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    <title>SantissimaTrindade &amp;mdash; dobrado</title>
    <link>https://blog.bantu.social/dobrado/tag:SantissimaTrindade</link>
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    <pubDate>Mon, 04 May 2026 21:02:07 +0000</pubDate>
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      <title>Santissima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-hqv3</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia&#xA;Capitulo 2 - Kamikakushi&#xA;Capítulo 3 - Trimúrti&#xA;Capítulo 4 - O fim&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;“Tive que sobreviver. Vocês dois tiveram vida de playboy, eu cresci na zona industrial. Os Revolucionários foram minha salvação, consegui sobreviver muitos anos ainda. E lá eu tive um propósito para minha vida. Quando você apareceu naquele prédio, eu precisei escolher salvar o que era mais importante pra mim. Não foi fácil e me garantiu um futuro. E a gente nem era tão amigo assim, só nos conhecemos há muito tempo.”&#xA;&#xA;Nenhum dos dois esboçou reação alguma para o que havia sido dito. A doença, a chuva, os dois anos no fim do mundo. Nada poderia ser mais doloroso que aquelas palavras. Rafa apertava sua mandíbula como se segurasse a raiva que sentia engasgada. Levantou-se apoiando uma das mãos no chão e deu dois passos duros e sonoros, em direção a Marcelo que estava em pé logo depois do batente porta da cozinha. Pedro, encostado na janela com os braços cruzados, acompanhou a amiga com os olhos. Compartilhava da sua dor e raiva.&#xA;&#xA;Ela parou a poucos centímetros dele, sem completar o passo. Dobrou levemente seu joelho esquerdo, apoiando seu peso na perna que havia ficado para trás. Girou o torço para a direita, mantendo seu olhar fixo no do amigo, e fechou seu punho. Com os dedos do seu pé de apoio, forçou-se contra o chão de carpete, ajudando seu corpo a rotacionar de volta como um estilingue. O punho viajou como uma flecha acertando o rosto, que nem teve o reflexo de piscar, fazendo-o cair ao mesmo tempo que o braço terminava a trajetória de ira.&#xA;&#xA;“Cala a sua boca! Não precisa contar tudo pra gente, o mundo acabou e fizemos algumas merdas, tudo bem. Mas você não tem o direito de falar que nunca fomos amigos. Vocês são tudo que eu tenho hoje e vai ser tudo que eu vou ter, daqui a dois dias quando acabar o mundo.”&#xA;&#xA;Ainda caído no chão da cozinha, sentou-se puxando as pernas para si e encarou a amiga com o olho que ainda conseguia abrir. Pensou em tantas coisas para falar, mas somente se levantou apoiando no armário da cozinha. Pegou um pano de prato pra estancar o sangue do supercílio aberto e foi em direção à saída.&#xA;&#xA;“A gente te espera aqui, amanhã a noite”. Rafa olhou pela última vez o amigo que, parado na porta, esboçou um sorriso curto e foi embora sem responder. O céu escureceu e não tiveram vontade de conversar. Logo ela deitou-se no sofá e fingiu dormir, Pedro foi fazer o mesmo em sua cama. Talvez o Marcelo só tivesse feito algumas besteiras. Mas, no fundo, tinha esperança que ele ainda voltasse e explicasse tudo.&#xA;&#xA;No dia do fim, o mundo se comportou de forma estranhamente normal. As pessoas foram trabalhar como se bombas não fossem cair de madrugada. O dia passou com a ansiedade e a incerteza do fim. Assistiram a programas de TV que tentavam explicar o acontecido e dava palco para malucos que teorizavam sobre o delírio. No final do dia protegeram as janelas com móveis e deixaram a porta da cozinha destrancada, caso o amigo viesse.&#xA;&#xA;Mas ele não veio. Assim como as bombas.&#xA;&#xA;Ninguém de fato entendeu o que aconteceu ou o que deveria ter acontecido. Os ataques nucleares não aconteceram durante a madrugada e pareceu óbvia a relação com assassinato de seis líderes mundiais naquela noite. O ataque foi coordenado por um grupo desconhecido e até hoje não divulgaram seus nomes ou seus motivos. Pedro e Rafa até hoje são amigos e frequentam o bar favorito do Marcelo. Aquele que escolheu salvar o que era mais importante para si.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade" rel="nofollow">Capítulo 1 – Escatologia</a>
<a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9" rel="nofollow">Capitulo 2 – Kamikakushi</a>
<a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-lgbb" rel="nofollow">Capítulo 3 – Trimúrti</a>
<strong>Capítulo 4 – O fim</strong></p>



<p>“Tive que sobreviver. Vocês dois tiveram vida de playboy, eu cresci na zona industrial. Os Revolucionários foram minha salvação, consegui sobreviver muitos anos ainda. E lá eu tive um propósito para minha vida. Quando você apareceu naquele prédio, eu precisei escolher salvar o que era mais importante pra mim. Não foi fácil e me garantiu um futuro. E a gente nem era tão amigo assim, só nos conhecemos há muito tempo.”</p>

<p>Nenhum dos dois esboçou reação alguma para o que havia sido dito. A doença, a chuva, os dois anos no fim do mundo. Nada poderia ser mais doloroso que aquelas palavras. Rafa apertava sua mandíbula como se segurasse a raiva que sentia engasgada. Levantou-se apoiando uma das mãos no chão e deu dois passos duros e sonoros, em direção a Marcelo que estava em pé logo depois do batente porta da cozinha. Pedro, encostado na janela com os braços cruzados, acompanhou a amiga com os olhos. Compartilhava da sua dor e raiva.</p>

<p>Ela parou a poucos centímetros dele, sem completar o passo. Dobrou levemente seu joelho esquerdo, apoiando seu peso na perna que havia ficado para trás. Girou o torço para a direita, mantendo seu olhar fixo no do amigo, e fechou seu punho. Com os dedos do seu pé de apoio, forçou-se contra o chão de carpete, ajudando seu corpo a rotacionar de volta como um estilingue. O punho viajou como uma flecha acertando o rosto, que nem teve o reflexo de piscar, fazendo-o cair ao mesmo tempo que o braço terminava a trajetória de ira.</p>

<p>“Cala a sua boca! Não precisa contar tudo pra gente, o mundo acabou e fizemos algumas merdas, tudo bem. Mas você não tem o direito de falar que nunca fomos amigos. Vocês são tudo que eu tenho hoje e vai ser tudo que eu vou ter, daqui a dois dias quando acabar o mundo.”</p>

<p>Ainda caído no chão da cozinha, sentou-se puxando as pernas para si e encarou a amiga com o olho que ainda conseguia abrir. Pensou em tantas coisas para falar, mas somente se levantou apoiando no armário da cozinha. Pegou um pano de prato pra estancar o sangue do supercílio aberto e foi em direção à saída.</p>

<p>“A gente te espera aqui, amanhã a noite”. Rafa olhou pela última vez o amigo que, parado na porta, esboçou um sorriso curto e foi embora sem responder. O céu escureceu e não tiveram vontade de conversar. Logo ela deitou-se no sofá e fingiu dormir, Pedro foi fazer o mesmo em sua cama. Talvez o Marcelo só tivesse feito algumas besteiras. Mas, no fundo, tinha esperança que ele ainda voltasse e explicasse tudo.</p>

<p>No dia do fim, o mundo se comportou de forma estranhamente normal. As pessoas foram trabalhar como se bombas não fossem cair de madrugada. O dia passou com a ansiedade e a incerteza do fim. Assistiram a programas de TV que tentavam explicar o acontecido e dava palco para malucos que teorizavam sobre o delírio. No final do dia protegeram as janelas com móveis e deixaram a porta da cozinha destrancada, caso o amigo viesse.</p>

<p>Mas ele não veio. Assim como as bombas.</p>

<p>Ninguém de fato entendeu o que aconteceu ou o que deveria ter acontecido. Os ataques nucleares não aconteceram durante a madrugada e pareceu óbvia a relação com assassinato de seis líderes mundiais naquela noite. O ataque foi coordenado por um grupo desconhecido e até hoje não divulgaram seus nomes ou seus motivos. Pedro e Rafa até hoje são amigos e frequentam o bar favorito do Marcelo. Aquele que escolheu salvar o que era mais importante para si.</p>

<p><strong>Tipo</strong></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
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      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-hqv3</guid>
      <pubDate>Wed, 21 Aug 2024 14:08:25 +0000</pubDate>
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      <title>Santissima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-lgbb</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia&#xA;Capitulo 2 - Kamikakushi&#xA;Capítulo 3 - Trimúrti!--more--&#xA;&#xA;O fogo saía azul e se transformava em uma cor amarelada, indicava que o gás estava no fim, mas que a civilização ainda existia. Distraído pela chama, Pedro percebeu que percebia como sentiu falta até mesmo do assobio agudo da sua chaleira. Filtrou o café em sua garrafa térmica preta, que combinavam com os detalhes do seu apartamento industrial, atravessou a sala e não conseguia tirar o sorriso na sua boca vendo seus amigos ali.&#xA;&#xA;Rafa estava sentada com os pés na poltrona, que ficava de costas pra cozinha. Vestia o clássico macacão surrado e uma camisa branca. Comia o sorvete duro entortando a fina colher de metal enquanto discutia com Marcelo sobre o final do mundo. Ele, no entanto, encostado na janela da sala, questionava detalhes da história, entre um pega e outro do seu baseado, pois não tinha essas lembranças.&#xA;&#xA;“Então, vocês estão me dizendo que houve bombas no mundo todo, rolou um inverno nuclear. Todos morreram, menos nós, que ficamos vagando pelas ruas por dois anos até chegar nossa hora. Voltamos no tempo e agora só algumas pessoas lembram?”, deu uma longa tragada e esticou a mão para ela, “Sei lá, não pode ser outra coisa? Centésimo macaco? Histeria coletiva? Eu sei que o mundo tá esquisito, não entendi ainda o que ta rolando. Você apareceu em casa toda desesperada, no chat do trampo uma galera ta histérica falando de déjà vu, enquanto outras tão tipo eu. Eu não tô duvidando de vocês, mas quero entender”&#xA;&#xA;Enquanto discutiam os acontecimentos, Pedro continuou calado, sentado no chão. Tentava dividir sua atenção entre os dois discutindo, a apresentadora de TV e seus pensamentos. Olhou a data em seu celular e faltavam poucos dias para as explosões, sentiu um arrepio que disparou seu coração ao lembrar da chuva ácida que corroeu sua pele por meses.&#xA;&#xA;“Você não morreu…”, seu sussurro quebrou a conversa e chamou toda atenção para si. “Eu morri do lado da Rafa, logo depois dela. Você ficou vivo”, tentou encará-lo, mas o sol lá fora ofuscava transformando-o em sombra. “Nós dois acordamos logo depois de morrer, você não. Talvez você não tenha morrido, por isso não se lembra”.&#xA;&#xA;“Espera… Eu lembro de ter ficado doente logo depois do Marcelo sumir. Mas como você morreu?”, o silêncio dominou a sala por extensos segundos. Entre o balançar ansioso da Rafa e o olhar que evita o mundo de Marcelo, Pedro continuou. “Eu levei um tiro, perto o bairro industrial. Estava procurando comida, quando fui abordado por um cara do grupo dos Revolucionários e ele atirou em mim”, buscou o olhar do amigo que havia lhe ferido, mas ele agora soprava a fumaça para fora da janela.&#xA;&#xA;A sala adotou um som sepulcral. A Rafa sentou-se no chão ao lado dele e apertou sua mão. Marcelo ocupou o lugar dela na poltrona, largando-se como se ocupasse mais espaço do que era possível. Era bom estar ali, com seus amigos, mas sentia um incômodo, pois sempre que o olhava, ele retribuía como se olhasse por cima dos seus ombros.&#xA;&#xA;Ela se levantou, saltitou, como sempre evitando os calcanhares no chão, até o banheiro comentando como sentiu falta de sentar em uma privada limpa. Passou pela porta, mas saiu colocando somente a cabeça pra fora, “Ainda bem que no fim do mundo tive vocês ao meu lado”, e voltou.&#xA;&#xA;Pedro caminhou seus olhos por cada centímetro da sala até encontrar os pés descalços do Marcelo. A bermuda de basquete e a camisa velha era exatamente como lembrava dele. Mas quando alcançou seus olhos, se encararam o suficiente para ouvir o ponteiro do relógio na parede se mover. Percebeu o contemplar sofrido dele e naquele momento não tinha como ter dúvidas: Ele também se lembrava.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade" rel="nofollow">Capítulo 1 – Escatologia</a>
<a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9" rel="nofollow">Capitulo 2 – Kamikakushi</a>
<strong>Capítulo 3 – Trimúrti</strong></p>

<p>O fogo saía azul e se transformava em uma cor amarelada, indicava que o gás estava no fim, mas que a civilização ainda existia. Distraído pela chama, Pedro percebeu que percebia como sentiu falta até mesmo do assobio agudo da sua chaleira. Filtrou o café em sua garrafa térmica preta, que combinavam com os detalhes do seu apartamento industrial, atravessou a sala e não conseguia tirar o sorriso na sua boca vendo seus amigos ali.</p>

<p>Rafa estava sentada com os pés na poltrona, que ficava de costas pra cozinha. Vestia o clássico macacão surrado e uma camisa branca. Comia o sorvete duro entortando a fina colher de metal enquanto discutia com Marcelo sobre o final do mundo. Ele, no entanto, encostado na janela da sala, questionava detalhes da história, entre um pega e outro do seu baseado, pois não tinha essas lembranças.</p>

<p>“Então, vocês estão me dizendo que houve bombas no mundo todo, rolou um inverno nuclear. Todos morreram, menos nós, que ficamos vagando pelas ruas por dois anos até chegar nossa hora. Voltamos no tempo e agora só algumas pessoas lembram?”, deu uma longa tragada e esticou a mão para ela, “Sei lá, não pode ser outra coisa? Centésimo macaco? Histeria coletiva? Eu sei que o mundo tá esquisito, não entendi ainda o que ta rolando. Você apareceu em casa toda desesperada, no chat do trampo uma galera ta histérica falando de déjà vu, enquanto outras tão tipo eu. Eu não tô duvidando de vocês, mas quero entender”</p>

<p>Enquanto discutiam os acontecimentos, Pedro continuou calado, sentado no chão. Tentava dividir sua atenção entre os dois discutindo, a apresentadora de TV e seus pensamentos. Olhou a data em seu celular e faltavam poucos dias para as explosões, sentiu um arrepio que disparou seu coração ao lembrar da chuva ácida que corroeu sua pele por meses.</p>

<p>“Você não morreu…”, seu sussurro quebrou a conversa e chamou toda atenção para si. “Eu morri do lado da Rafa, logo depois dela. Você ficou vivo”, tentou encará-lo, mas o sol lá fora ofuscava transformando-o em sombra. “Nós dois acordamos logo depois de morrer, você não. Talvez você não tenha morrido, por isso não se lembra”.</p>

<p>“Espera… Eu lembro de ter ficado doente logo depois do Marcelo sumir. Mas como você morreu?”, o silêncio dominou a sala por extensos segundos. Entre o balançar ansioso da Rafa e o olhar que evita o mundo de Marcelo, Pedro continuou. “Eu levei um tiro, perto o bairro industrial. Estava procurando comida, quando fui abordado por um cara do grupo dos Revolucionários e ele atirou em mim”, buscou o olhar do amigo que havia lhe ferido, mas ele agora soprava a fumaça para fora da janela.</p>

<p>A sala adotou um som sepulcral. A Rafa sentou-se no chão ao lado dele e apertou sua mão. Marcelo ocupou o lugar dela na poltrona, largando-se como se ocupasse mais espaço do que era possível. Era bom estar ali, com seus amigos, mas sentia um incômodo, pois sempre que o olhava, ele retribuía como se olhasse por cima dos seus ombros.</p>

<p>Ela se levantou, saltitou, como sempre evitando os calcanhares no chão, até o banheiro comentando como sentiu falta de sentar em uma privada limpa. Passou pela porta, mas saiu colocando somente a cabeça pra fora, “Ainda bem que no fim do mundo tive vocês ao meu lado”, e voltou.</p>

<p>Pedro caminhou seus olhos por cada centímetro da sala até encontrar os pés descalços do Marcelo. A bermuda de basquete e a camisa velha era exatamente como lembrava dele. Mas quando alcançou seus olhos, se encararam o suficiente para ouvir o ponteiro do relógio na parede se mover. Percebeu o contemplar sofrido dele e naquele momento não tinha como ter dúvidas: Ele também se lembrava.</p>

<p><strong>Tipo</strong></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
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      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-lgbb</guid>
      <pubDate>Thu, 03 Aug 2023 20:40:37 +0000</pubDate>
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      <title>Santissima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia&#xA;Capitulo 2 - Kamikakushi!--more--&#xA;&#xA;Limpou suas lágrimas com as mãos e se sentiu um idiota. Já estavam sujas da chuva gosmenta cuspida pelo céu. Elas traziam um gosto de lixo queimado e faziam a pele sentir-se olhos cortando cebola. Se apoiou à ripa pregada na porta e desfaleceu e caiu no degrau do trailer. Empurrou a porta com seu pé esquerdo e arrastou-se lentamente em direção à cama, cavando espaço entre os entulhos do corredor. Tentando se acomodar no canto do quarto, encostou a cabeça no colchão e abraçou as pernas daquele jeito que se sentia seguro.&#xA;&#xA;Ficou reparando no bagunçado do cabelo e nas saboneteiras que já não tinham como serem mais profundas. Observou as pálpebras abrindo vagarosamente como as de um cão velho cheio de ternura, mas pronto para o fim. Ela levantou o indicador como se tentasse ter forças para alcançar o rosto dele, descansando perto do dela, mas desistiu. Pedro esticou seu braço e alcançou sua mão.&#xA;&#xA;Quis lhe contar que tinha encontrado-o, mas não teve coragem. Estava procurando comida no mercado e, entre um corredor e outro, o viu contra a pouca luz que vinha da rua. Marcelo se aproximou, parando a uma prateleira de distância. &#34;Você precisa ir embora logo, têm pessoas observando e não querem te ver por aqui&#34;. Pedro percebeu um mal agouro subindo pelas costas com o olhar agressivo do amigo, que já havia visto, mas nunca recebido. Recuou meio passo com a cautela que aprendera nos anos juntos.&#xA;&#xA;&#34;A Rafa tá doente de novo&#34;, contou das dores e implorou por um sinal de solidariedade que não veio. Os cabelos cacheados passando dos ombros já não combinavam com o semblante carrancudo. Era evidente que ele havia entrado para a milícia, só não conseguia entender o motivo. Tentou novamente se aproximar e foi ameaçado com a pistola, &#34;Não se aproxime! Os Revolucionários não querem civis aqui. Qualquer desconhecido será tratado como inimigo! Vá embora!&#34;&#xA;&#xA;Insistiu e ouviu um estrondo. Seu corpo cambaleou para trás, olhou para baixo e notou um novo buraco na surrada capa. Desesperado, correu tentando se esconder atrás das prateleiras caídas e fugiu pelas portas de vidros quebradas da entrada. Correu como se sua vida dependesse disso.&#xA;&#xA;Não dependia.&#xA;&#xA;&#34;Mesmo depois do fim do mundo, nunca achei que ele fosse atirar em mim&#34;, olhando para a ponta do nariz da Rafa, tateou procurando inutilmente sinais de vida em seu pescoço. Encostou a cabeça na parede, esticou suas pernas, soltou sua costela que ainda sangrava e sorriu. Agora eles finalmente podiam descansar. Respirou fundo uma última vez. Foi acordado pelo despertador do seu celular.&#xA;&#xA;Levantou assustado, tropeçou para fora da cama e caiu ao lado da janela que balançava as cortinas e deixava o sol brincar com a luz que emanava da agradável manhã. Procurou o celular que havia voado com a queda. Olhou para a tela e havia trinta e duas ligações perdidas e outras dezenas de mensagens não lidas. As duas últimas eram da Rafa:&#xA;&#xA;CARALHO! ACORDA PORRA! Eu tenho certeza que não foi sonho! Vou passar no Marcelo e vou ai!&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade" rel="nofollow">Capítulo 1 – Escatologia</a>
<strong>Capitulo 2 – Kamikakushi</strong></p>

<p>Limpou suas lágrimas com as mãos e se sentiu um idiota. Já estavam sujas da chuva gosmenta cuspida pelo céu. Elas traziam um gosto de lixo queimado e faziam a pele sentir-se olhos cortando cebola. Se apoiou à ripa pregada na porta e desfaleceu e caiu no degrau do trailer. Empurrou a porta com seu pé esquerdo e arrastou-se lentamente em direção à cama, cavando espaço entre os entulhos do corredor. Tentando se acomodar no canto do quarto, encostou a cabeça no colchão e abraçou as pernas daquele jeito que se sentia seguro.</p>

<p>Ficou reparando no bagunçado do cabelo e nas saboneteiras que já não tinham como serem mais profundas. Observou as pálpebras abrindo vagarosamente como as de um cão velho cheio de ternura, mas pronto para o fim. Ela levantou o indicador como se tentasse ter forças para alcançar o rosto dele, descansando perto do dela, mas desistiu. Pedro esticou seu braço e alcançou sua mão.</p>

<p>Quis lhe contar que tinha encontrado-o, mas não teve coragem. Estava procurando comida no mercado e, entre um corredor e outro, o viu contra a pouca luz que vinha da rua. Marcelo se aproximou, parando a uma prateleira de distância. “Você precisa ir embora logo, têm pessoas observando e não querem te ver por aqui”. Pedro percebeu um mal agouro subindo pelas costas com o olhar agressivo do amigo, que já havia visto, mas nunca recebido. Recuou meio passo com a cautela que aprendera nos anos juntos.</p>

<p>“A Rafa tá doente de novo”, contou das dores e implorou por um sinal de solidariedade que não veio. Os cabelos cacheados passando dos ombros já não combinavam com o semblante carrancudo. Era evidente que ele havia entrado para a milícia, só não conseguia entender o motivo. Tentou novamente se aproximar e foi ameaçado com a pistola, “Não se aproxime! Os Revolucionários não querem civis aqui. Qualquer desconhecido será tratado como inimigo! Vá embora!”</p>

<p>Insistiu e ouviu um estrondo. Seu corpo cambaleou para trás, olhou para baixo e notou um novo buraco na surrada capa. Desesperado, correu tentando se esconder atrás das prateleiras caídas e fugiu pelas portas de vidros quebradas da entrada. Correu como se sua vida dependesse disso.</p>

<p>Não dependia.</p>

<p>“Mesmo depois do fim do mundo, nunca achei que ele fosse atirar em mim”, olhando para a ponta do nariz da Rafa, tateou procurando inutilmente sinais de vida em seu pescoço. Encostou a cabeça na parede, esticou suas pernas, soltou sua costela que ainda sangrava e sorriu. Agora eles finalmente podiam descansar. Respirou fundo uma última vez. Foi acordado pelo despertador do seu celular.</p>

<p>Levantou assustado, tropeçou para fora da cama e caiu ao lado da janela que balançava as cortinas e deixava o sol brincar com a luz que emanava da agradável manhã. Procurou o celular que havia voado com a queda. Olhou para a tela e havia trinta e duas ligações perdidas e outras dezenas de mensagens não lidas. As duas últimas eram da Rafa:</p>

<p>CARALHO! ACORDA PORRA! Eu tenho certeza que não foi sonho! Vou passar no Marcelo e vou ai!</p>

<p><strong>Tipo</strong></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
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      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9</guid>
      <pubDate>Wed, 02 Aug 2023 13:05:45 +0000</pubDate>
    </item>
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      <title>Santíssima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia !--more--&#xA;&#xA;Parou em frente a porta, olhou-a de baixo pra cima tentando demorar o máximo possível esperando o milagre da coragem chegar. Fez uma reverência para desviar da ripa pregada no batente. Empurrou aquela pequena porta arredondada e atravessou com a pose de quem ia revelar o vilão do filme… Mas a Rafa estava dormindo. Voltou a postura normal. Ombros relaxados, talvez cansados e um olhar de quem procura comida no chão.&#xA;&#xA;Cruzou o trailer desviando dos entulhos e sentou-se ao lado da cama, onde ela dormia com as pernas encolhidas pro lado da parede. Apenas alguns dias antes Rafa explicou que era mais seguro assim, poderia engasgar durante o sono. Hoje não possui mais forças para falar. Pedro pousou a mão em suas costas, pra ver se ainda estava respirando. Os cabelos não aparentavam mais o mesmo bagunçado bonito de antes e os ossos já marcavam suas articulações como se fosse uma boneca de madeira.&#xA;&#xA;Por estar ao seu lado o coração já batia mais calmo e os lábios tentavam uma pequena emoção, não o suficiente para poder ser um sorriso. Mas ficar ao lado de seu amigos sempre lhe causou esse bem. Faziam dez pares de anos que se conheciam. A Rafa contava para qualquer estranho no bar que conheceu Pedro e Marcelo enquanto fugia da polícia, por estar fumando maconha na praça, e os dois ajudaram-a a se esconder. Mas ele lembrava que era só por causa do skate e era o diretor da escola, mas a história era mais legal assim. Sempre teve um olhar de aluada e sorria pra tudo. O Marcelo era o mais popular da tríade, com diversas namoradas, colecionava piadas e histórias engraçadas. Os dois eram tudo de importante que ele já teve por perto durante boa parte da sua história.&#xA;&#xA;Nunca poderia pensar que a amizade fosse durar tanto, passaram pelo colégio juntos e mesmo as faculdades sendo diferentes, compartilharam os bares. Não havia nada que eles não tivessem vivido juntos. Depressões, saudades, divórcios, doenças… Quando a Rafa fez quimioterapia, ele que assou o bolo espacial pra ela. Quando o Marcelo foi preso, eles que iam visitá-lo toda semana. Quando precisou de ajuda para crescer e ter coragem de ser uma alguém, foram eles.&#xA;&#xA;Se seu calendário mental estivesse correto, o que duvidava um pouco, fazia três meses que não viam o Marcelo. Foi mais ou menos nesses dias que começou a doença. Ela precisou ficar de cama, não dava para sair para procurá-lo, a prioridade era buscar por remédios que aliviassem as dores. O esconderijo ainda era o mesmo, um pequeno trailer abandonado ao lado do parque que a vegetação já havia escondido. Se estivesse bem, poderia voltar. Se não, era melhor nem saber.&#xA;&#xA;Naquele momento, sentado no chão ao lado da cama, abraçou as pernas e afundou o rosto nos joelhos. A respiração, incerta como a vida presente, competia com a força que fazia para fechar os olhos e não deixar as lágrimas fugirem. Ouviu a chuva começar a se atirar contra teto do trailer. Segurou na cama e fez força para se levantar, engoliu a seco as mágoas pelo mau do mundo e atravessou o trailer em direção à porta. Vestiu sua capa capa de chuva, uma velha lona azul, e hesitou procurando forças para adentrar o mundo. Por menos de um segundo sorriu como uma autoflagelação: ainda não fazia nem dois anos que o mundo havia acabado.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h3 id="capítulo-1-escatologia-more">Capítulo 1 – Escatologia </h3>

<p>Parou em frente a porta, olhou-a de baixo pra cima tentando demorar o máximo possível esperando o milagre da coragem chegar. Fez uma reverência para desviar da ripa pregada no batente. Empurrou aquela pequena porta arredondada e atravessou com a pose de quem ia revelar o vilão do filme… Mas a Rafa estava dormindo. Voltou a postura normal. Ombros relaxados, talvez cansados e um olhar de quem procura comida no chão.</p>

<p>Cruzou o trailer desviando dos entulhos e sentou-se ao lado da cama, onde ela dormia com as pernas encolhidas pro lado da parede. Apenas alguns dias antes Rafa explicou que era mais seguro assim, poderia engasgar durante o sono. Hoje não possui mais forças para falar. Pedro pousou a mão em suas costas, pra ver se ainda estava respirando. Os cabelos não aparentavam mais o mesmo bagunçado bonito de antes e os ossos já marcavam suas articulações como se fosse uma boneca de madeira.</p>

<p>Por estar ao seu lado o coração já batia mais calmo e os lábios tentavam uma pequena emoção, não o suficiente para poder ser um sorriso. Mas ficar ao lado de seu amigos sempre lhe causou esse bem. Faziam dez pares de anos que se conheciam. A Rafa contava para qualquer estranho no bar que conheceu Pedro e Marcelo enquanto fugia da polícia, por estar fumando maconha na praça, e os dois ajudaram-a a se esconder. Mas ele lembrava que era só por causa do skate e era o diretor da escola, mas a história era mais legal assim. Sempre teve um olhar de aluada e sorria pra tudo. O Marcelo era o mais popular da tríade, com diversas namoradas, colecionava piadas e histórias engraçadas. Os dois eram tudo de importante que ele já teve por perto durante boa parte da sua história.</p>

<p>Nunca poderia pensar que a amizade fosse durar tanto, passaram pelo colégio juntos e mesmo as faculdades sendo diferentes, compartilharam os bares. Não havia nada que eles não tivessem vivido juntos. Depressões, saudades, divórcios, doenças… Quando a Rafa fez quimioterapia, ele que assou o bolo espacial pra ela. Quando o Marcelo foi preso, eles que iam visitá-lo toda semana. Quando precisou de ajuda para crescer e ter coragem de ser uma alguém, foram eles.</p>

<p>Se seu calendário mental estivesse correto, o que duvidava um pouco, fazia três meses que não viam o Marcelo. Foi mais ou menos nesses dias que começou a doença. Ela precisou ficar de cama, não dava para sair para procurá-lo, a prioridade era buscar por remédios que aliviassem as dores. O esconderijo ainda era o mesmo, um pequeno trailer abandonado ao lado do parque que a vegetação já havia escondido. Se estivesse bem, poderia voltar. Se não, era melhor nem saber.</p>

<p>Naquele momento, sentado no chão ao lado da cama, abraçou as pernas e afundou o rosto nos joelhos. A respiração, incerta como a vida presente, competia com a força que fazia para fechar os olhos e não deixar as lágrimas fugirem. Ouviu a chuva começar a se atirar contra teto do trailer. Segurou na cama e fez força para se levantar, engoliu a seco as mágoas pelo mau do mundo e atravessou o trailer em direção à porta. Vestiu sua capa capa de chuva, uma velha lona azul, e hesitou procurando forças para adentrar o mundo. Por menos de um segundo sorriu como uma autoflagelação: ainda não fazia nem dois anos que o mundo havia acabado.</p>

<h5 id="tipo">Tipo</h5>

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      <pubDate>Thu, 26 Nov 2020 17:36:00 +0000</pubDate>
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