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    <title>contos &amp;mdash; dobrado</title>
    <link>https://blog.bantu.social/dobrado/tag:contos</link>
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    <pubDate>Sun, 14 Jun 2026 01:21:21 +0000</pubDate>
    <item>
      <title>Santissima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-hqv3</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia&#xA;Capitulo 2 - Kamikakushi&#xA;Capítulo 3 - Trimúrti&#xA;Capítulo 4 - O fim&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;“Tive que sobreviver. Vocês dois tiveram vida de playboy, eu cresci na zona industrial. Os Revolucionários foram minha salvação, consegui sobreviver muitos anos ainda. E lá eu tive um propósito para minha vida. Quando você apareceu naquele prédio, eu precisei escolher salvar o que era mais importante pra mim. Não foi fácil e me garantiu um futuro. E a gente nem era tão amigo assim, só nos conhecemos há muito tempo.”&#xA;&#xA;Nenhum dos dois esboçou reação alguma para o que havia sido dito. A doença, a chuva, os dois anos no fim do mundo. Nada poderia ser mais doloroso que aquelas palavras. Rafa apertava sua mandíbula como se segurasse a raiva que sentia engasgada. Levantou-se apoiando uma das mãos no chão e deu dois passos duros e sonoros, em direção a Marcelo que estava em pé logo depois do batente porta da cozinha. Pedro, encostado na janela com os braços cruzados, acompanhou a amiga com os olhos. Compartilhava da sua dor e raiva.&#xA;&#xA;Ela parou a poucos centímetros dele, sem completar o passo. Dobrou levemente seu joelho esquerdo, apoiando seu peso na perna que havia ficado para trás. Girou o torço para a direita, mantendo seu olhar fixo no do amigo, e fechou seu punho. Com os dedos do seu pé de apoio, forçou-se contra o chão de carpete, ajudando seu corpo a rotacionar de volta como um estilingue. O punho viajou como uma flecha acertando o rosto, que nem teve o reflexo de piscar, fazendo-o cair ao mesmo tempo que o braço terminava a trajetória de ira.&#xA;&#xA;“Cala a sua boca! Não precisa contar tudo pra gente, o mundo acabou e fizemos algumas merdas, tudo bem. Mas você não tem o direito de falar que nunca fomos amigos. Vocês são tudo que eu tenho hoje e vai ser tudo que eu vou ter, daqui a dois dias quando acabar o mundo.”&#xA;&#xA;Ainda caído no chão da cozinha, sentou-se puxando as pernas para si e encarou a amiga com o olho que ainda conseguia abrir. Pensou em tantas coisas para falar, mas somente se levantou apoiando no armário da cozinha. Pegou um pano de prato pra estancar o sangue do supercílio aberto e foi em direção à saída.&#xA;&#xA;“A gente te espera aqui, amanhã a noite”. Rafa olhou pela última vez o amigo que, parado na porta, esboçou um sorriso curto e foi embora sem responder. O céu escureceu e não tiveram vontade de conversar. Logo ela deitou-se no sofá e fingiu dormir, Pedro foi fazer o mesmo em sua cama. Talvez o Marcelo só tivesse feito algumas besteiras. Mas, no fundo, tinha esperança que ele ainda voltasse e explicasse tudo.&#xA;&#xA;No dia do fim, o mundo se comportou de forma estranhamente normal. As pessoas foram trabalhar como se bombas não fossem cair de madrugada. O dia passou com a ansiedade e a incerteza do fim. Assistiram a programas de TV que tentavam explicar o acontecido e dava palco para malucos que teorizavam sobre o delírio. No final do dia protegeram as janelas com móveis e deixaram a porta da cozinha destrancada, caso o amigo viesse.&#xA;&#xA;Mas ele não veio. Assim como as bombas.&#xA;&#xA;Ninguém de fato entendeu o que aconteceu ou o que deveria ter acontecido. Os ataques nucleares não aconteceram durante a madrugada e pareceu óbvia a relação com assassinato de seis líderes mundiais naquela noite. O ataque foi coordenado por um grupo desconhecido e até hoje não divulgaram seus nomes ou seus motivos. Pedro e Rafa até hoje são amigos e frequentam o bar favorito do Marcelo. Aquele que escolheu salvar o que era mais importante para si.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade" rel="nofollow">Capítulo 1 – Escatologia</a>
<a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9" rel="nofollow">Capitulo 2 – Kamikakushi</a>
<a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-lgbb" rel="nofollow">Capítulo 3 – Trimúrti</a>
<strong>Capítulo 4 – O fim</strong></p>



<p>“Tive que sobreviver. Vocês dois tiveram vida de playboy, eu cresci na zona industrial. Os Revolucionários foram minha salvação, consegui sobreviver muitos anos ainda. E lá eu tive um propósito para minha vida. Quando você apareceu naquele prédio, eu precisei escolher salvar o que era mais importante pra mim. Não foi fácil e me garantiu um futuro. E a gente nem era tão amigo assim, só nos conhecemos há muito tempo.”</p>

<p>Nenhum dos dois esboçou reação alguma para o que havia sido dito. A doença, a chuva, os dois anos no fim do mundo. Nada poderia ser mais doloroso que aquelas palavras. Rafa apertava sua mandíbula como se segurasse a raiva que sentia engasgada. Levantou-se apoiando uma das mãos no chão e deu dois passos duros e sonoros, em direção a Marcelo que estava em pé logo depois do batente porta da cozinha. Pedro, encostado na janela com os braços cruzados, acompanhou a amiga com os olhos. Compartilhava da sua dor e raiva.</p>

<p>Ela parou a poucos centímetros dele, sem completar o passo. Dobrou levemente seu joelho esquerdo, apoiando seu peso na perna que havia ficado para trás. Girou o torço para a direita, mantendo seu olhar fixo no do amigo, e fechou seu punho. Com os dedos do seu pé de apoio, forçou-se contra o chão de carpete, ajudando seu corpo a rotacionar de volta como um estilingue. O punho viajou como uma flecha acertando o rosto, que nem teve o reflexo de piscar, fazendo-o cair ao mesmo tempo que o braço terminava a trajetória de ira.</p>

<p>“Cala a sua boca! Não precisa contar tudo pra gente, o mundo acabou e fizemos algumas merdas, tudo bem. Mas você não tem o direito de falar que nunca fomos amigos. Vocês são tudo que eu tenho hoje e vai ser tudo que eu vou ter, daqui a dois dias quando acabar o mundo.”</p>

<p>Ainda caído no chão da cozinha, sentou-se puxando as pernas para si e encarou a amiga com o olho que ainda conseguia abrir. Pensou em tantas coisas para falar, mas somente se levantou apoiando no armário da cozinha. Pegou um pano de prato pra estancar o sangue do supercílio aberto e foi em direção à saída.</p>

<p>“A gente te espera aqui, amanhã a noite”. Rafa olhou pela última vez o amigo que, parado na porta, esboçou um sorriso curto e foi embora sem responder. O céu escureceu e não tiveram vontade de conversar. Logo ela deitou-se no sofá e fingiu dormir, Pedro foi fazer o mesmo em sua cama. Talvez o Marcelo só tivesse feito algumas besteiras. Mas, no fundo, tinha esperança que ele ainda voltasse e explicasse tudo.</p>

<p>No dia do fim, o mundo se comportou de forma estranhamente normal. As pessoas foram trabalhar como se bombas não fossem cair de madrugada. O dia passou com a ansiedade e a incerteza do fim. Assistiram a programas de TV que tentavam explicar o acontecido e dava palco para malucos que teorizavam sobre o delírio. No final do dia protegeram as janelas com móveis e deixaram a porta da cozinha destrancada, caso o amigo viesse.</p>

<p>Mas ele não veio. Assim como as bombas.</p>

<p>Ninguém de fato entendeu o que aconteceu ou o que deveria ter acontecido. Os ataques nucleares não aconteceram durante a madrugada e pareceu óbvia a relação com assassinato de seis líderes mundiais naquela noite. O ataque foi coordenado por um grupo desconhecido e até hoje não divulgaram seus nomes ou seus motivos. Pedro e Rafa até hoje são amigos e frequentam o bar favorito do Marcelo. Aquele que escolheu salvar o que era mais importante para si.</p>

<p><strong>Tipo</strong></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
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      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-hqv3</guid>
      <pubDate>Wed, 21 Aug 2024 14:08:25 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Esfera de Dyson</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/esfera-de-dyson</link>
      <description>&lt;![CDATA[Naquela sala de cantos arredondados eram tomadas as decisões mais importantes do mundo. Talvez fosse exagero, mas tinha certeza que a hipótese que trazia naquele monte de papéis enrolados na sua mão tremula iriam mudar a vida de todos os seres vivos daquele planeta. O nervosismo fazia seu corpo se balançar em órbita, revezando o peso em cada um de seus pés.&#xA;!--more--&#xA;Era a primeira vez naquele recinto e, de verdade, esperava que nunca precisasse ir para lá. Por mais que seus colegas de trabalho sonhassem com o reconhecimento de ser recebido ali pelo seu Líder Governamental, ela preferia estar no trabalho recolhendo dados de seu telescópio preferido. Já havia perdido a noção do tempo que estava lá esperando, dos ensaios para aquela conversa e até mesmo as dúzias de dias que tinham se passado desde que percebera algo estranho. No começo pensou serem apenas erros nas medições, mas agora, parada próxima ao sofá, não existia a possibilidade daquilo ser apenas um sonho mal dormido.&#xA;&#xA;Em meio aos pensamentos emaranhados, um grupo atravessa abruptamente a porta dupla e pesada, fazendo a parecer tão leve quanto folhas. A frente deles, estava o Líder do Governamental. Seus pés batiam forte fazendo um som de trote, mesmo com sua visão fixada no chão logo a sua frente, parecia muito mais imponente que nas imagens transmitidas diariamente nos noticiários. Ele não olhou pra ela, sentou-se a mesa e esperou calmamento que sua equipe se posicionasse em volta dele como se fossem atores se preparando para uma apresentação. Ao todo eram seis, três pareciam seguranças com sua postura verticalmente perfeita e dois carregavam pastas e pranchetas, segurando-as como se, deixá-las cair, fosse despertar uma nova guerra.&#xA;&#xA;— Pois bem, doutora. Você deve saber que não sou um Líder Governamental preocupado com espaço, estrelas e planetas. Já temos problemas demais aqui no chão pra eu me preocupar com coisas que acontecem nas luas.&#xA;&#xA;— É muito mais longe, senhor. — e se arrependeu totalmente da resposta automática. Sempre teve dificuldades em não ser inconveniente, mas o nervosismo parecia retirar qualquer filtro que aprendera durante esses anos de vida acadêmica.&#xA;&#xA;— É mesmo? Meu Conselheiro de Ciência e Tecnologia que insistiu que eu ouvisse o que você tem pra falar. Fale logo antes que eu me arrependa. — O olhar perfurante fez ela se sentir invisível e desejar novamente estar apenas analisando números no observatório.&#xA;&#xA;— Certo... — abaixou sua cabeça para olhar suas mãos que desenrolavam tremulas os papéis já úmidos e amarrotados. Respirou fundo como enchesse de coragem para começar sua explicação ensaiada dúzias de vezes. — O senhor sabe como nós começamos a observar o espaço? Foi há 2298 anos, quando reparamos uma nova luz no céu. Uma cientista na época desenvolveu o primeiro telescópio e percebeu que a luz era uma estrela tão forte que brilhava até mesmo durante o dia. Após muitos anos descobrimos que isso foi uma supernova, uma estrela como a nossa que explodiu com uma força tão grande que o brilho dela chamou nossa atenção. E foi assim que começamos a nossa pesquisa sobre o espaço.&#xA;&#xA;— Sim, mas e daí? Apareceu mais algum “superestrela” no nosso céu?&#xA;&#xA;— Supernova. — nesse momento dentro dela irradiou um calor tão grande que ela tinha a certeza que poderia explodir de constrangimento e cegar a todos naquela sala, mas pensou rápido e seguiu antes que pudesse haver uma resposta — É exatamente o contrário. — dirigiu-se a mesa e espalhou finalmente os papéis a frente do Líder do Governamental, que prontamente ignorou. — Há aproximadamente cinco dúzias de anos, o nosso Chefe do Departamento de Astronomia documentou que uma estrela estava diminuindo seu brilho gradualmente. Mas como ela estava a mais de 14 mil anos-luz de distância, nunca conseguimos obter informação o suficiente para entender esse fenômeno. Isso se tornou um grande mistério na época, pois antes de morrer, estrelas explodem causando um brilho enorme e somente depois apagam.&#xA;&#xA;Ela parou para retomar seu fôlego, observando se o Líder Governamental estava interessado nos papéis que jogara na mesa, mas ele ainda a observava de uma forma profunda. Ao mesmo tempo que não deixava saber se estava ou não prestando atenção ao que era dito.&#xA;&#xA;— O Chefe do Departamento de Astronomia continuou a monitorar estrelas próximas e somente três dúzias anos atrás, com o lançamento do telescópio A-306, que conseguimos ter uma visão mais completa do universo. Porém, com os cortes em ciência devido à Grande Guerra, muitos estudos foram congelados e essa pesquisa ficou esquecida.&#xA;&#xA;— Sim, o mundo precisou parar e estrelas são menos importantes que as bilhões de vidas perdidas na Grande Guerra.&#xA;&#xA;— Sem dúvidas, Líder Governamental. Porém, uma dúzia de anos atrás fui encarregada de retomar algumas pesquisas que poderiam ser úteis. E entre elas eu encontrei os relatórios antigos do Chefe do Departamento de Astronomia. — ela gentilmente posicionou seis dedos no papel cheio de números e gráficos que estava mais no centro da mesa e empurrou lentamente para o outro lado.&#xA;&#xA;O Líder Governamental abaixou os olhos, girou o papel em sua direção e balançando levemente sua cabeça percorria as linhas ali escritas. Ela esperou impaciente, mas calada, por uma deixa para continuar sua explicação.&#xA;&#xA;Uma deixa que não veio.&#xA;&#xA;— Olhe, por mais que uma ou duas estrelas desapareçam no céu, o que isso tem a ver? Daqui a 24 dias eu vou viajar para discutir o tratado de armas nucleares e sinceramente não vejo por que me preocupar com isso.&#xA;&#xA;— Não são uma ou duas estrelas... Há 28 anos o Chefe do Departamento de Astronomia havia catalogado 8 estrelas que havia diminuído seu brilho. Hoje elas e outras 17 desapareceram dos céus. — Talvez fosse pelo tom preocupado em sua voz, pela falta de folego ou pelos números. Mas ela percebeu que pela primeira vez que o líder estava prestando atenção no que ela dizia. — E cada vez mais, estrelas próximas de nós estão se apagando.&#xA;&#xA;— Você quer dizer que corremos o risco de daqui a alguns anos a nossa estrela se apague?&#xA;&#xA;Ela sentiu que a tensão de seus músculos venceu e calmamente deixou seu corpo cair no sofá e descansou sua visão olhando para janela. Uma das luas brilhava parcialmente coberta por um edifício vizinho. Não sabia muito bem como explicar a hipótese que a incomodava, apesar dos ensaios prévios.  &#xA;&#xA;— O senhor conhece a “Placa de transição de hidrogênio”? Ela foi encontrada por arqueólogos em 3723.&#xA;&#xA;— Sim, um dos meus antepassados era o Líder Governamental na época. Foi uma grande descoberta para nós. Até hoje não sabemos exatamente de onde veio, mas especula-se que alguma civilização de muito longe enviou essa placa de alumínio e ouro. A única informação que conseguimos decifrar foram a “transição hiperfina do hidrogênio” e o que parece ser a representação de seres alienígenas. — declamou como se lesse as informações de um livro escolar.&#xA;&#xA;— Exato. Mas nessa placa existem algumas linhas em um padrão radial, nós sempre supomos que fosse um mapa, mas nunca conseguimos encontrar essa coordenada no espaço. — ela se levantou ainda tremula e arrastou algum de seus pés pela sala até alcançar novamente a mesa e empurrar outro papel para o Líder Governamental — Quando eu retomei a pesquisa do Chefe do Departamento de Astronomia, resolvi alinhar o telescópio A-306 para região da primeira estrela, afim de tentar identificar a causa inicial ou verificar se havia outras estrelas próximas se apagando.&#xA;&#xA;Por um mero momento ela esqueceu que estava ali, respirou fundo duas vezes repassando as informações em sua mente. Será que ela estava louca? Será que era um erro de calibragem? Será que ela seria ridicularizada por todos os séculos restantes de sua vida?  &#xA;&#xA;— Encontrei esses pulsares que se encaixa perfeitamente no descrito na placa. E ao pontar o telescópio para o centro desse padrão pude encontrar uma pequena estrela que possui 9 planetas que orbitam em sua volta.&#xA;&#xA;— Devo confessar, doutora, que quando entrei nessa sala não imaginava que a sua descoberta fosse tão importante. Mas ainda não entendi a urgência e os motivos para que o Conselheiro de Ciência e Tecnologia convocasse essa reunião.  &#xA;&#xA;— O senhor conhece o conceito da “Estrela de Dyson”? — ela esperou por uma resposta, mas entendeu logo que um Líder Governamental não pode simplesmente admitir ignorância e prosseguiu — É uma ideia criada por um filósofo onde diz que o pico energético de uma civilização seria construir uma estrutura que cobrisse totalmente uma estrela, consumindo sua radiação emitida e transformando-a em energia.&#xA;&#xA;— E isso é possível?&#xA;&#xA;— Atualmente, não. Não para nós. Mas em teoria, se uma civilização fosse tecnologicamente avançada o suficiente, iria precisar de muita energia para colonizar outras estrelas e, quem sabe, até mesmo toda nossa galáxia. É provável que após a construção da sua primeira “Esfera de Dyson”, seu crescimento seria exponencial e predaria outras estrelas e sistemas estrelares.&#xA;&#xA;Um silêncio dominou novamente a sala, pela primeira vez o Líder Governamental jogou seu corpo para trás, fazendo a cadeira reclinar e desviando o olhar para o teto. Ela, impaciente, rompeu o silêncio que incomodava a todos na sala.&#xA;&#xA;— Não sei se o senhor compreendeu o que estou propondo, mas...&#xA;&#xA;— Sim, eu entendi. Você esta supondo que a civilização que enviou “Placa de transição de hidrogênio” é muito mais avançada que a nossa e que esta consumindo outras estrelas, colonizando nossa galáxia.&#xA;&#xA;— Sim. — pela última vez respirou fundo e soltou os finalmente os ombros — E estão vindo na nossa direção.&#xA;&#xA;contos]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Naquela sala de cantos arredondados eram tomadas as decisões mais importantes do mundo. Talvez fosse exagero, mas tinha certeza que a hipótese que trazia naquele monte de papéis enrolados na sua mão tremula iriam mudar a vida de todos os seres vivos daquele planeta. O nervosismo fazia seu corpo se balançar em órbita, revezando o peso em cada um de seus pés.

Era a primeira vez naquele recinto e, de verdade, esperava que nunca precisasse ir para lá. Por mais que seus colegas de trabalho sonhassem com o reconhecimento de ser recebido ali pelo seu Líder Governamental, ela preferia estar no trabalho recolhendo dados de seu telescópio preferido. Já havia perdido a noção do tempo que estava lá esperando, dos ensaios para aquela conversa e até mesmo as dúzias de dias que tinham se passado desde que percebera algo estranho. No começo pensou serem apenas erros nas medições, mas agora, parada próxima ao sofá, não existia a possibilidade daquilo ser apenas um sonho mal dormido.</p>

<p>Em meio aos pensamentos emaranhados, um grupo atravessa abruptamente a porta dupla e pesada, fazendo a parecer tão leve quanto folhas. A frente deles, estava o Líder do Governamental. Seus pés batiam forte fazendo um som de trote, mesmo com sua visão fixada no chão logo a sua frente, parecia muito mais imponente que nas imagens transmitidas diariamente nos noticiários. Ele não olhou pra ela, sentou-se a mesa e esperou calmamento que sua equipe se posicionasse em volta dele como se fossem atores se preparando para uma apresentação. Ao todo eram seis, três pareciam seguranças com sua postura verticalmente perfeita e dois carregavam pastas e pranchetas, segurando-as como se, deixá-las cair, fosse despertar uma nova guerra.</p>

<p>— Pois bem, doutora. Você deve saber que não sou um Líder Governamental preocupado com espaço, estrelas e planetas. Já temos problemas demais aqui no chão pra eu me preocupar com coisas que acontecem nas luas.</p>

<p>— É muito mais longe, senhor. — e se arrependeu totalmente da resposta automática. Sempre teve dificuldades em não ser inconveniente, mas o nervosismo parecia retirar qualquer filtro que aprendera durante esses anos de vida acadêmica.</p>

<p>— É mesmo? Meu Conselheiro de Ciência e Tecnologia que insistiu que eu ouvisse o que você tem pra falar. Fale logo antes que eu me arrependa. — O olhar perfurante fez ela se sentir invisível e desejar novamente estar apenas analisando números no observatório.</p>

<p>— Certo... — abaixou sua cabeça para olhar suas mãos que desenrolavam tremulas os papéis já úmidos e amarrotados. Respirou fundo como enchesse de coragem para começar sua explicação ensaiada dúzias de vezes. — O senhor sabe como nós começamos a observar o espaço? Foi há 2298 anos, quando reparamos uma nova luz no céu. Uma cientista na época desenvolveu o primeiro telescópio e percebeu que a luz era uma estrela tão forte que brilhava até mesmo durante o dia. Após muitos anos descobrimos que isso foi uma supernova, uma estrela como a nossa que explodiu com uma força tão grande que o brilho dela chamou nossa atenção. E foi assim que começamos a nossa pesquisa sobre o espaço.</p>

<p>— Sim, mas e daí? Apareceu mais algum “superestrela” no nosso céu?</p>

<p>— Supernova. — nesse momento dentro dela irradiou um calor tão grande que ela tinha a certeza que poderia explodir de constrangimento e cegar a todos naquela sala, mas pensou rápido e seguiu antes que pudesse haver uma resposta — É exatamente o contrário. — dirigiu-se a mesa e espalhou finalmente os papéis a frente do Líder do Governamental, que prontamente ignorou. — Há aproximadamente cinco dúzias de anos, o nosso Chefe do Departamento de Astronomia documentou que uma estrela estava diminuindo seu brilho gradualmente. Mas como ela estava a mais de 14 mil anos-luz de distância, nunca conseguimos obter informação o suficiente para entender esse fenômeno. Isso se tornou um grande mistério na época, pois antes de morrer, estrelas explodem causando um brilho enorme e somente depois apagam.</p>

<p>Ela parou para retomar seu fôlego, observando se o Líder Governamental estava interessado nos papéis que jogara na mesa, mas ele ainda a observava de uma forma profunda. Ao mesmo tempo que não deixava saber se estava ou não prestando atenção ao que era dito.</p>

<p>— O Chefe do Departamento de Astronomia continuou a monitorar estrelas próximas e somente três dúzias anos atrás, com o lançamento do telescópio A-306, que conseguimos ter uma visão mais completa do universo. Porém, com os cortes em ciência devido à Grande Guerra, muitos estudos foram congelados e essa pesquisa ficou esquecida.</p>

<p>— Sim, o mundo precisou parar e estrelas são menos importantes que as bilhões de vidas perdidas na Grande Guerra.</p>

<p>— Sem dúvidas, Líder Governamental. Porém, uma dúzia de anos atrás fui encarregada de retomar algumas pesquisas que poderiam ser úteis. E entre elas eu encontrei os relatórios antigos do Chefe do Departamento de Astronomia. — ela gentilmente posicionou seis dedos no papel cheio de números e gráficos que estava mais no centro da mesa e empurrou lentamente para o outro lado.</p>

<p>O Líder Governamental abaixou os olhos, girou o papel em sua direção e balançando levemente sua cabeça percorria as linhas ali escritas. Ela esperou impaciente, mas calada, por uma deixa para continuar sua explicação.</p>

<p>Uma deixa que não veio.</p>

<p>— Olhe, por mais que uma ou duas estrelas desapareçam no céu, o que isso tem a ver? Daqui a 24 dias eu vou viajar para discutir o tratado de armas nucleares e sinceramente não vejo por que me preocupar com isso.</p>

<p>— Não são uma ou duas estrelas... Há 28 anos o Chefe do Departamento de Astronomia havia catalogado 8 estrelas que havia diminuído seu brilho. Hoje elas e outras 17 desapareceram dos céus. — Talvez fosse pelo tom preocupado em sua voz, pela falta de folego ou pelos números. Mas ela percebeu que pela primeira vez que o líder estava prestando atenção no que ela dizia. — E cada vez mais, estrelas próximas de nós estão se apagando.</p>

<p>— Você quer dizer que corremos o risco de daqui a alguns anos a nossa estrela se apague?</p>

<p>Ela sentiu que a tensão de seus músculos venceu e calmamente deixou seu corpo cair no sofá e descansou sua visão olhando para janela. Uma das luas brilhava parcialmente coberta por um edifício vizinho. Não sabia muito bem como explicar a hipótese que a incomodava, apesar dos ensaios prévios.</p>

<p>— O senhor conhece a “Placa de transição de hidrogênio”? Ela foi encontrada por arqueólogos em 3723.</p>

<p>— Sim, um dos meus antepassados era o Líder Governamental na época. Foi uma grande descoberta para nós. Até hoje não sabemos exatamente de onde veio, mas especula-se que alguma civilização de muito longe enviou essa placa de alumínio e ouro. A única informação que conseguimos decifrar foram a “transição hiperfina do hidrogênio” e o que parece ser a representação de seres alienígenas. — declamou como se lesse as informações de um livro escolar.</p>

<p>— Exato. Mas nessa placa existem algumas linhas em um padrão radial, nós sempre supomos que fosse um mapa, mas nunca conseguimos encontrar essa coordenada no espaço. — ela se levantou ainda tremula e arrastou algum de seus pés pela sala até alcançar novamente a mesa e empurrar outro papel para o Líder Governamental — Quando eu retomei a pesquisa do Chefe do Departamento de Astronomia, resolvi alinhar o telescópio A-306 para região da primeira estrela, afim de tentar identificar a causa inicial ou verificar se havia outras estrelas próximas se apagando.</p>

<p>Por um mero momento ela esqueceu que estava ali, respirou fundo duas vezes repassando as informações em sua mente. Será que ela estava louca? Será que era um erro de calibragem? Será que ela seria ridicularizada por todos os séculos restantes de sua vida?</p>

<p>— Encontrei esses pulsares que se encaixa perfeitamente no descrito na placa. E ao pontar o telescópio para o centro desse padrão pude encontrar uma pequena estrela que possui 9 planetas que orbitam em sua volta.</p>

<p>— Devo confessar, doutora, que quando entrei nessa sala não imaginava que a sua descoberta fosse tão importante. Mas ainda não entendi a urgência e os motivos para que o Conselheiro de Ciência e Tecnologia convocasse essa reunião.</p>

<p>— O senhor conhece o conceito da “Estrela de Dyson”? — ela esperou por uma resposta, mas entendeu logo que um Líder Governamental não pode simplesmente admitir ignorância e prosseguiu — É uma ideia criada por um filósofo onde diz que o pico energético de uma civilização seria construir uma estrutura que cobrisse totalmente uma estrela, consumindo sua radiação emitida e transformando-a em energia.</p>

<p>— E isso é possível?</p>

<p>— Atualmente, não. Não para nós. Mas em teoria, se uma civilização fosse tecnologicamente avançada o suficiente, iria precisar de muita energia para colonizar outras estrelas e, quem sabe, até mesmo toda nossa galáxia. É provável que após a construção da sua primeira “Esfera de Dyson”, seu crescimento seria exponencial e predaria outras estrelas e sistemas estrelares.</p>

<p>Um silêncio dominou novamente a sala, pela primeira vez o Líder Governamental jogou seu corpo para trás, fazendo a cadeira reclinar e desviando o olhar para o teto. Ela, impaciente, rompeu o silêncio que incomodava a todos na sala.</p>

<p>— Não sei se o senhor compreendeu o que estou propondo, mas...</p>

<p>— Sim, eu entendi. Você esta supondo que a civilização que enviou “Placa de transição de hidrogênio” é muito mais avançada que a nossa e que esta consumindo outras estrelas, colonizando nossa galáxia.</p>

<p>— Sim. — pela última vez respirou fundo e soltou os finalmente os ombros — E estão vindo na nossa direção.</p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a></p>
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      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/esfera-de-dyson</guid>
      <pubDate>Sat, 06 Jan 2024 13:03:26 +0000</pubDate>
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      <title>Santissima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-lgbb</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia&#xA;Capitulo 2 - Kamikakushi&#xA;Capítulo 3 - Trimúrti!--more--&#xA;&#xA;O fogo saía azul e se transformava em uma cor amarelada, indicava que o gás estava no fim, mas que a civilização ainda existia. Distraído pela chama, Pedro percebeu que percebia como sentiu falta até mesmo do assobio agudo da sua chaleira. Filtrou o café em sua garrafa térmica preta, que combinavam com os detalhes do seu apartamento industrial, atravessou a sala e não conseguia tirar o sorriso na sua boca vendo seus amigos ali.&#xA;&#xA;Rafa estava sentada com os pés na poltrona, que ficava de costas pra cozinha. Vestia o clássico macacão surrado e uma camisa branca. Comia o sorvete duro entortando a fina colher de metal enquanto discutia com Marcelo sobre o final do mundo. Ele, no entanto, encostado na janela da sala, questionava detalhes da história, entre um pega e outro do seu baseado, pois não tinha essas lembranças.&#xA;&#xA;“Então, vocês estão me dizendo que houve bombas no mundo todo, rolou um inverno nuclear. Todos morreram, menos nós, que ficamos vagando pelas ruas por dois anos até chegar nossa hora. Voltamos no tempo e agora só algumas pessoas lembram?”, deu uma longa tragada e esticou a mão para ela, “Sei lá, não pode ser outra coisa? Centésimo macaco? Histeria coletiva? Eu sei que o mundo tá esquisito, não entendi ainda o que ta rolando. Você apareceu em casa toda desesperada, no chat do trampo uma galera ta histérica falando de déjà vu, enquanto outras tão tipo eu. Eu não tô duvidando de vocês, mas quero entender”&#xA;&#xA;Enquanto discutiam os acontecimentos, Pedro continuou calado, sentado no chão. Tentava dividir sua atenção entre os dois discutindo, a apresentadora de TV e seus pensamentos. Olhou a data em seu celular e faltavam poucos dias para as explosões, sentiu um arrepio que disparou seu coração ao lembrar da chuva ácida que corroeu sua pele por meses.&#xA;&#xA;“Você não morreu…”, seu sussurro quebrou a conversa e chamou toda atenção para si. “Eu morri do lado da Rafa, logo depois dela. Você ficou vivo”, tentou encará-lo, mas o sol lá fora ofuscava transformando-o em sombra. “Nós dois acordamos logo depois de morrer, você não. Talvez você não tenha morrido, por isso não se lembra”.&#xA;&#xA;“Espera… Eu lembro de ter ficado doente logo depois do Marcelo sumir. Mas como você morreu?”, o silêncio dominou a sala por extensos segundos. Entre o balançar ansioso da Rafa e o olhar que evita o mundo de Marcelo, Pedro continuou. “Eu levei um tiro, perto o bairro industrial. Estava procurando comida, quando fui abordado por um cara do grupo dos Revolucionários e ele atirou em mim”, buscou o olhar do amigo que havia lhe ferido, mas ele agora soprava a fumaça para fora da janela.&#xA;&#xA;A sala adotou um som sepulcral. A Rafa sentou-se no chão ao lado dele e apertou sua mão. Marcelo ocupou o lugar dela na poltrona, largando-se como se ocupasse mais espaço do que era possível. Era bom estar ali, com seus amigos, mas sentia um incômodo, pois sempre que o olhava, ele retribuía como se olhasse por cima dos seus ombros.&#xA;&#xA;Ela se levantou, saltitou, como sempre evitando os calcanhares no chão, até o banheiro comentando como sentiu falta de sentar em uma privada limpa. Passou pela porta, mas saiu colocando somente a cabeça pra fora, “Ainda bem que no fim do mundo tive vocês ao meu lado”, e voltou.&#xA;&#xA;Pedro caminhou seus olhos por cada centímetro da sala até encontrar os pés descalços do Marcelo. A bermuda de basquete e a camisa velha era exatamente como lembrava dele. Mas quando alcançou seus olhos, se encararam o suficiente para ouvir o ponteiro do relógio na parede se mover. Percebeu o contemplar sofrido dele e naquele momento não tinha como ter dúvidas: Ele também se lembrava.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade" rel="nofollow">Capítulo 1 – Escatologia</a>
<a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9" rel="nofollow">Capitulo 2 – Kamikakushi</a>
<strong>Capítulo 3 – Trimúrti</strong></p>

<p>O fogo saía azul e se transformava em uma cor amarelada, indicava que o gás estava no fim, mas que a civilização ainda existia. Distraído pela chama, Pedro percebeu que percebia como sentiu falta até mesmo do assobio agudo da sua chaleira. Filtrou o café em sua garrafa térmica preta, que combinavam com os detalhes do seu apartamento industrial, atravessou a sala e não conseguia tirar o sorriso na sua boca vendo seus amigos ali.</p>

<p>Rafa estava sentada com os pés na poltrona, que ficava de costas pra cozinha. Vestia o clássico macacão surrado e uma camisa branca. Comia o sorvete duro entortando a fina colher de metal enquanto discutia com Marcelo sobre o final do mundo. Ele, no entanto, encostado na janela da sala, questionava detalhes da história, entre um pega e outro do seu baseado, pois não tinha essas lembranças.</p>

<p>“Então, vocês estão me dizendo que houve bombas no mundo todo, rolou um inverno nuclear. Todos morreram, menos nós, que ficamos vagando pelas ruas por dois anos até chegar nossa hora. Voltamos no tempo e agora só algumas pessoas lembram?”, deu uma longa tragada e esticou a mão para ela, “Sei lá, não pode ser outra coisa? Centésimo macaco? Histeria coletiva? Eu sei que o mundo tá esquisito, não entendi ainda o que ta rolando. Você apareceu em casa toda desesperada, no chat do trampo uma galera ta histérica falando de déjà vu, enquanto outras tão tipo eu. Eu não tô duvidando de vocês, mas quero entender”</p>

<p>Enquanto discutiam os acontecimentos, Pedro continuou calado, sentado no chão. Tentava dividir sua atenção entre os dois discutindo, a apresentadora de TV e seus pensamentos. Olhou a data em seu celular e faltavam poucos dias para as explosões, sentiu um arrepio que disparou seu coração ao lembrar da chuva ácida que corroeu sua pele por meses.</p>

<p>“Você não morreu…”, seu sussurro quebrou a conversa e chamou toda atenção para si. “Eu morri do lado da Rafa, logo depois dela. Você ficou vivo”, tentou encará-lo, mas o sol lá fora ofuscava transformando-o em sombra. “Nós dois acordamos logo depois de morrer, você não. Talvez você não tenha morrido, por isso não se lembra”.</p>

<p>“Espera… Eu lembro de ter ficado doente logo depois do Marcelo sumir. Mas como você morreu?”, o silêncio dominou a sala por extensos segundos. Entre o balançar ansioso da Rafa e o olhar que evita o mundo de Marcelo, Pedro continuou. “Eu levei um tiro, perto o bairro industrial. Estava procurando comida, quando fui abordado por um cara do grupo dos Revolucionários e ele atirou em mim”, buscou o olhar do amigo que havia lhe ferido, mas ele agora soprava a fumaça para fora da janela.</p>

<p>A sala adotou um som sepulcral. A Rafa sentou-se no chão ao lado dele e apertou sua mão. Marcelo ocupou o lugar dela na poltrona, largando-se como se ocupasse mais espaço do que era possível. Era bom estar ali, com seus amigos, mas sentia um incômodo, pois sempre que o olhava, ele retribuía como se olhasse por cima dos seus ombros.</p>

<p>Ela se levantou, saltitou, como sempre evitando os calcanhares no chão, até o banheiro comentando como sentiu falta de sentar em uma privada limpa. Passou pela porta, mas saiu colocando somente a cabeça pra fora, “Ainda bem que no fim do mundo tive vocês ao meu lado”, e voltou.</p>

<p>Pedro caminhou seus olhos por cada centímetro da sala até encontrar os pés descalços do Marcelo. A bermuda de basquete e a camisa velha era exatamente como lembrava dele. Mas quando alcançou seus olhos, se encararam o suficiente para ouvir o ponteiro do relógio na parede se mover. Percebeu o contemplar sofrido dele e naquele momento não tinha como ter dúvidas: Ele também se lembrava.</p>

<p><strong>Tipo</strong></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
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      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-lgbb</guid>
      <pubDate>Thu, 03 Aug 2023 20:40:37 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Santissima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia&#xA;Capitulo 2 - Kamikakushi!--more--&#xA;&#xA;Limpou suas lágrimas com as mãos e se sentiu um idiota. Já estavam sujas da chuva gosmenta cuspida pelo céu. Elas traziam um gosto de lixo queimado e faziam a pele sentir-se olhos cortando cebola. Se apoiou à ripa pregada na porta e desfaleceu e caiu no degrau do trailer. Empurrou a porta com seu pé esquerdo e arrastou-se lentamente em direção à cama, cavando espaço entre os entulhos do corredor. Tentando se acomodar no canto do quarto, encostou a cabeça no colchão e abraçou as pernas daquele jeito que se sentia seguro.&#xA;&#xA;Ficou reparando no bagunçado do cabelo e nas saboneteiras que já não tinham como serem mais profundas. Observou as pálpebras abrindo vagarosamente como as de um cão velho cheio de ternura, mas pronto para o fim. Ela levantou o indicador como se tentasse ter forças para alcançar o rosto dele, descansando perto do dela, mas desistiu. Pedro esticou seu braço e alcançou sua mão.&#xA;&#xA;Quis lhe contar que tinha encontrado-o, mas não teve coragem. Estava procurando comida no mercado e, entre um corredor e outro, o viu contra a pouca luz que vinha da rua. Marcelo se aproximou, parando a uma prateleira de distância. &#34;Você precisa ir embora logo, têm pessoas observando e não querem te ver por aqui&#34;. Pedro percebeu um mal agouro subindo pelas costas com o olhar agressivo do amigo, que já havia visto, mas nunca recebido. Recuou meio passo com a cautela que aprendera nos anos juntos.&#xA;&#xA;&#34;A Rafa tá doente de novo&#34;, contou das dores e implorou por um sinal de solidariedade que não veio. Os cabelos cacheados passando dos ombros já não combinavam com o semblante carrancudo. Era evidente que ele havia entrado para a milícia, só não conseguia entender o motivo. Tentou novamente se aproximar e foi ameaçado com a pistola, &#34;Não se aproxime! Os Revolucionários não querem civis aqui. Qualquer desconhecido será tratado como inimigo! Vá embora!&#34;&#xA;&#xA;Insistiu e ouviu um estrondo. Seu corpo cambaleou para trás, olhou para baixo e notou um novo buraco na surrada capa. Desesperado, correu tentando se esconder atrás das prateleiras caídas e fugiu pelas portas de vidros quebradas da entrada. Correu como se sua vida dependesse disso.&#xA;&#xA;Não dependia.&#xA;&#xA;&#34;Mesmo depois do fim do mundo, nunca achei que ele fosse atirar em mim&#34;, olhando para a ponta do nariz da Rafa, tateou procurando inutilmente sinais de vida em seu pescoço. Encostou a cabeça na parede, esticou suas pernas, soltou sua costela que ainda sangrava e sorriu. Agora eles finalmente podiam descansar. Respirou fundo uma última vez. Foi acordado pelo despertador do seu celular.&#xA;&#xA;Levantou assustado, tropeçou para fora da cama e caiu ao lado da janela que balançava as cortinas e deixava o sol brincar com a luz que emanava da agradável manhã. Procurou o celular que havia voado com a queda. Olhou para a tela e havia trinta e duas ligações perdidas e outras dezenas de mensagens não lidas. As duas últimas eram da Rafa:&#xA;&#xA;CARALHO! ACORDA PORRA! Eu tenho certeza que não foi sonho! Vou passar no Marcelo e vou ai!&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade" rel="nofollow">Capítulo 1 – Escatologia</a>
<strong>Capitulo 2 – Kamikakushi</strong></p>

<p>Limpou suas lágrimas com as mãos e se sentiu um idiota. Já estavam sujas da chuva gosmenta cuspida pelo céu. Elas traziam um gosto de lixo queimado e faziam a pele sentir-se olhos cortando cebola. Se apoiou à ripa pregada na porta e desfaleceu e caiu no degrau do trailer. Empurrou a porta com seu pé esquerdo e arrastou-se lentamente em direção à cama, cavando espaço entre os entulhos do corredor. Tentando se acomodar no canto do quarto, encostou a cabeça no colchão e abraçou as pernas daquele jeito que se sentia seguro.</p>

<p>Ficou reparando no bagunçado do cabelo e nas saboneteiras que já não tinham como serem mais profundas. Observou as pálpebras abrindo vagarosamente como as de um cão velho cheio de ternura, mas pronto para o fim. Ela levantou o indicador como se tentasse ter forças para alcançar o rosto dele, descansando perto do dela, mas desistiu. Pedro esticou seu braço e alcançou sua mão.</p>

<p>Quis lhe contar que tinha encontrado-o, mas não teve coragem. Estava procurando comida no mercado e, entre um corredor e outro, o viu contra a pouca luz que vinha da rua. Marcelo se aproximou, parando a uma prateleira de distância. “Você precisa ir embora logo, têm pessoas observando e não querem te ver por aqui”. Pedro percebeu um mal agouro subindo pelas costas com o olhar agressivo do amigo, que já havia visto, mas nunca recebido. Recuou meio passo com a cautela que aprendera nos anos juntos.</p>

<p>“A Rafa tá doente de novo”, contou das dores e implorou por um sinal de solidariedade que não veio. Os cabelos cacheados passando dos ombros já não combinavam com o semblante carrancudo. Era evidente que ele havia entrado para a milícia, só não conseguia entender o motivo. Tentou novamente se aproximar e foi ameaçado com a pistola, “Não se aproxime! Os Revolucionários não querem civis aqui. Qualquer desconhecido será tratado como inimigo! Vá embora!”</p>

<p>Insistiu e ouviu um estrondo. Seu corpo cambaleou para trás, olhou para baixo e notou um novo buraco na surrada capa. Desesperado, correu tentando se esconder atrás das prateleiras caídas e fugiu pelas portas de vidros quebradas da entrada. Correu como se sua vida dependesse disso.</p>

<p>Não dependia.</p>

<p>“Mesmo depois do fim do mundo, nunca achei que ele fosse atirar em mim”, olhando para a ponta do nariz da Rafa, tateou procurando inutilmente sinais de vida em seu pescoço. Encostou a cabeça na parede, esticou suas pernas, soltou sua costela que ainda sangrava e sorriu. Agora eles finalmente podiam descansar. Respirou fundo uma última vez. Foi acordado pelo despertador do seu celular.</p>

<p>Levantou assustado, tropeçou para fora da cama e caiu ao lado da janela que balançava as cortinas e deixava o sol brincar com a luz que emanava da agradável manhã. Procurou o celular que havia voado com a queda. Olhou para a tela e havia trinta e duas ligações perdidas e outras dezenas de mensagens não lidas. As duas últimas eram da Rafa:</p>

<p>CARALHO! ACORDA PORRA! Eu tenho certeza que não foi sonho! Vou passar no Marcelo e vou ai!</p>

<p><strong>Tipo</strong></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
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      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade-mny9</guid>
      <pubDate>Wed, 02 Aug 2023 13:05:45 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O Vento</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/o-vento</link>
      <description>&lt;![CDATA[(ou &#34;O Salto&#34;)&#xA;&#xA;Aviso de Conteúdo: Esse texto trata sobre tragédia e morte.!--more--&#xA;&#xA;Foram os minutos mais longos da minha vida. Foram quantos? Vinte minutos? Trinta? Quarenta? Não sei. O calor me fazia sentir um cachorro preso em um carro nos dias quentes de verão da minha infância, mas tudo tem uma saída. Às vezes é mais fácil olhar a janela lá fora, o vento naquela altitude era algo que eu nunca tinha sentido. As janelas, que sempre estavam fechadas, não mostravam o quão implacável e penetrante ele é.&#xA;&#xA;Eu sempre gostei de vento.&#xA;&#xA;Quando era só criança do interior eu gostava de imitar o velho labrador da família que andava com a cabeça pra fora na camionete do meu pai. Um dia perguntei pra ele, qual era o vento mais forte de todos, ele me respondeu serem os tornados. Agora sei que ele estava errado. Mas tudo bem, meu velho nunca subiu mais que dez andares.&#xA;&#xA;Agora sinto o vento passando pelo meu corpo, meus ouvidos só sentem ruído ensurdecedor e as minhas roupas assoviam e batem de forma engraçada. Me sinto um super-homem em declínio. Vejo o planeta aumentando cada vez mais, mostrando pra mim a imensidão que é esse mundo.&#xA;&#xA;Nunca fui pra Califórnia, dizem que as praias de lá são lindas. Nunca fui pro Alasca, queria poder pescar naqueles lagos congelados. Nunca desci o rio Mississippi. O máximo que fiz da minha vida foi descer elevadores. Grandes caixas de ferro, onde colocam espelhos para que a gente não se sinta claustrofóbico. Agora aqui fora, vendo a imensidão da terra, questiono se as pessoas sabem o que é ter medo de verdade.&#xA;&#xA;Será que minha mãe está vendo isso? Naquela poltrona velha e encardida de fumaça, com sua lata de cerveja na mão, ela pode estar vendo a TV com seus olhos fixos e a cinza de cigarro prestes a cair no chão. Será que eu tô passando em algum canal agora? Será que ela vai me reconhecer? Espero que não, não gostaria que ela sentisse um aperto no peito vendo seu filho chegar ao coração da terra.&#xA;&#xA;Meu ouvido entupiu, minha camisa começou a rasgar com o vento que invade cada pedaço do meu corpo, me sinto violado. Meus olhos ardem, mas não consigo fechá-los. As lágrimas nem escorrem pelo rosto, se perdem no ar como se fossem aquelas plantinhas engraçadas que a gente assoprava quando era criança. Queria voar como elas. Sentir que o ar está contra mim, não que eu esteja contra ele.&#xA;&#xA;Ouço pessoas gritando, ouço sirenes tocando, vejo um carro de bombeiro. Quando eu ainda estava na escola, os bombeiros foram lá e desde aquele dia eles viraram meus heróis. Queria que heróis fossem iguais nos quadrinhos e que eles pudessem me salvar. Estou chegando de volta de onde vim, vejo a terra crescendo e agora ela nem parece tão grande. Aquela mulher olha pra mim. Desculpa moça, não queria que&#xA;&#xA;Tipo:&#xA;&#xA;#contos #contosAgosto]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>(ou “O Salto”)</p>

<p><strong>Aviso de Conteúdo: Esse texto trata sobre tragédia e morte.</strong></p>

<p>Foram os minutos mais longos da minha vida. Foram quantos? Vinte minutos? Trinta? Quarenta? Não sei. O calor me fazia sentir um cachorro preso em um carro nos dias quentes de verão da minha infância, mas tudo tem uma saída. Às vezes é mais fácil olhar a janela lá fora, o vento naquela altitude era algo que eu nunca tinha sentido. As janelas, que sempre estavam fechadas, não mostravam o quão implacável e penetrante ele é.</p>

<p>Eu sempre gostei de vento.</p>

<p>Quando era só criança do interior eu gostava de imitar o velho labrador da família que andava com a cabeça pra fora na camionete do meu pai. Um dia perguntei pra ele, qual era o vento mais forte de todos, ele me respondeu serem os tornados. Agora sei que ele estava errado. Mas tudo bem, meu velho nunca subiu mais que dez andares.</p>

<p>Agora sinto o vento passando pelo meu corpo, meus ouvidos só sentem ruído ensurdecedor e as minhas roupas assoviam e batem de forma engraçada. Me sinto um super-homem em declínio. Vejo o planeta aumentando cada vez mais, mostrando pra mim a imensidão que é esse mundo.</p>

<p>Nunca fui pra Califórnia, dizem que as praias de lá são lindas. Nunca fui pro Alasca, queria poder pescar naqueles lagos congelados. Nunca desci o rio Mississippi. O máximo que fiz da minha vida foi descer elevadores. Grandes caixas de ferro, onde colocam espelhos para que a gente não se sinta claustrofóbico. Agora aqui fora, vendo a imensidão da terra, questiono se as pessoas sabem o que é ter medo de verdade.</p>

<p>Será que minha mãe está vendo isso? Naquela poltrona velha e encardida de fumaça, com sua lata de cerveja na mão, ela pode estar vendo a TV com seus olhos fixos e a cinza de cigarro prestes a cair no chão. Será que eu tô passando em algum canal agora? Será que ela vai me reconhecer? Espero que não, não gostaria que ela sentisse um aperto no peito vendo seu filho chegar ao coração da terra.</p>

<p>Meu ouvido entupiu, minha camisa começou a rasgar com o vento que invade cada pedaço do meu corpo, me sinto violado. Meus olhos ardem, mas não consigo fechá-los. As lágrimas nem escorrem pelo rosto, se perdem no ar como se fossem aquelas plantinhas engraçadas que a gente assoprava quando era criança. Queria voar como elas. Sentir que o ar está contra mim, não que eu esteja contra ele.</p>

<p>Ouço pessoas gritando, ouço sirenes tocando, vejo um carro de bombeiro. Quando eu ainda estava na escola, os bombeiros foram lá e desde aquele dia eles viraram meus heróis. Queria que heróis fossem iguais nos quadrinhos e que eles pudessem me salvar. Estou chegando de volta de onde vim, vejo a terra crescendo e agora ela nem parece tão grande. Aquela mulher olha pra mim. Desculpa moça, não queria que</p>

<p><em>Tipo:</em></p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:contosAgosto" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contosAgosto</span></a></p>
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      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/o-vento</guid>
      <pubDate>Tue, 01 Aug 2023 10:55:24 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Santíssima Trindade</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capítulo 1 - Escatologia !--more--&#xA;&#xA;Parou em frente a porta, olhou-a de baixo pra cima tentando demorar o máximo possível esperando o milagre da coragem chegar. Fez uma reverência para desviar da ripa pregada no batente. Empurrou aquela pequena porta arredondada e atravessou com a pose de quem ia revelar o vilão do filme… Mas a Rafa estava dormindo. Voltou a postura normal. Ombros relaxados, talvez cansados e um olhar de quem procura comida no chão.&#xA;&#xA;Cruzou o trailer desviando dos entulhos e sentou-se ao lado da cama, onde ela dormia com as pernas encolhidas pro lado da parede. Apenas alguns dias antes Rafa explicou que era mais seguro assim, poderia engasgar durante o sono. Hoje não possui mais forças para falar. Pedro pousou a mão em suas costas, pra ver se ainda estava respirando. Os cabelos não aparentavam mais o mesmo bagunçado bonito de antes e os ossos já marcavam suas articulações como se fosse uma boneca de madeira.&#xA;&#xA;Por estar ao seu lado o coração já batia mais calmo e os lábios tentavam uma pequena emoção, não o suficiente para poder ser um sorriso. Mas ficar ao lado de seu amigos sempre lhe causou esse bem. Faziam dez pares de anos que se conheciam. A Rafa contava para qualquer estranho no bar que conheceu Pedro e Marcelo enquanto fugia da polícia, por estar fumando maconha na praça, e os dois ajudaram-a a se esconder. Mas ele lembrava que era só por causa do skate e era o diretor da escola, mas a história era mais legal assim. Sempre teve um olhar de aluada e sorria pra tudo. O Marcelo era o mais popular da tríade, com diversas namoradas, colecionava piadas e histórias engraçadas. Os dois eram tudo de importante que ele já teve por perto durante boa parte da sua história.&#xA;&#xA;Nunca poderia pensar que a amizade fosse durar tanto, passaram pelo colégio juntos e mesmo as faculdades sendo diferentes, compartilharam os bares. Não havia nada que eles não tivessem vivido juntos. Depressões, saudades, divórcios, doenças… Quando a Rafa fez quimioterapia, ele que assou o bolo espacial pra ela. Quando o Marcelo foi preso, eles que iam visitá-lo toda semana. Quando precisou de ajuda para crescer e ter coragem de ser uma alguém, foram eles.&#xA;&#xA;Se seu calendário mental estivesse correto, o que duvidava um pouco, fazia três meses que não viam o Marcelo. Foi mais ou menos nesses dias que começou a doença. Ela precisou ficar de cama, não dava para sair para procurá-lo, a prioridade era buscar por remédios que aliviassem as dores. O esconderijo ainda era o mesmo, um pequeno trailer abandonado ao lado do parque que a vegetação já havia escondido. Se estivesse bem, poderia voltar. Se não, era melhor nem saber.&#xA;&#xA;Naquele momento, sentado no chão ao lado da cama, abraçou as pernas e afundou o rosto nos joelhos. A respiração, incerta como a vida presente, competia com a força que fazia para fechar os olhos e não deixar as lágrimas fugirem. Ouviu a chuva começar a se atirar contra teto do trailer. Segurou na cama e fez força para se levantar, engoliu a seco as mágoas pelo mau do mundo e atravessou o trailer em direção à porta. Vestiu sua capa capa de chuva, uma velha lona azul, e hesitou procurando forças para adentrar o mundo. Por menos de um segundo sorriu como uma autoflagelação: ainda não fazia nem dois anos que o mundo havia acabado.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;#contos #SantissimaTrindade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h3 id="capítulo-1-escatologia-more">Capítulo 1 – Escatologia </h3>

<p>Parou em frente a porta, olhou-a de baixo pra cima tentando demorar o máximo possível esperando o milagre da coragem chegar. Fez uma reverência para desviar da ripa pregada no batente. Empurrou aquela pequena porta arredondada e atravessou com a pose de quem ia revelar o vilão do filme… Mas a Rafa estava dormindo. Voltou a postura normal. Ombros relaxados, talvez cansados e um olhar de quem procura comida no chão.</p>

<p>Cruzou o trailer desviando dos entulhos e sentou-se ao lado da cama, onde ela dormia com as pernas encolhidas pro lado da parede. Apenas alguns dias antes Rafa explicou que era mais seguro assim, poderia engasgar durante o sono. Hoje não possui mais forças para falar. Pedro pousou a mão em suas costas, pra ver se ainda estava respirando. Os cabelos não aparentavam mais o mesmo bagunçado bonito de antes e os ossos já marcavam suas articulações como se fosse uma boneca de madeira.</p>

<p>Por estar ao seu lado o coração já batia mais calmo e os lábios tentavam uma pequena emoção, não o suficiente para poder ser um sorriso. Mas ficar ao lado de seu amigos sempre lhe causou esse bem. Faziam dez pares de anos que se conheciam. A Rafa contava para qualquer estranho no bar que conheceu Pedro e Marcelo enquanto fugia da polícia, por estar fumando maconha na praça, e os dois ajudaram-a a se esconder. Mas ele lembrava que era só por causa do skate e era o diretor da escola, mas a história era mais legal assim. Sempre teve um olhar de aluada e sorria pra tudo. O Marcelo era o mais popular da tríade, com diversas namoradas, colecionava piadas e histórias engraçadas. Os dois eram tudo de importante que ele já teve por perto durante boa parte da sua história.</p>

<p>Nunca poderia pensar que a amizade fosse durar tanto, passaram pelo colégio juntos e mesmo as faculdades sendo diferentes, compartilharam os bares. Não havia nada que eles não tivessem vivido juntos. Depressões, saudades, divórcios, doenças… Quando a Rafa fez quimioterapia, ele que assou o bolo espacial pra ela. Quando o Marcelo foi preso, eles que iam visitá-lo toda semana. Quando precisou de ajuda para crescer e ter coragem de ser uma alguém, foram eles.</p>

<p>Se seu calendário mental estivesse correto, o que duvidava um pouco, fazia três meses que não viam o Marcelo. Foi mais ou menos nesses dias que começou a doença. Ela precisou ficar de cama, não dava para sair para procurá-lo, a prioridade era buscar por remédios que aliviassem as dores. O esconderijo ainda era o mesmo, um pequeno trailer abandonado ao lado do parque que a vegetação já havia escondido. Se estivesse bem, poderia voltar. Se não, era melhor nem saber.</p>

<p>Naquele momento, sentado no chão ao lado da cama, abraçou as pernas e afundou o rosto nos joelhos. A respiração, incerta como a vida presente, competia com a força que fazia para fechar os olhos e não deixar as lágrimas fugirem. Ouviu a chuva começar a se atirar contra teto do trailer. Segurou na cama e fez força para se levantar, engoliu a seco as mágoas pelo mau do mundo e atravessou o trailer em direção à porta. Vestiu sua capa capa de chuva, uma velha lona azul, e hesitou procurando forças para adentrar o mundo. Por menos de um segundo sorriu como uma autoflagelação: ainda não fazia nem dois anos que o mundo havia acabado.</p>

<h5 id="tipo">Tipo</h5>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a> <a href="/dobrado/tag:SantissimaTrindade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">SantissimaTrindade</span></a></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/santissima-trindade</guid>
      <pubDate>Thu, 26 Nov 2020 17:36:00 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O buraco</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/o-buraco</link>
      <description>&lt;![CDATA[Há dois anos apareceu um quadrado preto no céu. Acharam que era alienígena, que eram deuses enfurecidos, que era buraco de minhoca. Aliás, deram nome de Buraco de Hawking, em homenagem ao finado cientista. Não sei se eu gostaria de ter um buraco com meu nome, depois de morrer.!--more--&#xA;&#xA;E isso nem parece um buraco, sabe? É quadrado. Ninguém faz um buraco quadrado. E ele nem tem fundo, todo buraco tem fundo. No primeiro dia tentaram ilumina-lo, apontaram um laser para medir a distância e nada aconteceu. O laser simplesmente entrou pelo buraco e não conseguiram ver até onde ele ia. O tal do Elon Musk tentou enviar um foguete pra lá uns meses atrás. Durante a live a nave entrou e “caiu”. Digo “caiu” porque adentrou pelo buraco e voltou como se tivesse acabado o combustível, mesmo que os propulsores ainda cuspisse fogo como dragões. O foguete simplesmente parou de subir, sua ponta pendeu e voltou para a terra em uma velocidade absurda. Dizem que não sobrou nada do carro elétrico que estava lá dentro.&#xA;&#xA;Mas nem é só isso, o buraco aparece para todos no céu. Por exemplo, eu aqui no Uruguai vejo o mesmo buraco que um surfista australiano, ao mesmo tempo e no mesmo “lugar”. Um YouTuber pegou um carro esses tempos e decidiu filmar o buraco enquanto andava em linha reta. Chegou na Venezuela, pouco depois da fronteira ele desceu do carro, xingou seu patrocinador e decidiu voltar. Parece que voltou a trabalhar no escritório do pai depois disso. Um velho esquisito brasileiro disse que isso é a “redoma da terra plana que quebrou”. Queria muito perguntar pra ele como uma redoma quebra em um quadrado perfeito.&#xA;&#xA;Teve um pastor americano que disse que era o fim do mundo. E que esse buraco precedia o Apocalipse. Ele, o buraco não o pastor, ia crescer e tomar conta dos céus e o dia viraria trevas. Ainda tô esperando por isso, pelo menos podia chegar antes do verão. Mas nem culpo tanto ele, tiveram muitos físicos e astrônomos que rasgaram seus diplomas e viraram hippies. Os astrólogos por outro lado, agora inventaram um novo signo.&#xA;&#xA;Enquanto isso continuamos nossa vida normalmente. Vamos trabalhar, falamos sobre o buraco na hora do almoço, o Ilhan conta piadas ruins sobre o buraco desde o dia zero. A copeira do escritório comenta que o buraco no céu fez a filha dela engravidar. E meu chefe diz que esse buraco é uma forma totalmente nova de empreender e diz que ainda não descobriu como. Na verdade ele queria ter fundado aquela startup que leva influencers de balão até o buraco para eles tirarem selfie.&#xA;&#xA;Eu? Eu acho que é um dead pixel. Alguém precisa trocar o monitor de deus.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;&#xA;contos]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Há dois anos apareceu um quadrado preto no céu. Acharam que era alienígena, que eram deuses enfurecidos, que era buraco de minhoca. Aliás, deram nome de Buraco de Hawking, em homenagem ao finado cientista. Não sei se eu gostaria de ter um buraco com meu nome, depois de morrer.</p>

<p>E isso nem parece um buraco, sabe? É quadrado. Ninguém faz um buraco quadrado. E ele nem tem fundo, todo buraco tem fundo. No primeiro dia tentaram ilumina-lo, apontaram um laser para medir a distância e nada aconteceu. O laser simplesmente entrou pelo buraco e não conseguiram ver até onde ele ia. O tal do Elon Musk tentou enviar um foguete pra lá uns meses atrás. Durante a live a nave entrou e “caiu”. Digo “caiu” porque adentrou pelo buraco e voltou como se tivesse acabado o combustível, mesmo que os propulsores ainda cuspisse fogo como dragões. O foguete simplesmente parou de subir, sua ponta pendeu e voltou para a terra em uma velocidade absurda. Dizem que não sobrou nada do carro elétrico que estava lá dentro.</p>

<p>Mas nem é só isso, o buraco aparece para todos no céu. Por exemplo, eu aqui no Uruguai vejo o mesmo buraco que um surfista australiano, ao mesmo tempo e no mesmo “lugar”. Um YouTuber pegou um carro esses tempos e decidiu filmar o buraco enquanto andava em linha reta. Chegou na Venezuela, pouco depois da fronteira ele desceu do carro, xingou seu patrocinador e decidiu voltar. Parece que voltou a trabalhar no escritório do pai depois disso. Um velho esquisito brasileiro disse que isso é a “redoma da terra plana que quebrou”. Queria muito perguntar pra ele como uma redoma quebra em um quadrado perfeito.</p>

<p>Teve um pastor americano que disse que era o fim do mundo. E que esse buraco precedia o Apocalipse. Ele, o buraco não o pastor, ia crescer e tomar conta dos céus e o dia viraria trevas. Ainda tô esperando por isso, pelo menos podia chegar antes do verão. Mas nem culpo tanto ele, tiveram muitos físicos e astrônomos que rasgaram seus diplomas e viraram hippies. Os astrólogos por outro lado, agora inventaram um novo signo.</p>

<p>Enquanto isso continuamos nossa vida normalmente. Vamos trabalhar, falamos sobre o buraco na hora do almoço, o Ilhan conta piadas ruins sobre o buraco desde o dia zero. A copeira do escritório comenta que o buraco no céu fez a filha dela engravidar. E meu chefe diz que esse buraco é uma forma totalmente nova de empreender e diz que ainda não descobriu como. Na verdade ele queria ter fundado aquela startup que leva influencers de balão até o buraco para eles tirarem selfie.</p>

<p>Eu? Eu acho que é um dead pixel. Alguém precisa trocar o monitor de deus.</p>

<h5 id="tipo">Tipo</h5>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a></p>
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      <pubDate>Thu, 19 Nov 2020 15:29:18 +0000</pubDate>
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      <title>Tipos</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/tipos</link>
      <description>&lt;![CDATA[Lista dos tipos de conteúdo criados nesse blog.&#xA;&#xA;contos&#xA;opinioes]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Lista dos tipos de conteúdo criados nesse blog.</p>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a>
<a href="/dobrado/tag:opinioes" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">opinioes</span></a></p>
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      <guid>https://blog.bantu.social/dobrado/tipos</guid>
      <pubDate>Thu, 19 Nov 2020 15:14:40 +0000</pubDate>
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      <title>Aquele dia do pastel</title>
      <link>https://blog.bantu.social/dobrado/aquele-dia-do-pastel</link>
      <description>&lt;![CDATA[Era domingo e acordei cedo. Lavei o rosto como quem limpa a vergonha na pia e antes mesmo de escovar os dentes, senti que precisava de um café da manhã. Mas nada saudável, sim aquele pastel engordurado frito em óleo velho que não serve nem para fazer biodiesel. Coloquei o chinelo velho e desci a rua cheia de carros encostados no meio fio da já pequena calçada. !--more--&#xA;&#xA;Após alguns passos largos com os olhos ainda pesados de sono, avistei no final da rua a feira. Aquele monte de barracas com cobertas de lonas coloridas, a diversidade de tons combinavam com os gritos a plenos pulmões das pessoas tentando vender seus produtos. Era dia de feira.&#xA;&#xA;— Ô tia, me vê um pastel de carne seca com queijo.&#xA;&#xA;— Pastel de carne com! — o grito saiu com o mesmo dinamismo que ela virou para atender o outro cliente que havia chegado instantes depois.&#xA;&#xA;Sempre achei engraçado como eles se organizam e sabem quais sabores estão dentro daqueles pasteis idênticos, engavetados como se fossem tediosos arquivos de um escritório qualquer de contabilidade. Busquei com os olhos a pimenta, que estava do outro lado da barraca, fui atrás delas cuidando para que pudesse avisar a dia do pastel do mês deslocamento repentino.&#xA;&#xA;— Vai comer agora?&#xA;&#xA;— Sim!&#xA;&#xA;Ela lembrou de mim e do meu pedido. Me viu do outro lado da barraca e acertou o pastel. Adoro carne seca com queijo, com pimenta então... Uma delícia! Ela é bem observadora? Será anos de prática?&#xA;&#xA;— Nossa! Você tá grávida, filha? — A coragem da tia em disparar um questionamento tão simples e polêmico foi acompanhado de um sorriso rápido enquanto colocava alguns pastéis na sacola. Gelei por um momento, o tempo desacelerou e eu imaginei uma catástrofe. E se a menina não estivesse grávida e apenas exagerado um pouco na comida nos últimos meses? Que intimidade era essa? Será que se conheciam?&#xA;&#xA;— Sim, estou de 4 meses. — Ufa! essa foi por pouco.&#xA;&#xA;— E o pai? Vai assumir? — Apesar da indiscrição, o jeito doce e simples que imperava na voz não ofendia a quem era dirigida.&#xA;&#xA;— Não, ele fugiu.&#xA;&#xA;A garota sai levando alguns pasteis e a tia do comenta, observando ela indo embora — Tadinha, lembro dela vindo pra cá comprar pastel com a mãe, e agora ta grávida. — Eu com os pensamentos embaralhados questiono como ela tinha certeza que a menina estava grávida? Talvez seja coisa de mulher. Nunca saberei, mas ainda tenho fome. — Tia, me vê um pastel de franco com catupiry?&#xA;&#xA;— Frango com!&#xA;&#xA;Ela tem boa memória e é bem observadora. Deve ser muitos anos de trabalho. Ou será que ela faz isso com alguma intenção? Hm, não… Por que ela faria isso? Ela é só a atentende da barraca, a não ser que ela fosse uma agente secreta com treinamento. Mas o que ela faria aqui nesse bairro tão pacato e cheio de idosos?&#xA;&#xA;— Oi, queria pedir uns pastéis: dois de carne, dois de frango com catupiry e um de calabresa.&#xA;&#xA;— Dois carne, dois frango e um calabresa! Faz tempo que você não vem aqui, hein? Tava de férias?&#xA;&#xA;— Não, tava trabalhando em dias diferentes.&#xA;&#xA;— Ah é? Você trabalha na barraca daquela senhora morena, né?&#xA;&#xA;&#34;Senhora morena&#34;, poupe-me. Isso descreve metade da feira.&#xA;&#xA;— Isso mesmo. Nas últimas semanas eu fiquei de folga domingo, tava na semana. — Ela jogou verde e deu certo, deve ser só simpatia.&#xA;&#xA;— Ah, que bom ter uma folga né? Toma aqui os seus pastéis. E manda lembranças pra dona Cristina.&#xA;&#xA;— Obrigada, mando sim!&#xA;&#xA;Ela sabia mesmo o nome da senhora. Começo a imaginar que ela seja uma agente secreta. Talvez tenha algum ex-tenente nazista na região, foragido e cheio de ideias perigosas da segunda guerra. O que não é de se espantar, afinal só tem idosos aqui no bairro. &#xA;&#xA;— Tia, cobra pra mim?&#xA;&#xA;— Um carne seca com queijo e um de frango, né? 9 reais.&#xA;&#xA;— Aqui, pode ficar com troco.&#xA;&#xA;— Obrigada, volte sempre. Mande lembranças pra namorada.&#xA;&#xA;— Mando sim.&#xA;&#xA;Eu nunca vim com minha namorada nesse barraca. Ela deve ser uma agente secreta mesmo. Talvez uma espiã da MI5. Percebi que ela pronuncia o &#34;a&#34; de maneira peculiar. Aquele pastel de carne seca com queijo tava super bom. Acho que vou voltar aqui semana que vem.&#xA;&#xA;Tipo&#xA;contos]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Era domingo e acordei cedo. Lavei o rosto como quem limpa a vergonha na pia e antes mesmo de escovar os dentes, senti que precisava de um café da manhã. Mas nada saudável, sim aquele pastel engordurado frito em óleo velho que não serve nem para fazer biodiesel. Coloquei o chinelo velho e desci a rua cheia de carros encostados no meio fio da já pequena calçada. </p>

<p>Após alguns passos largos com os olhos ainda pesados de sono, avistei no final da rua a feira. Aquele monte de barracas com cobertas de lonas coloridas, a diversidade de tons combinavam com os gritos a plenos pulmões das pessoas tentando vender seus produtos. Era dia de feira.</p>

<p>— Ô tia, me vê um pastel de carne seca com queijo.</p>

<p>— Pastel de carne com! — o grito saiu com o mesmo dinamismo que ela virou para atender o outro cliente que havia chegado instantes depois.</p>

<p>Sempre achei engraçado como eles se organizam e sabem quais sabores estão dentro daqueles pasteis idênticos, engavetados como se fossem tediosos arquivos de um escritório qualquer de contabilidade. Busquei com os olhos a pimenta, que estava do outro lado da barraca, fui atrás delas cuidando para que pudesse avisar a dia do pastel do mês deslocamento repentino.</p>

<p>— Vai comer agora?</p>

<p>— Sim!</p>

<p>Ela lembrou de mim e do meu pedido. Me viu do outro lado da barraca e acertou o pastel. Adoro carne seca com queijo, com pimenta então... Uma delícia! Ela é bem observadora? Será anos de prática?</p>

<p>— Nossa! Você tá grávida, filha? — A coragem da tia em disparar um questionamento tão simples e polêmico foi acompanhado de um sorriso rápido enquanto colocava alguns pastéis na sacola. Gelei por um momento, o tempo desacelerou e eu imaginei uma catástrofe. E se a menina não estivesse grávida e apenas exagerado um pouco na comida nos últimos meses? Que intimidade era essa? Será que se conheciam?</p>

<p>— Sim, estou de 4 meses. — Ufa! essa foi por pouco.</p>

<p>— E o pai? Vai assumir? — Apesar da indiscrição, o jeito doce e simples que imperava na voz não ofendia a quem era dirigida.</p>

<p>— Não, ele fugiu.</p>

<p>A garota sai levando alguns pasteis e a tia do comenta, observando ela indo embora — Tadinha, lembro dela vindo pra cá comprar pastel com a mãe, e agora ta grávida. — Eu com os pensamentos embaralhados questiono como ela tinha certeza que a menina estava grávida? Talvez seja coisa de mulher. Nunca saberei, mas ainda tenho fome. — Tia, me vê um pastel de franco com catupiry?</p>

<p>— Frango com!</p>

<p>Ela tem boa memória e é bem observadora. Deve ser muitos anos de trabalho. Ou será que ela faz isso com alguma intenção? Hm, não… Por que ela faria isso? Ela é só a atentende da barraca, a não ser que ela fosse uma agente secreta com treinamento. Mas o que ela faria aqui nesse bairro tão pacato e cheio de idosos?</p>

<p>— Oi, queria pedir uns pastéis: dois de carne, dois de frango com catupiry e um de calabresa.</p>

<p>— Dois carne, dois frango e um calabresa! Faz tempo que você não vem aqui, hein? Tava de férias?</p>

<p>— Não, tava trabalhando em dias diferentes.</p>

<p>— Ah é? Você trabalha na barraca daquela senhora morena, né?</p>

<p>“Senhora morena”, poupe-me. Isso descreve metade da feira.</p>

<p>— Isso mesmo. Nas últimas semanas eu fiquei de folga domingo, tava na semana. — Ela jogou verde e deu certo, deve ser só simpatia.</p>

<p>— Ah, que bom ter uma folga né? Toma aqui os seus pastéis. E manda lembranças pra dona Cristina.</p>

<p>— Obrigada, mando sim!</p>

<p>Ela sabia mesmo o nome da senhora. Começo a imaginar que ela seja uma agente secreta. Talvez tenha algum ex-tenente nazista na região, foragido e cheio de ideias perigosas da segunda guerra. O que não é de se espantar, afinal só tem idosos aqui no bairro.</p>

<p>— Tia, cobra pra mim?</p>

<p>— Um carne seca com queijo e um de frango, né? 9 reais.</p>

<p>— Aqui, pode ficar com troco.</p>

<p>— Obrigada, volte sempre. Mande lembranças pra namorada.</p>

<p>— Mando sim.</p>

<p>Eu nunca vim com minha namorada nesse barraca. Ela deve ser uma agente secreta mesmo. Talvez uma espiã da MI5. Percebi que ela pronuncia o “a” de maneira peculiar. Aquele pastel de carne seca com queijo tava super bom. Acho que vou voltar aqui semana que vem.</p>

<h4 id="tipo">Tipo</h4>

<p><a href="/dobrado/tag:contos" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">contos</span></a></p>
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      <pubDate>Wed, 11 Nov 2020 00:00:21 +0000</pubDate>
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