line ليني

Estudante de letras escrevendo um pouco sobre tudo.

amanheceu

A cidade se deita e estou acordada. Ela dorme, e continuo acordada. Ela ronca. E eu ainda acordada. Oito horas de sono, pra mim, é luxo. E nessas noites não-dormidas, comecei a me encontrar no mundo. A solidão durante a madrugada é grande e por isso dei início a um processo de autoconhecimento. Busco algo para fazer, muitas vezes opto por algo que acho chato na tentativa do sono aparecer. Mas na maioria do tempo, aproveito meu pique pra crescer o quanto posso: artistando, lendo, estudando e escrevendo. Vem também o cansaço antecipado, diante dos pensamentos sobre o dia que virá logo a seguir e não estarei com meu cérebro descansado. E depois de algumas horas, a cidade se levanta e vejo o mundo com sua vida acontecendo. Suas energias parecem estar recarregadas, enquanto me sinto um celular sem bateria. Cresço comigo, mas a cada momento que olho o relógio torço pelo meu primeiro bocejo. Ele normalmente vem quando os pássaros já estão cantando e o dia clareando. Aprendi, na marra, que a insônia não pode ser totalmente ruim. Tem dias que tenho vontade de acordar as pessoas que gosto para que elas possam admirar comigo a beleza do amanhecer. Tem dias que ouço gemidos. Tem dias que esses gemidos veem de mim e eu fico feliz por lembrar que o orgasmo é um dos melhores remédios para me fazer dormir.

escrever é uma vávula de escape ou tentativa às vezes os pensamentos nos prendem a ponto de não sair uma palavra colocar versos em papéis, telas mentes e corações escrever com raiva, ódio ou amor sobre você, sobre mim ou sobre ninguém a liberdade da escrita é algo que se sente é a tentativa de demonstrar sentimento de decodificar meu pensamento que normalmente nem eu entendo

Primeiro encontro

Quando pensamos em sexo, a grande maioria das pessoas já visualizam mentalmente o sexo hétero. Como lésbica, penso, instantaneamente, em um sexo com mulheres. É engraçado como isso faz com que várias situações que seriam constrangedoras, caso acontecessem entre homem e mulher, não sejam. Essa semana aconteceu algo engraçado que me deixou reflexiva sobre essa liberdade e intimidade que só existe entre as mulheres – conversamos umas com as outras nas filas dos banheiros sobre sentimentos como se fossemos amigas de longa data. Geração do Tinder, né, vamos lá. Terminei meu relacionamento há alguns meses. 9 meses de namoro, terminamos porque ela precisou ir embora para outro estado. Enfim, fiquei naquelas. Segui tentando lembrar como é todo esse jogo de flertar e desenrolar. Instalei o Tinder mais uma vez. Mudei a foto, renovei a minibiografia e finalmente estava pronta para atacar. Match! Ela estuda psicologia aqui na UFRJ , é vegetariana e me encantou quando começou a falar aleatoriedades. Tivemos horas de assuntos nada entediantes e isso é um ótimo começo para uma interação a partir de um aplicativo. Curtíamos as mesmas músicas, ela adorava cerveja e fumava maconha. Marcamos de ir ao CCBB e depois tomamos uma cerveja na Ouvidor, uma rua famosa por sua boemia em meio ao caos do centro do Rio de Janeiro, e ali no bar bebemos alguns litros de cerveja. Gostaria de fazer um adendo irrelevante: o litrão de Brahma custava R$16. Depois que algumas cervejas foram tomadas, o álcool começou a fazer efeito e as duas deixaram a vergonha de lado para que o beijo saísse. Desenrolamos. Fomos para a casa dela. Beijos pra lá e pra cá. Amassos pra lá e pra cá. Eis que lembro de uma sequela sapatão: não cortei minhas unhas. Diversas cenas de vaginas arranhadas por unhas grandes me vêm à mente. Argh, sinto nervoso só de pensar. Será que a insegurança que senti ali é semelhante a de um homem que está sem camisinha na carteira?! Acho que não, porque eles nem parecem se preocupar tanto quanto as mulheres. Tentei não pensar na minha unha, mas isso me vinha à mente o tempo inteiro. Pensei em roer, mas sem uma lixa a situação não ficaria muito boa também. Pensei em pedir um cortador de unha pra ela, na cara dura; mas não tive coragem por ainda ser o primeiro encontro. Ainda tinha a incerteza se iríamos transar ou não. Até que em um momento, percebi que já estávamos tirando nossas roupas. Ia rolar. Quando fui pensar novamente sobre o tamanho de minhas unhas, o pensamento foi cortado pelo desejo e me vi sentindo seus pelos e seus gostos na minha boca. Esqueci da unha, meus dedos já estavam dentro dela e então eu percebi que minhas unhas talvez nem estivessem tão grandes quanto imaginei. Aprendi a lição e atualmente, tenho um cortador de unha em meu molho de chaves. O vai e vem, os corpos suados se encostando... mas sinto algo estranho no meio da transa. As minhas coxas estavam mais molhadas do que deveriam… porque minha menstruação decidiu descer naquele exato momento. No mesmo momento entendi o estresse e a carência que senti durante aquela aquela semana. E agora?! Aviso pra ela?! Ela nem percebeu ainda!! São muitos pensamentos!! Ai meu deus!!! Comecei a ficar desesperada e logo ela percebeu que minha feição estava estranha. Parei, olhei pra ela e falei “Cara, acho que minha menstruação desceu”. Eu não achava, já tinha certeza, mas não sabia como falar. Ela olhou as próprias mãos cheias de sangue. Fiquei esperando uma reação e aqueles segundos demoraram a eternidade. Ela fez uma cara normal. Me deu um beijo, foi ao banheiro para lavar as mãos e terminamos no chuveiro o que já tinha começado. Depois de muita risada, ainda colocamos o lençol de molho no sabão. A liberdade no sexo lésbico me encanta, me fascina. Transar com pessoas do mesmo sexo que você te obriga a reinventar o ato, e aprender a transar diferente, porque só nos ensinam sobre o sexo hétero baseado na penetração. Episódios como esse acontecem e eles vêm para nos dar mais experiência. Sexo é muito mais do que mostram que é. Não é limitado nem previsível, tem situações constrangedoras e engraçadas. Essa não foi a primeira vez que me senti constrangida na transa e, com certeza, não será a última. Às vezes, essas situações podem render até um texto para entreter quem sabe que isso acontece.

Sem sexo, com drogas e sem rock'n’roll

Nunca gostei de escrever crônicas, mas senti que esse dia merece ser eternizado em algum lugar. Talvez tenha sido o dia mais louco da minha vida, na verdade. E tudo começou na UFRJ. Era 2016. Eu era aluna da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a famosa UERJ. Em um dia qualquer, meu amigo Eli, aluno de Biblioteconomia da UFRJ, me convidou para ir a uma festa na Reitoria. Nunca tinha ido e não sabia como chegar, então fui para sua casa e partimos juntos para o campus Fundão. Andamos uns 20 minutos até o ponto de ônibus, e eu nem pensei na ideia de gravar o caminho. Mesmo se tentasse, viramos em tantas ruas que não sei se conseguiria me lembrar. Chegamos na festa, muitas pessoas do nosso grupo estavam desanimadas e por isso fui dar umas voltas pra ver se encontrava alguns amigos que estudavam por lá. Achei meu amigo Eduardo. Nos conhecemos desde que tínhamos 12 anos e resolvemos aproveitar a festa juntos por um tempo. Procurei Eli e marcamos um horário para nos encontrarmos: às 21h, embaixo de uma árvore específica. Encontrei outro amigo, Thalles, e ficamos juntos até umas 20h40. Fui pra debaixo da árvore e esperei. Esperei até 21h. Não tinha ninguém que eu conhecia. Tentei ligar pro Eli, mas meu celular descarregou. Minhas coisas não estavam lá. E comigo só tinha um celular descarregado, R$20, nenhum documento e eu não fazia ideia de como sair daquela ilha. É aí que a noite mais louca da minha vida começa. Comecei a caminhar pelo Fundão com Thalles pensando sobre qual seria a solução para minha vida. Thalles morava em uma república na Ilha do Governador, mas não podia receber visitas, ou seja, eu não poderia dormir por lá. Caminhando, caminhando… parei no ponto de ônibus. E encontrei a Jes, uma mina de Nova Iguaçu também, que eu nunca tinha falado diretamente, mas sempre estávamos nos mesmos eventos e tínhamos muitos amigos em comum. Ela estava acompanhada de Rebeca, pois as duas passaram aquele dia rimando e declamando poesia no BRT tentando tirar uma grana. Contei pra Jes a minha situação desesperadora e ela me deu uma solução: ir para uma festa com ela em Botafogo. Seria em uma casa, eu poderia recarregar a bateria do meu celular e me comunicar com o mundo, então fui. Enquanto esperávamos o ônibus, Jes e Rebeca droparam um nbome. O 485 [Fundão x General Osório] veio e Jes conseguiu desenrolar com o motorista para entrarmos pela porta de trás – só eu estava sem nada, mas no fim ele liberou para as três – e assim que entramos no ônibus um menino branco falou “Agora virou bagunça isso aqui?!”, deixando a Rebeca mais exaltada do que ela estava. A primeira saga do ônibus: Rebeca estava puta. O menino foi desrespeitoso e ela começou a discutir com ele. Ele gritava que ela era favelada e mandava que ela calasse a boca. Eu nem queria demonstrar que estava junto. Eu só queria chegar na tal festa. Quando olhei, assisti Rebeca dando um chute na nuca do menino, que já estava sentado nas escadas da porta de saída do ônibus. Ele levantou com o objetivo de bater nela, mas os amigos dele e muitas pessoas do ônibus disseram que ele estaria errado de encostar a mão em uma mulher. Ela retirou uma agulha de crochê da bolsa e começou a ameaçá-lo. Jes conseguiu convencê-la a não fazer besteira. Ele só não bateu nela porque as pessoas realmente o impediram. O ônibus parou quando passou por uma viatura policial e revistaram apenas Rebeca – uma menina preta vinda do Capão. Rebeca, na defensiva, disse que o menino vendia drogas ecstasy e LSD pelo campus – ela nunca tinha visto o menino na vida – e que não o revistaram porque ele tinha cara de playboy. Os policiais retiraram o menino do ônibus para uma revista mais específica. Houve paz por alguns minutos, até que três meninos brancos, sem camisa, entraram e um deles começou a ser cordial com Rebeca, dizendo que era nascido e criado na Penha, um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, e ela começou a ser agressiva com ele nas palavras. O mais engraçado é que enquanto ela discutia com eles, ela rimava as ofensas. O menino ficou irritado, mas um dos amigos comprou a briga e foi discutir com Rebeca. Na verdade, depois de duas frases ele queria bater nela e, novamente, pessoas ao redor tiveram que dizer que ele não deveria bater em mulher. Enquanto tudo isso acontecia, Jes estava quieta. Mas esse último menino deixou Jes irritada, e no fim até ela entrou na discussão. Ela estava fumando um cigarro na janela do ônibus, apagou e foi até o menino. No ouvido dele falou baixinho “Tu baixa tua bola, porque você não é o rei aqui”. E o menino ficou quieto. Graças a Deus o ônibus chegou na Álvaro Ramos, nosso ponto em Botafogo. Ao descermos do ônibus, Rebeca já estava desestabilizada. Elas se conheceram naquele dia e Jes não sabia nada sobre ela. Contou pra gente que perdeu uma filha e que estava com câncer de mama. Chateada com as situações que aconteceram, queria devolver as moedas que arrecadou com Jes durante todo o dia nos ônibus e jogou todas no chão. Disse que não ia nos acompanhar até a “Open House”. Jes conseguiu convencê-la. Iríamos para a casa e ateliê do Vinus. Eu não conhecia ninguém, só queria um lugar para dormir e recarregar meu celular. E aí começa a terceira parte da noite… Chegamos lá, era perto da Álvaro Ramos, uma rua conhecida pelo bairro Botafogo. Assim que entrei na casa, me deparei com três pessoas: Vinus, Glória e Lili. Uma delas estava pelada e essa mulher se apresentou como Glória, nome de uma personagem de Clarice Lispector. Ela dizia que era famosa, e que era só jogar o nome dela no Xvídeos. Quando me viu suando devido à leve subida para chegar, Glória disse que eu também poderia tirar minhas roupas, já que estava calor. Estava no meio de pessoas do cenário pós-pornô e, nudista como sou, tirei minha roupa rapidamente. Depois de alguns minutos, senti que estava sendo observada com olhares diferentes. Não eram olhares de julgamento, mas eram olhares diferenciados para minha forma de agir na primeira visita à casa de uma pessoa que eu nem conhecia. Nesse momento, comecei a prestar mais atenção em detalhes. Glória estava bêbada. As outras duas pessoas que estavam na casa comentaram que tinham acabado de dar um banho nela. E tudo fez sentido: Glória só estava pelada porque estava bêbada, prestes a dar perda total. Vesti minha roupa lentamente, tentando fingir que nada tinha acontecido. E assim fui recepcionada naquele espaço. No meio desse constrangimento, consegui colocar meu celular para recarregar. Finalmente! E mandei mensagem para Eli. Ele disse ter levado minhas coisas embora porque achou que eu voltaria pra casa dele sozinha. Fiquei extremamente chateada porque tínhamos um combinado. Avisei onde estava, que estava segura e iria passar a noite ali em Botafogo. A partir daí, só me dispus a aproveitar porque já era tarde demais pra transitar pelo Rio de Janeiro sozinha, principalmente sentido Zona Norte, sendo preta e sem documentos. Todos pareciam muito legais. E chegou uma atriz pornô famosa no Brasil. A chamaremos de Gabriela Chocolate. Quando ela chegou e se apresentou, as pessoas realmente queriam ver seus vídeos. Colocaram um em que ela fazia anal e todo mundo começou a assistir junto. Chocolate já conhecia Rebeca de outro lugar. Não sei qual e, depois de tanta confusão, eu gostaria mesmo de não saber. Rebeca, como desde o início da noite, parecia estar decidida a desencadear alguma discussão ou briga. O dono da casa, Vinus, ficou extremamente irritado com as provocações que estavam acontecendo entre Chocolate e Rebeca e logo pôs um fim em toda discussão, pedindo, aos berros, para que Rebeca sossegasse e desse descanso para Chocolate. A casa não era grande. E todos estavam fugindo de Rebeca. Sua energia pesada pairava em cada cômodo que parava. As pessoas estavam na sala, ela chegava; as pessoas iam para a varanda, ela tentava novamente se reaproximar, e as pessoas iam para a sala. Eu era uma dessas pessoas. Estava realmente fugindo daquela mulher depois de uma viagem um pouco assustadora dentro do 485. Lili, uma mulher com falas tão sensatas sobre qualquer assunto falado naquela noite, percebeu que o clima não estava agradável e muito menos positivo. Foi quando ela viu a necessidade de uma intervenção espiritual naquele lugar. Lili chamou todos para a sala. Pediu que fizéssemos uma roda e colocou alguns pontos de Orixás pra tocar. Eu nunca tinha sequer ouvido pontos, mas estava lá rodando como se aquilo fizesse parte da minha rotina. Aos poucos, as músicas foram se intensificando, e Rebeca se deitou no sofá que ficava em um canto da sala. E conforme as pessoas iam entrando no clima, talvez espiritual, a menina irritada ia adormecendo. Até que dormiu de vez e Lili agradeceu. Disse que ela estava “pesando o rolê”. Chegaram Renan e Brenno. Eles tinham se conhecido no Tinder e aquele era o primeiro encontro. Renan não gostou muito de Brenno, que ficava forçando uma conversa desesperadamente. Em um determinado momento da noite, Renan começou a ignorá-lo. Sabendo que Renan gostava de drogas, Brenno se ofereceu para comprar cocaína. Os cheiradores de plantão, seis pessoas de nove – se Rebeca estivesse acordada, estaria cheirando também –, aceitaram sem hesitar e Brenno liberou o primeiro galo para o pó. Selecionaram duas pessoas, não lembro quais, para fazerem a “missão” com aqueles R$50. Brenno não usava drogas, dizia nem ter vontade e apenas queria ver o pessoal se divertindo. A bebida alcoólica era caipirinha porque cachaça custa menos que cerveja. E limão também. Todos queriam fumar um baseado, mas só tinha um pedaço que daria para bolar apenas um e, como bons maconheiros, entramos no consenso que seria utilizado em um momento muito propício: quando todos concordassem. A noite foi passando, as pessoas falavam muito com suas mentes aceleradas pela droga que corria no sangue. E como a cocaína é uma droga que acaba rápido, fizeram a missão de comprar pó durante 4 vezes naquela noite. No total Brenno gastou R$200 em uma substância que ele nem usava. Ele falava mais do que as pessoas drogadas. Ele não parava de falar sobre coisas extremamente aleatórias e Renan ficava irritado por ter levado aquele menino para um rolé com os amigos. A noite foi passando… as pessoas foram se cansando… e a bebida acabou. A larica chegou, e rolou uns sanduíches. Já estava frio do lado de fora. Fomos entrando pra sala e nos acomodando. Chocolate, Brenno e Renan foram embora. Restou Glória, Jes, Rebeca – que ainda dormia –, Vinus, Lili e eu. E mesmo com todo o barulho, Rebeca não acordava por nada. Todo mundo que olhava pra ela dizia que a macumba da Lili estava forte. As conversas aconteciam de forma aleatória e mesmo sem conhecer aquelas pessoas até algumas horas atrás, eu conseguia me inteirar dos assuntos. Um ambiente de esquerda com artistas e acadêmicos de humanidades que estavam dispostos a discutir sobre os temas mais inusitados. E por volta das cinco horas da manhã surgiu o consenso de fumarmos aquele baseado. As conversas se estenderam por um tempo entre 40 e 60 minutos. E aos poucos todos foram sentindo sono, à medida que o dia ia amanhecendo. Decidi dormir, naquela sala cheia de pessoas desconhecidas, para logo ir para casa. Todos dormiram. Rebeca acordou desesperada e disse que iria embora. Em menos de 5 minutos desapareceu como se nunca tivesse pisado ali. Até que alguém bateu à porta. Todo mundo acordou assustado. E o dono da casa foi ver: era Brenno, aos prantos. Quando entrou, todos ainda estavam espantados e atentos para ouvir o relato de Brenno sobre o que tinha acontecido. Ele começou a contar que Renan não estava satisfeito com os comportamentos dele e por isso passou a noite inteira ignorando-o. Quando foram embora para a casa de Renan, Brenno ainda tinha a expectativa que algo sexual fosse acontecer. E se frustrou porque Renan não dirigiu sequer uma palavra a ele. E foi se deitar. Brenno contava isso sentado no chão enquanto chorava. Todos estavam depositando extrema atenção nas palavras que saíam da boca daquele menino. E ele contou que se desculpou por não ter sido uma pessoa agradável, mas fez isso de uma forma um pouco diferente. Ele pediu desculpas de acordo com a cultura japonesa, pois era a cultura que mais admirava. Disse ter se sentado no chão e se curvado para Renan. Ele demonstrou como fez e disse algumas frases em japonês. Nesse momento as pessoas da sala se entreolharam enquanto seguravam o riso. Confesso que falhei e umas risadas escapuliram. Lili disse que Brenno não se ajudou quando se curvou para Renan, que “a vida não é um anime”. O menino ainda chorava. E depois de um café, se acalmou e decidiu ir pra casa. Ele também pegaria o metrô e decidi aproveitar essa carona para encontrar Eli e pegar minha bolsa de volta. Combinei o horário certo, avisei às pessoas que iria partir. Jés se certificou algumas vezes que estava tudo sob controle para que eu pudesse ir embora em segurança. Eu pedia desculpas por ter invadido um rolé para em que não fui chamada, mas Vinus chegou até a agradecer minha presença. Não sei até que ponto aquilo foi sinceridade ou pura cordialidade. Desci aquela rua com Brenno, aguardamos o metrô juntos, enquanto ele tentava puxar assunto e eu não estava muito disposta. Consegui chegar na estação São Cristóvão e de lá peguei um trem, sentido Japeri. Parei na estação Méier para pegar minha mochilinha. Eli estava lá me esperando. Não tive nem coragem de trocar palavras com ele porque eu ainda estava com raiva, pois pelo vacilo dele muitas coisas poderiam ter acontecido. Muitas coisas ruins. Mas eu estava bem agora. Estava com minhas coisas, meu dinheiro, documentos e o melhor de tudo: a caminho de casa. E cheguei bem, sem que meus pais desconfiassem de qualquer coisa que passei naquela noite extraordinária. Toda vez que tento contar essa longa história da minha vida, parece mentira. Às vezes, nem eu acredito, mas lembro que tenho Vinus, Lili e Jés no Facebook e que eles não apareceram lá por acaso. E certamente, o maior ensinamento que levarei sobre essa noite é que, não importa o erro que eu cometer, o importante é não pedir desculpas em japonês.