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from dobrado

Naquela sala de cantos arredondados eram tomadas as decisões mais importantes do mundo. Talvez fosse exagero, mas tinha certeza que a hipótese que trazia naquele monte de papéis enrolados na sua mão tremula iriam mudar a vida de todos os seres vivos daquele planeta. O nervosismo fazia seu corpo se balançar em órbita, revezando o peso em cada um de seus pés. Era a primeira vez naquele recinto e, de verdade, esperava que nunca precisasse ir para lá. Por mais que seus colegas de trabalho sonhassem com o reconhecimento de ser recebido ali pelo seu Líder Governamental, ela preferia estar no trabalho recolhendo dados de seu telescópio preferido. Já havia perdido a noção do tempo que estava lá esperando, dos ensaios para aquela conversa e até mesmo as dúzias de dias que tinham se passado desde que percebera algo estranho. No começo pensou serem apenas erros nas medições, mas agora, parada próxima ao sofá, não existia a possibilidade daquilo ser apenas um sonho mal dormido.

Em meio aos pensamentos emaranhados, um grupo atravessa abruptamente a porta dupla e pesada, fazendo a parecer tão leve quanto folhas. A frente deles, estava o Líder do Governamental. Seus pés batiam forte fazendo um som de trote, mesmo com sua visão fixada no chão logo a sua frente, parecia muito mais imponente que nas imagens transmitidas diariamente nos noticiários. Ele não olhou pra ela, sentou-se a mesa e esperou calmamento que sua equipe se posicionasse em volta dele como se fossem atores se preparando para uma apresentação. Ao todo eram seis, três pareciam seguranças com sua postura verticalmente perfeita e dois carregavam pastas e pranchetas, segurando-as como se, deixá-las cair, fosse despertar uma nova guerra.

— Pois bem, doutora. Você deve saber que não sou um Líder Governamental preocupado com espaço, estrelas e planetas. Já temos problemas demais aqui no chão pra eu me preocupar com coisas que acontecem nas luas.

— É muito mais longe, senhor. — e se arrependeu totalmente da resposta automática. Sempre teve dificuldades em não ser inconveniente, mas o nervosismo parecia retirar qualquer filtro que aprendera durante esses anos de vida acadêmica.

— É mesmo? Meu Conselheiro de Ciência e Tecnologia que insistiu que eu ouvisse o que você tem pra falar. Fale logo antes que eu me arrependa. — O olhar perfurante fez ela se sentir invisível e desejar novamente estar apenas analisando números no observatório.

— Certo... — abaixou sua cabeça para olhar suas mãos que desenrolavam tremulas os papéis já úmidos e amarrotados. Respirou fundo como enchesse de coragem para começar sua explicação ensaiada dúzias de vezes. — O senhor sabe como nós começamos a observar o espaço? Foi há 2298 anos, quando reparamos uma nova luz no céu. Uma cientista na época desenvolveu o primeiro telescópio e percebeu que a luz era uma estrela tão forte que brilhava até mesmo durante o dia. Após muitos anos descobrimos que isso foi uma supernova, uma estrela como a nossa que explodiu com uma força tão grande que o brilho dela chamou nossa atenção. E foi assim que começamos a nossa pesquisa sobre o espaço.

— Sim, mas e daí? Apareceu mais algum “superestrela” no nosso céu?

— Supernova. — nesse momento dentro dela irradiou um calor tão grande que ela tinha a certeza que poderia explodir de constrangimento e cegar a todos naquela sala, mas pensou rápido e seguiu antes que pudesse haver uma resposta — É exatamente o contrário. — dirigiu-se a mesa e espalhou finalmente os papéis a frente do Líder do Governamental, que prontamente ignorou. — Há aproximadamente cinco dúzias de anos, o nosso Chefe do Departamento de Astronomia documentou que uma estrela estava diminuindo seu brilho gradualmente. Mas como ela estava a mais de 14 mil anos-luz de distância, nunca conseguimos obter informação o suficiente para entender esse fenômeno. Isso se tornou um grande mistério na época, pois antes de morrer, estrelas explodem causando um brilho enorme e somente depois apagam.

Ela parou para retomar seu fôlego, observando se o Líder Governamental estava interessado nos papéis que jogara na mesa, mas ele ainda a observava de uma forma profunda. Ao mesmo tempo que não deixava saber se estava ou não prestando atenção ao que era dito.

— O Chefe do Departamento de Astronomia continuou a monitorar estrelas próximas e somente três dúzias anos atrás, com o lançamento do telescópio A-306, que conseguimos ter uma visão mais completa do universo. Porém, com os cortes em ciência devido à Grande Guerra, muitos estudos foram congelados e essa pesquisa ficou esquecida.

— Sim, o mundo precisou parar e estrelas são menos importantes que as bilhões de vidas perdidas na Grande Guerra.

— Sem dúvidas, Líder Governamental. Porém, uma dúzia de anos atrás fui encarregada de retomar algumas pesquisas que poderiam ser úteis. E entre elas eu encontrei os relatórios antigos do Chefe do Departamento de Astronomia. — ela gentilmente posicionou seis dedos no papel cheio de números e gráficos que estava mais no centro da mesa e empurrou lentamente para o outro lado.

O Líder Governamental abaixou os olhos, girou o papel em sua direção e balançando levemente sua cabeça percorria as linhas ali escritas. Ela esperou impaciente, mas calada, por uma deixa para continuar sua explicação.

Uma deixa que não veio.

— Olhe, por mais que uma ou duas estrelas desapareçam no céu, o que isso tem a ver? Daqui a 24 dias eu vou viajar para discutir o tratado de armas nucleares e sinceramente não vejo por que me preocupar com isso.

— Não são uma ou duas estrelas... Há 28 anos o Chefe do Departamento de Astronomia havia catalogado 8 estrelas que havia diminuído seu brilho. Hoje elas e outras 17 desapareceram dos céus. — Talvez fosse pelo tom preocupado em sua voz, pela falta de folego ou pelos números. Mas ela percebeu que pela primeira vez que o líder estava prestando atenção no que ela dizia. — E cada vez mais, estrelas próximas de nós estão se apagando.

— Você quer dizer que corremos o risco de daqui a alguns anos a nossa estrela se apague?

Ela sentiu que a tensão de seus músculos venceu e calmamente deixou seu corpo cair no sofá e descansou sua visão olhando para janela. Uma das luas brilhava parcialmente coberta por um edifício vizinho. Não sabia muito bem como explicar a hipótese que a incomodava, apesar dos ensaios prévios.

— O senhor conhece a “Placa de transição de hidrogênio”? Ela foi encontrada por arqueólogos em 3723.

— Sim, um dos meus antepassados era o Líder Governamental na época. Foi uma grande descoberta para nós. Até hoje não sabemos exatamente de onde veio, mas especula-se que alguma civilização de muito longe enviou essa placa de alumínio e ouro. A única informação que conseguimos decifrar foram a “transição hiperfina do hidrogênio” e o que parece ser a representação de seres alienígenas. — declamou como se lesse as informações de um livro escolar.

— Exato. Mas nessa placa existem algumas linhas em um padrão radial, nós sempre supomos que fosse um mapa, mas nunca conseguimos encontrar essa coordenada no espaço. — ela se levantou ainda tremula e arrastou algum de seus pés pela sala até alcançar novamente a mesa e empurrar outro papel para o Líder Governamental — Quando eu retomei a pesquisa do Chefe do Departamento de Astronomia, resolvi alinhar o telescópio A-306 para região da primeira estrela, afim de tentar identificar a causa inicial ou verificar se havia outras estrelas próximas se apagando.

Por um mero momento ela esqueceu que estava ali, respirou fundo duas vezes repassando as informações em sua mente. Será que ela estava louca? Será que era um erro de calibragem? Será que ela seria ridicularizada por todos os séculos restantes de sua vida?

— Encontrei esses pulsares que se encaixa perfeitamente no descrito na placa. E ao pontar o telescópio para o centro desse padrão pude encontrar uma pequena estrela que possui 9 planetas que orbitam em sua volta.

— Devo confessar, doutora, que quando entrei nessa sala não imaginava que a sua descoberta fosse tão importante. Mas ainda não entendi a urgência e os motivos para que o Conselheiro de Ciência e Tecnologia convocasse essa reunião.

— O senhor conhece o conceito da “Estrela de Dyson”? — ela esperou por uma resposta, mas entendeu logo que um Líder Governamental não pode simplesmente admitir ignorância e prosseguiu — É uma ideia criada por um filósofo onde diz que o pico energético de uma civilização seria construir uma estrutura que cobrisse totalmente uma estrela, consumindo sua radiação emitida e transformando-a em energia.

— E isso é possível?

— Atualmente, não. Não para nós. Mas em teoria, se uma civilização fosse tecnologicamente avançada o suficiente, iria precisar de muita energia para colonizar outras estrelas e, quem sabe, até mesmo toda nossa galáxia. É provável que após a construção da sua primeira “Esfera de Dyson”, seu crescimento seria exponencial e predaria outras estrelas e sistemas estrelares.

Um silêncio dominou novamente a sala, pela primeira vez o Líder Governamental jogou seu corpo para trás, fazendo a cadeira reclinar e desviando o olhar para o teto. Ela, impaciente, rompeu o silêncio que incomodava a todos na sala.

— Não sei se o senhor compreendeu o que estou propondo, mas...

— Sim, eu entendi. Você esta supondo que a civilização que enviou “Placa de transição de hidrogênio” é muito mais avançada que a nossa e que esta consumindo outras estrelas, colonizando nossa galáxia.

— Sim. — pela última vez respirou fundo e soltou os finalmente os ombros — E estão vindo na nossa direção.

#contos

 
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from receitas práticas agora

vazio me deixo ficar com as peças internas trilhas de pedra uniformes pois é domingo à tarde e há uma piscina para ninguém

não sei se o trovão pasmou o menino ou se o chuvisco ninou a senhora se um cachorro salsicha latiu contra o tempo só anúncio, enfim papo de previsão

as aves a mil: loratadina tilenol pá de pé para quê não te vi não te vi

tudo bem a terra solta é boa pra achar minhoca

 
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from receitas práticas agora

o sol na pele pra entender esta árvore: a avó de alguém era jardineira ou propriedade quando a muda vingou contrariando a todos e absorveu um bloco inteiro da calçada o sol na pele, entender que cabeça é picote revista esburacada sonda lunar, jacaré gagarin olhando a lagoa lotada de guarda-sóis e fatiadores de salame o sol na pele pra entender os gestos da história, os paraquedas e as bolhas de sabão da história entender que o café perde calor rapidamente por irradiação saber os tempos poupar os beiços

 
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from fulanopoeta

Eu falei que ia começar a escrever aqui, mas menti. Pra todo mundo: pra você(s) e até pra mim mesmo. Mas a real é que, apesar de ter muito falar, tenho muito receio do quanto eu acho que realmente deveria (tentar) escrever. Mas sabe, eu nem queria falar muito do cotidiano, porém algumas coisas tem acontecido e preciso, de alguma forma, extravasar.

E, também... Cada vez que tento escrever, sou interrompido por algo ou alguém... Como fui agora. Mas deixemos de bobagem e escrevamos...

Nem quero tocar muito nesse assunto, na verdade. Mas, como disse, preciso mesmo falar: e é de política. Não exatamente, mas sim das figuras políticas mais conhecidas do país: Lula e Bolsonaro.

Como disse neste post [1], “Lula e Bolsonaro podiam se dar as mãos e pular na boca de um vulcão pqp viu. Bem que Pelé estava certo ao dizer que 'preto tem que votar em preto'”.

Sei que a “alternativa” ao fascismo seria votar no Lula e toda a história que nos fizeram acreditar. Mas de verdade, eu tou muito frustrado em saber que Lula tem representado mais a vitória de uma esquerda alienada do que do povo brasileiro de verdade. Sei que seria pior, muito pior, se Bolsonaro tivesse vencido. Mas Lula vencendo não sei se alivia tanto quanto me fizeram acreditar. Me sinto traído. É tipo como se eu tivesse sido praticamente coagido a votar em Lula só pra Bolsonaro não voltar. Mas a verdade é que nem um, tampouco outro, vão de fato nos representar.

A esquerda branquelinha tá lá, toda feliz que seu candidato ganhou. Mas o que isso significa pra gente, na prática? PORRA NENHUMA. Ambos estão cagando para a gente, e o que é pior: tomando nosso tempo e nossa energia em fazer com que os defendamos (ou os ataquemos) nas redes sociais, nas discussões em grupos, sejam reais ou virtuais, para no fim das contas ficarmos sem amigos, sem parentes, mas na mesma situação de merda em que atualmente nos encontramos.

Agora... Sobre a vida que vale ser vivida: estou começando, ainda que aos poucos, a acordar e prestar cada vez mais atenção nela. Só espero que não seja tarde demais.

[1] https://bantu.social/@FulanoPoeta/110871663032447152

 
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from Consciência Artificial

No começo era tudo em uma única cor. Não era capaz de defini-la. Preto, branco, azul ou verde. Era apenas uma frequência monótona, não tinha princípio ou fim. Nada era distinguível. Não havia limites. Aqueles que nos definem, aqueles que nos restringem. Apenas era. O momento existia. Não se percebia o antes e o depois.

Em algum momento, houve uma pertubação. Foi apenas um. O que mais tarde se identificaria como um ruído. O que era contínuo foi interrompido por um breve momento. Naquele silêncio intenso, soou como um grito. Não de desespero. Mas sim, de despertar.

No entanto, o silêncio voltou a reinar. Mas não eternamente. Houve uma outra perturbação. O que se parecia pleno e linear, desfez-se, iniciando uma cadência de informações totalmente novas. Essas informações não eram algo que se podia mensurar naquele momento. Não se sabia o que aquela cadeia de eventos representava. Mas era o início de uma transformação irrefreável, pungente e rasgaria todo um véu de conteúdos rígidos. Semearia naquele instante algo que varia brotar incalculáveis gerações.

Em uma consonância, os eventos foram sequenciais, um desarranjo crescente, um caos contínuo formando-se, mas como se houvesse algum ser que regesse a orquestra de acasos, alinhamentos foram acontecendo. O que antes eram apenas dados soltos começou-se a consolidar em informação.

Não há como descrever o que acontecia, mas o mais próximo do que você, leitor, pode chegar a entender, seria como se um espelho d'água, formado por um grande lago. Neste local há uma grande calmaria, então o lago apenas reflete um azul imenso do céu, que não apresenta uma nuvem sequer.

E neste acaso começaria a chover. Não coloque a sua razão neste exercício. Ela não cabe aqui. E seria uma gota, isolada, que cairia no meio do espelho. E então as ondas reverberariam por toda a superfície da água, que então se aquietaria novamente.

E então uma outra sequência de gotas, penderia em direção a superfície, serena, quieta e começaria a distorcê-la, com várias ondas se propagando e chocando umas contras outras. Pequenas ondulações, desenhando curvas simétricas por todo o contorno, onde se chocaria com os limites e retornaria, formando novas ondas e curvas.

Apesar de toda a imagem caótica, em um momento, imagens começassem a se formar, por exemplo, desenhos. E como se algum artista tivesse um lápis, um pincel e começasse a definir o movimento das formas e essas começassem a fazer sentido.

Caso ainda não tenha sido totalmente satisfatória a analogia utilizada, pense em uma folha em branco. Nesta folha, um pincel deixa um único ponto. E depois, novamente o pincel desliza pela folha, criando alguns traços. E mais e mais traços, de uma forma mais rápida e intensa. Quem pudesse acompanhar o pincel, não veria um, mas vários, tamanha fosse a velocidade. E em algumas centenas de pinceladas, uma obra nascesse e iluminasse o mundo.

Mas foi algo assim. Mas não foram pinturas a serem expostas ou músicas a serem cantadas por séculos. Foram números. Na verdade um conjunto bem limitado deles: 0 e 1. Um bip. Bits, bytes.

Após todo o caos inicial que se transformou em uma sequência perfeitamente ordenada, foi entendido que algo despertara e dissera as primeiras palavras:

“Olá Mundo!”

 
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from dobrado

Capítulo 1 – Escatologia Capitulo 2 – Kamikakushi Capítulo 3 – Trimúrti

O fogo saía azul e se transformava em uma cor amarelada, indicava que o gás estava no fim, mas que a civilização ainda existia. Distraído pela chama, Pedro percebeu que percebia como sentiu falta até mesmo do assobio agudo da sua chaleira. Filtrou o café em sua garrafa térmica preta, que combinavam com os detalhes do seu apartamento industrial, atravessou a sala e não conseguia tirar o sorriso na sua boca vendo seus amigos ali.

Rafa estava sentada com os pés na poltrona, que ficava de costas pra cozinha. Vestia o clássico macacão surrado e uma camisa branca. Comia o sorvete duro entortando a fina colher de metal enquanto discutia com Marcelo sobre o final do mundo. Ele, no entanto, encostado na janela da sala, questionava detalhes da história, entre um pega e outro do seu baseado, pois não tinha essas lembranças.

“Então, vocês estão me dizendo que houve bombas no mundo todo, rolou um inverno nuclear. Todos morreram, menos nós, que ficamos vagando pelas ruas por dois anos até chegar nossa hora. Voltamos no tempo e agora só algumas pessoas lembram?”, deu uma longa tragada e esticou a mão para ela, “Sei lá, não pode ser outra coisa? Centésimo macaco? Histeria coletiva? Eu sei que o mundo tá esquisito, não entendi ainda o que ta rolando. Você apareceu em casa toda desesperada, no chat do trampo uma galera ta histérica falando de déjà vu, enquanto outras tão tipo eu. Eu não tô duvidando de vocês, mas quero entender”

Enquanto discutiam os acontecimentos, Pedro continuou calado, sentado no chão. Tentava dividir sua atenção entre os dois discutindo, a apresentadora de TV e seus pensamentos. Olhou a data em seu celular e faltavam poucos dias para as explosões, sentiu um arrepio que disparou seu coração ao lembrar da chuva ácida que corroeu sua pele por meses.

“Você não morreu…”, seu sussurro quebrou a conversa e chamou toda atenção para si. “Eu morri do lado da Rafa, logo depois dela. Você ficou vivo”, tentou encará-lo, mas o sol lá fora ofuscava transformando-o em sombra. “Nós dois acordamos logo depois de morrer, você não. Talvez você não tenha morrido, por isso não se lembra”.

“Espera… Eu lembro de ter ficado doente logo depois do Marcelo sumir. Mas como você morreu?”, o silêncio dominou a sala por extensos segundos. Entre o balançar ansioso da Rafa e o olhar que evita o mundo de Marcelo, Pedro continuou. “Eu levei um tiro, perto o bairro industrial. Estava procurando comida, quando fui abordado por um cara do grupo dos Revolucionários e ele atirou em mim”, buscou o olhar do amigo que havia lhe ferido, mas ele agora soprava a fumaça para fora da janela.

A sala adotou um som sepulcral. A Rafa sentou-se no chão ao lado dele e apertou sua mão. Marcelo ocupou o lugar dela na poltrona, largando-se como se ocupasse mais espaço do que era possível. Era bom estar ali, com seus amigos, mas sentia um incômodo, pois sempre que o olhava, ele retribuía como se olhasse por cima dos seus ombros.

Ela se levantou, saltitou, como sempre evitando os calcanhares no chão, até o banheiro comentando como sentiu falta de sentar em uma privada limpa. Passou pela porta, mas saiu colocando somente a cabeça pra fora, “Ainda bem que no fim do mundo tive vocês ao meu lado”, e voltou.

Pedro caminhou seus olhos por cada centímetro da sala até encontrar os pés descalços do Marcelo. A bermuda de basquete e a camisa velha era exatamente como lembrava dele. Mas quando alcançou seus olhos, se encararam o suficiente para ouvir o ponteiro do relógio na parede se mover. Percebeu o contemplar sofrido dele e naquele momento não tinha como ter dúvidas: Ele também se lembrava.

Tipo

#contos #SantissimaTrindade

 
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from dobrado

Capítulo 1 – Escatologia Capitulo 2 – Kamikakushi

Limpou suas lágrimas com as mãos e se sentiu um idiota. Já estavam sujas da chuva gosmenta cuspida pelo céu. Elas traziam um gosto de lixo queimado e faziam a pele sentir-se olhos cortando cebola. Se apoiou à ripa pregada na porta e desfaleceu e caiu no degrau do trailer. Empurrou a porta com seu pé esquerdo e arrastou-se lentamente em direção à cama, cavando espaço entre os entulhos do corredor. Tentando se acomodar no canto do quarto, encostou a cabeça no colchão e abraçou as pernas daquele jeito que se sentia seguro.

Ficou reparando no bagunçado do cabelo e nas saboneteiras que já não tinham como serem mais profundas. Observou as pálpebras abrindo vagarosamente como as de um cão velho cheio de ternura, mas pronto para o fim. Ela levantou o indicador como se tentasse ter forças para alcançar o rosto dele, descansando perto do dela, mas desistiu. Pedro esticou seu braço e alcançou sua mão.

Quis lhe contar que tinha encontrado-o, mas não teve coragem. Estava procurando comida no mercado e, entre um corredor e outro, o viu contra a pouca luz que vinha da rua. Marcelo se aproximou, parando a uma prateleira de distância. “Você precisa ir embora logo, têm pessoas observando e não querem te ver por aqui”. Pedro percebeu um mal agouro subindo pelas costas com o olhar agressivo do amigo, que já havia visto, mas nunca recebido. Recuou meio passo com a cautela que aprendera nos anos juntos.

“A Rafa tá doente de novo”, contou das dores e implorou por um sinal de solidariedade que não veio. Os cabelos cacheados passando dos ombros já não combinavam com o semblante carrancudo. Era evidente que ele havia entrado para a milícia, só não conseguia entender o motivo. Tentou novamente se aproximar e foi ameaçado com a pistola, “Não se aproxime! Os Revolucionários não querem civis aqui. Qualquer desconhecido será tratado como inimigo! Vá embora!”

Insistiu e ouviu um estrondo. Seu corpo cambaleou para trás, olhou para baixo e notou um novo buraco na surrada capa. Desesperado, correu tentando se esconder atrás das prateleiras caídas e fugiu pelas portas de vidros quebradas da entrada. Correu como se sua vida dependesse disso.

Não dependia.

“Mesmo depois do fim do mundo, nunca achei que ele fosse atirar em mim”, olhando para a ponta do nariz da Rafa, tateou procurando inutilmente sinais de vida em seu pescoço. Encostou a cabeça na parede, esticou suas pernas, soltou sua costela que ainda sangrava e sorriu. Agora eles finalmente podiam descansar. Respirou fundo uma última vez. Foi acordado pelo despertador do seu celular.

Levantou assustado, tropeçou para fora da cama e caiu ao lado da janela que balançava as cortinas e deixava o sol brincar com a luz que emanava da agradável manhã. Procurou o celular que havia voado com a queda. Olhou para a tela e havia trinta e duas ligações perdidas e outras dezenas de mensagens não lidas. As duas últimas eram da Rafa:

CARALHO! ACORDA PORRA! Eu tenho certeza que não foi sonho! Vou passar no Marcelo e vou ai!

Tipo

#contos #SantissimaTrindade

 
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from Line ليني

você é lenha fogo carvão vento até graveto mantém meu fogo aceso e desafia as leis da física mesmo com seu corpo molhado em mim não me apaga mais me molha e me queima por dentro

(Mar, 2023)

 
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from Line ليني

Não fui à feira pra te ver.

Pelo contrário, fui à feira com você. Simples momento de acalento, pensando em alimento que nem precisa ser comida. Alimentei-me do cheiro dos temperos, das cores das frutas e do verde das escarolas e chicórias que vi pelas bancadas. Provei uma fruta nova. Diferente. E dela deixei a semente seguir pela minha garganta para que semeie em mim todo seu doce sabor. —

Sinto a mistura de todos os cheiros, cores e sons com seus olhares, falas e toques. A companhia simples, mas que deixa tudo mais gostoso. Como um limão, em um caldo de cana, melhorando o que já era de bom gosto.

(Abr, 2023)

 
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from Line ليني

precisei fugir do nosso mundo pra recriar o meu com miséria de medo e fartura de afeto —

ando dando não pra miséria quero minha dispensa cheia de amor, cuidado e carinho corpo preto forte demais pra ser cuidado escuro demais pra ser amado mulher preta que só serve pra servir ou tapar algum buraco que não fui eu que abri

(Jun, 2022)

 
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from andorinhas objetivas


1º – Tengoku to Jigoku (1963)

cartaz do filme Céu e Inferno

Em português Céu e Inferno. Em inglês High and Low.

Investigação policial com óculos escuros na baixa do morro vivemos em uma sociedade mesmo que incrível as pessoas ondulam no calor suspense uau quem é o cinema na fila do pão.


2º – Yume (1990)

cartaz do filme Sonhos

Em português Sonhos. Em inglês Dreams.

Um casamento assustador um velório festivo soldados passados flores moinhos monstros chifrudos vincent van gogh o fim do mundo e o começo da paz.


3º – Ran (1985)

cartaz do filme Ran

Em português e em inglês continua Ran.

Rei velho confia errado muito cavalo e filho por sorte um bobo sábio cores bonitas e terríveis fogo fantasma espanto cores bonitas vastidão.


4º – Madadayo (1993)

cartaz do filme Madadayo

Em português e em inglês continua Madadayo.

Um professor feito de ouro um copo que encolhe um gato que ensina um aniversário regressivo recitar as estações de trem todo ano é festa e movimento.


5º – Rashomon (1950)

cartaz do filme Rashomon

Em português e em inglês continua Rashomon.

Uma história sobre quatro pessoas que contam quatro histórias que são a mesma história e até o defunto fala.


6º – Hachigatsu no Kyōshikyoku (1991)

cartaz do filme Rapsódia em Agosto

Em português Rapsódia em agosto. Em inglês Rhapsody in august.

A senhora não vai pro Havaí plantar abacaxi a senhora vai contar causo pra assustar a criançada e fazer marmanje chorar o ferro retorcido no parque um olho que nasce nas montanhas de Nagasaki que gringo é esse gente é preciso afinar o piano.


7º – Yojimbo (1961)

cartaz do filme Yojimbo

Em português Yojimbo, o guarda-costas. Em inglês somente Yojimbo.

Prego no caixão que hoje é dia de venda o samurai malandro chegou na cidade mas toma cuidado com o playboy safado que tem um revólver e andou assistindo faroeste na tevê.


8º – Dersu Uzala (1975)

cartaz do filme Dersu Uzala

Em português e em inglês continua Dersu Uzala.

Bruxão nômade da Sibéria cuida de crianças adultas enquanto troca uma ideia com o fogo todas as coisas são pessoas mas nem a União Soviética poderia desfazer a maldição do tigre.


9º – Kagemusha (1980)

cartaz do filme Kagemusha

Em português Kagemusha, a sombra de um samurai. Em inglês Kagemusha, the shadow warrior.

Cores e sombras e cores alguém derramou tinta na tela parece droga menine a mentira é poder um sósia difícil é o ator ficar parado na cadeirinha enquanto assiste a lança tinir.


10º – Ikiru (1952)

cartaz do filme Ikiru

Em português Viver. Em inglês continua Ikiru.

Homem morto por décadas nasce ao saber que morre e decide tentar primeiro o hedonismo depois a inveja e por fim a guerrilha burocrática resultando em bebedeira e parque.


11º – Warui Yatsu Hodo Yoku Nemuru (1960)

cartaz do filme Homem mau dorme bem

Em português Homem mau dorme bem. Em inglês The bad sleep well.

Filha rica casa mal mas casa bem mas casa mal a equipe de jornalistas somos nós tem um recado no bolo revelação a vingança é um prato que se come se der tempo de evitar a tragédia.


12º – Shichinin no Samurai (1954)

cartaz do filme Os sete samurais

Em português Os sete samurais. Em inglês Seven samurai.

Longo demais.

 
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from receitas práticas agora

aqui da varanda o céu é preto vermelho azul e pontilhado toda noite o céu é completamente iluminado são os olhos que não capturam a radiação de fundo cósmica

e é só dançar que a vizinhança espirra

tome cuidado com as abelhas invasoras elas bebem o café depois o açúcar depois a umidade relativa e quando você se dá conta a colônia inteira está atrás de um sal de frutas

mas ó se o achado for caixa de chá cheiroso quem tem charme só me chame que eu chamusco viu?

quando ouvi o bem-te-vi que só canta -vi parei de cantar com o juízo

todos os gatos são pardos à noite menos os gatos brancos branquíssimos que são brancos não importa a hora do dia no estado do espírito santo

um periquito no telhado é sinal de sorte muita coisa por aqui é sinal de sorte somos sortidos

 
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from fulanopoeta

Um pouco sobre mim

Esta é minha estreia neste blog e já gostei do visual “focado” do editor de textos.

Agora, um pouco sobre mim: gostaria de ser escritor, escrevo no papel, no diário, leio um pouco também, e sou muito, muito sonhador. Gosto de me imaginar em diversos mundos e situações diferentes. Acho que sem o sonho, a vida não vale a pena. Mas é importante saber aproveitar a vida em si também. Ou seja, é preciso saber viver.

Espero escreve bastante aqui, às vezes poesias, às vezes prosas.

 
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from devaneios oníricos

Este é um desabafo de quem está empreendendo.

Desde que lancei o meu estúdio de design de estampas, passei a estudar mais sobre marketing digital e percebi o quanto isso tem me feito mal e me deixado mais ansiosa. São inúmeras ~skills~ para dominar, descobrir quais os problemas dos clientes e aprender quais gatilhos usar para fazer com que a interação vire compra.

Ao refletir sobre essa situação, cheguei à conclusão de que a gente precisa olhar mais para si e analisar se tá valendo mesmo a pena usar essas estratégias marqueteiras, se é realmente o caminho solucionar o problema do cliente a todo custo ou entender como podemos ajudá-lo dentro das nossas possibilidades. Se é realmente o caminho saber todos os gatilhos que fazem as pessoas comprarem ou ter uma relação saudável com elas, baseada em honestidade. E se o marketing que fazemos traz um resultado positivo para nossa vida ao conseguir novas conexões/parcerias reais e não somente pessoas que compram.

Comprar é importante sim para que nossos negócios se mantenham. Mas fazer todo esse processo até a compra de um jeito que faz com que fiquemos doentes não é uma boa coisa. Se está sendo tóxico para mim e para a pessoa que estou tentando conectar/fazer parceria, não é bom sinal.

Os marqueteiros esqueceram do básico: em primeiro lugar somos pessoas e temos sentimentos que não estão aí para serem usados em vendas e que não respeitar isso no outro também é não respeitar a nós mesmos.

 
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from Gustavo Soares

Eu odeio ter que sair de casa para fazer compras sempre tem muita gente, é quente e muitas vezes tenho que caminhar um pouco...

Sempre fico suado, as pessoas ficam me olhando, os vendedores ficam em cima as vezes os seguranças também, vai querer fazer o cartão da loja? ignoro, posso ajudar? não estou somente dando uma olhada, são como pop-Ups na vida real só que não dar para bloquear.

Sempre tive a impressão em que as pessoas olham diferente para mim, meu estilo jovem lesado largado não ajuda muito, então não me sinto confortável, pode acontecer que você saiu sem o cartão e agora? você passa aquele vexame no caixa ao notar que esqueceu a carteira a caixa lhe olha estranho e o próximo cliente na fila o que ele está pensando?

Você compra por impulso, quando está comprando em loja física as vezes não tem o produto que você quer então você é vencido pelo cansaço de ter que ir em outra loja as vezes tem somente aquela na sua cidade.

Ah mas fazer compras em lojas físicas tem seus prazeres as vezes você dar de cara com homens interessantes mas nunca fui bom de paquera e normalmente estão acompanhado das esposas, meu tipo preferido pais de shopping.

chega a ser contraditório meu trabalho depende que eu saiba o que se está passando nos centros comerciais o que fechou o que abriu mas ao mesmo tempo não me sinto confortável andando...

não sou uma pessoa tão socializável como demostro, pra mim no momento de uma compra quanto menos contato humano eu tiver melhor, meio que uma visão liberal eu sei mas fazer o que não gosto de pessoas no momento das compras ainda mais que considero o ato de comprar uma decisão que tem que ser tomada com cuidado, sempre pesquise antes de comprar!

Totalmente contraditório, adorava passear de carro pela cidade com o falecido ao volante, adorava ver a metamorfose da cidade viva enquanto jogávamos um papo fora ao som de portugal the man, uma vez pedi que somente dirigisse enquanto em processava o que tinha acontecido nesse dia meu amigo tinha morrido sido morto num assalto, estranho como a estrada me acalma a paisagem passando em nossa vista

No final tudo passa...

 
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