquilo. Mesmo sem perguntar se elas querem ler sobre.&#xA;&#xA;Eu vejo hoje no Mastodon um movimento anti Aviso de Conteúdo sobre política. Quando é levantado o assunto, surgem acusações de censura. Como se fossemos idiotas que não tem interesse na política. Quando, na verdade, só queremos ter controle do que podemos ver ou não.&#xA;&#xA;Receber fotos de pinto nunca é legal. Você esta na sua casa de boa, abre uma DM e PÁ! Um pinto. Qual a diferença, de você estar de boa no ônibus voltando pra casa e ver uma notícia que uma familía, cuja a cor era igual à sua, morreram com 111 tiros? Ou abrir o twitter e ver fotos de um massacre? Abrir o facebook e saber que queimaram 80% da sua terra natal?&#xA;&#xA;Nós conhecemos a constituição brasileira. Sabemos que mé o presidente atual, provavelmente sabemos até quem é os deputados estaduais. Essa necessidade de exibir pint... quer dizer, posicionamento política vem muito de pessoas brancas. Pois sua existência foi baseada em políticas de escravidão, exploração, massacres, chacinas, guerras, genocídio, roubos, etc.&#xA;&#xA;Já nós, pessoas não-brancas, existir já é um ato político. Só de existir já existem grupos querendo nossa morte e nosso silêncio. Nós somos os atos políticos do mundo atual, formado por uma burguesia branca que não quer nos ouvir.&#xA;&#xA;Lembro uma vez, quando falei pedi Aviso de Conteúdo no fediverso, me responderam que meus assuntos sobre colorismo eram gatilhos e eu deveria usar Aviso de Conteúdo. Engraçado, achei que colorismo era sobre política.&#xA;&#xA;Quando nós, pessoas não-brancas, pedimos por favor para nos ajudar a manter nossa saúde mental. Pois estamos cansados de lutar literalmente todo o tempo de nossa existência, somos chamados de idiotas. Afinal, &#34;tudo é político&#34; e nós, aparentemente, não entendemos isso.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Pensando hoje eu percebi que andar com meu pinto dentro da calça não faz sentido. Sou uma pessoa vista como homem pela sociedade. Todos sabem que eu sou homem, sabem que eu nascei homem e sabem que eu tenho um pinto. A maioria absoluta do mundo não sabe os detalhes dele, lógico. Seu tamanho, cor e formato. Mas todo sabem ou assumem que eu tenho um pinto. Hoje um pouco menos da metade população mundial é de pessoas que possuem pinto. Se é algo tão comum, se faz tão parte da nossa vida, por que esconder?

Você vê pessoas com pinto todos os dias na rua, na televisão, você escuta elas falando em podcast e rádio. Nos livros das escolas existem desenhos de pinto. Pinto é normal e todos deveriam conhecer um pinto. Isso resolveria muitos problemas, como assédio. Se todos andassem com o pinto pra fora, qual seria o problema de receber fotos de pinto? Você já viu vários, um a mais nem vai fazer diferença</p>

<p>É devido à censura do pinto que assédios sexuais existem. Se todos os pintos fossem públicos, as pessoas não sofreriam com isso. O pinto deve ser normalizado na sociedade para que todas as pessoas tenha conhecimento dele, suas formas e sua importância. Eu precisar esconder meu pinto é uma forma do fascismo espalhar o pânico moral. Afinal, o fascismo quer que o mundo seja censurado e todas as pessoas sejam obrigadas a usar roupas e não mostrar seus pintos.</p>

<p>Como progressistas temos que normalizar o pinto e espalhar ele por aí. Ensinando as crianças sobre o que ele representa, seus perigos e suas vantagens. Pinto, vagina, seios. Tudo isso faz parte de um ambiente saudável e consciente.</p>

<hr>

<p>Você com certeza achou esse texto um absurdo, né? E realmente é. Mas se você trocar o “pinto” por “aviso de conteúdo”, talvez faça mais sentido. xD</p>

<p>Por muitas vezes os pedidos de Aviso de Conteúdo sobre futebol, BBB, notícias ou política é muito mal recebido. Principalmente esse último. As pessoas gostam de enfiar goela abaixo assuntos políticos que elas consideram importantes e que as pessoas devam ler sobre aquilo. Mesmo sem perguntar se elas querem ler sobre.</p>

<p>Eu vejo hoje no Mastodon um movimento anti Aviso de Conteúdo sobre política. Quando é levantado o assunto, surgem acusações de censura. Como se fossemos idiotas que não tem interesse na política. Quando, na verdade, só queremos ter controle do que podemos ver ou não.</p>

<p>Receber fotos de pinto nunca é legal. Você esta na sua casa de boa, abre uma DM e PÁ! Um pinto. Qual a diferença, de você estar de boa no ônibus voltando pra casa e ver uma notícia que uma familía, cuja a cor era igual à sua, morreram com 111 tiros? Ou abrir o twitter e ver fotos de um massacre? Abrir o facebook e saber que queimaram 80% da sua terra natal?</p>

<p>Nós conhecemos a constituição brasileira. Sabemos que mé o presidente atual, provavelmente sabemos até quem é os deputados estaduais. Essa necessidade de exibir pint... quer dizer, posicionamento política vem muito de pessoas brancas. Pois sua existência foi baseada em políticas de escravidão, exploração, massacres, chacinas, guerras, genocídio, roubos, etc.</p>

<p>Já nós, pessoas não-brancas, existir já é um ato político. Só de existir já existem grupos querendo nossa morte e nosso silêncio. Nós somos os atos políticos do mundo atual, formado por uma burguesia branca que não quer nos ouvir.</p>

<p>Lembro uma vez, quando falei pedi Aviso de Conteúdo no fediverso, me responderam que meus assuntos sobre colorismo eram gatilhos e eu deveria usar Aviso de Conteúdo. Engraçado, achei que colorismo era sobre política.</p>

<p>Quando nós, pessoas não-brancas, pedimos por favor para nos ajudar a manter nossa saúde mental. Pois estamos cansados de lutar literalmente todo o tempo de nossa existência, somos chamados de idiotas. Afinal, “tudo é político” e nós, aparentemente, não entendemos isso.</p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/eu-vou-andar-com-meu-pinto-pra-fora</guid>
      <pubDate>Sat, 26 Nov 2022 11:14:34 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Sobre o Steam deck</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/sobre-o-steam-deck</link>
      <description>&lt;![CDATA[Ontem eu testei o Steam deck e achei bem bom. Joguei os jogos:&#xA;&#xA;Horizon Zero Dawn&#xA;Factorio&#xA;Hollow Knight&#xA;No Man&#39;s Sky&#xA;The Outer Worlds&#xA;Civilization VI&#xA;&#xA;Construção&#xA;&#xA;O pacote é bem bom, não muito enfeitado, bem numa caixa de papelão simples e dentro vem o estojo. Achei ele muito grande, mas a qualidade é ótima. O fio do carregador é curto, então você precisa ter uma tomada perto de você. A construção é de plástico, mas de boa qualidade. Reparei apenas em algumas rebarbas, mas nada grave. A tela é ótima, apesar da proporção me parecer estranha (não sei se é diferente do normal).&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Interface&#xA;&#xA;A interface do Steamdeck não é a mesma do Big Picture, ela é mais moderna e melhor preparada para controle. O Steam mostra os jogos compatíveis com um ícone, no thumb deles. Mas deixa tu instalar qualquer coisa, mesmo que não seja compatível.&#xA;&#xA;Ainda sobre a interface, vários jogos têm problemas com fontes pequenas. Pois a maioria foi feito para telas grandes e no Steamdeck as letras ficam pequenas. O que pode ser resolvido aumentando a interface dos jogos ou usando a lupa, um recurso do Steamdeck que ainda não usei. Por isso muitos estão marcados como &#34;funciona mais ou menos&#34;, mas é só por isso ou pelo jogo chamar o teclado virtual em algumas telas.&#xA;&#xA;Sobres os jogos&#xA;&#xA;No geral todos os jogos rodaram bem, mas em qualidade baixa/média. Pensando que é um console portátil e a tela é pequena, a qualidade é boa. (Se você tiver interessado em gráficos melhores, não é pra você.) O FPS se mantém bem estável. O No Man&#39;s Sky é um jogo que eu sempre tive problemas de queda de FPS ou lag na interface, rodou liso. Mas no meu pc, sempre tento rodar no máximo.&#xA;&#xA;Jogar nele é tão bom quanto com o Steam Controller. Usar o mouse no touch ou no touchpad possibilita jogar games como Civilization facilmente. Achei os controles um pouco altos e os 4 botões traseiros são de dificil acesso. não imagino um uso real deles. Apenas no Horizon Zero Daw que eu tive dificuldades com o giroscópio (mexer o console para mover a mira no jogo), na configuração oficial. Baixei outra da comunidade e funcionou perfeitamente.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Ontem eu testei o Steam deck e achei bem bom. Joguei os jogos:</p>
<ul><li>Horizon Zero Dawn</li>
<li>Factorio</li>
<li>Hollow Knight</li>
<li>No Man&#39;s Sky</li>
<li>The Outer Worlds</li>
<li>Civilization VI</li></ul>

<h3 id="construção">Construção</h3>

<p>O pacote é bem bom, não muito enfeitado, bem numa caixa de papelão simples e dentro vem o estojo. Achei ele muito grande, mas a qualidade é ótima. O fio do carregador é curto, então você precisa ter uma tomada perto de você. A construção é de plástico, mas de boa qualidade. Reparei apenas em algumas rebarbas, mas nada grave. A tela é ótima, apesar da proporção me parecer estranha (não sei se é diferente do normal).</p>



<h3 id="interface">Interface</h3>

<p>A interface do Steamdeck não é a mesma do Big Picture, ela é mais moderna e melhor preparada para controle. O Steam mostra os jogos compatíveis com um ícone, no thumb deles. Mas deixa tu instalar qualquer coisa, mesmo que não seja compatível.</p>

<p>Ainda sobre a interface, vários jogos têm problemas com fontes pequenas. Pois a maioria foi feito para telas grandes e no Steamdeck as letras ficam pequenas. O que pode ser resolvido aumentando a interface dos jogos ou usando a lupa, um recurso do Steamdeck que ainda não usei. Por isso muitos estão marcados como “funciona mais ou menos”, mas é só por isso ou pelo jogo chamar o teclado virtual em algumas telas.</p>

<h3 id="sobres-os-jogos">Sobres os jogos</h3>

<p>No geral todos os jogos rodaram bem, mas em qualidade baixa/média. Pensando que é um console portátil e a tela é pequena, a qualidade é boa. (Se você tiver interessado em gráficos melhores, não é pra você.) O FPS se mantém bem estável. O No Man&#39;s Sky é um jogo que eu sempre tive problemas de queda de FPS ou lag na interface, rodou liso. Mas no meu pc, sempre tento rodar no máximo.</p>

<p>Jogar nele é tão bom quanto com o Steam Controller. Usar o mouse no touch ou no touchpad possibilita jogar games como Civilization facilmente. Achei os controles um pouco altos e os 4 botões traseiros são de dificil acesso. não imagino um uso real deles. Apenas no Horizon Zero Daw que eu tive dificuldades com o giroscópio (mexer o console para mover a mira no jogo), na configuração oficial. Baixei outra da comunidade e funcionou perfeitamente.</p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/sobre-o-steam-deck</guid>
      <pubDate>Tue, 21 Jun 2022 08:09:46 +0000</pubDate>
    </item>
  </channel>
</rss>