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from dobrado

Recentemente sai pedindo dicas de câmeras para algumas pessoas por ai. Mas não eram quaisquer câmera. Elas precisavam ter um ar de “pseudo-cult-intelectual”, ou seja, Lomo. Meu maior problema com as Point n Shoot eram os atrasos para tirar as fotos devido ao auto-focus. Mas apelar pra uma Mirrorless ou uma DSLR era demais pra mim. Um celular bacana poderia ser a resposta pra isso, mas todos nós sabemos que até o App de câmera abrir e tirar a foto, pode ser alguns segundos pedidos, além de todas as distrações do smartphone. Ele é uma boa câmera, mas isso sempre vai ser secundário.

Foi com isso em mente que eu comecei a pesquisar câmeras e lembrei da minha antiga GF1 Micro 4/3, simples e barata, certo? Nem tanto. Uma Micro 4/3 nova estava custando em torno de 400 euros, muito pra quem só quer tirar umas fotos bobas. Buscando por alternativas encontrei o site KameraStore que vende câmeras usadas. Procurando por câmeras M4/3 achei várias na faixa dos 100 euros, mas sem as lentes. Mas isso foi resolvido com o Lomography Experimental Lens Kit custando apenas 12euros, na promoção. Esse kit é composto por três lentes: Standard, Wide angle e Fisheye. Com isso eu montei meu kit de Toy Camera por menos de 150euros.

As lentes Standard e Wide angle são as mais simples e nem parece de Câmeras de Brinquedo, a primeira vista. Mas olhando as fotos no computador você percebe que as lentes de plásticos da aquele charme nas cores e uma distorções legais nos cantos das fotos.

Fish eye Original

Standard Original Standard Original

wide Original wide Original wide Original wide Original

 
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from receitas práticas agora

ânimo e animal têm a mesma origem mas há animais imóveis (como as esponjas) e há também baleias que usam o verbo mover em sua conotação cetácea – conjuga-se arrastado e profundo

são bichos compostos: peixinhos comensais buracos nas barreiras de fitoplâncton crustáceos sedentários limpadores de carapaça de fato brotam das baleias esses fenômenos, como prédios ou como mato – à revelia

não havia animais na terra no tempo das derivas gramaticais quando a américa era ainda um trecho do mar total

mas as coisas mudaram muito e hoje baleias flutuam em plena seca, lentamente fugindo das cintas de asfalto o rabo solto nos pedágios, as cracas agarradas ao queixo enorme onde bate o vento morno do dia com seus insetos nutritivos e bem-te-vis em simbiose

 
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from dobrado

(ou “Sobre saber quem sou”)

Se pudesse parafrasear alguém, por que não o Febem? Longe de mim me comparar a ele, até porque longe de mim sou. Sempre estando cada vez mais distante de um começo, que nunca soube bem onde iniciou. Mas se for pelo título, foi pelo final.

Descobrir o que é ser, veio após eu decidir o que gostarai de ser. O albúm Sobrevivendo no Inferno, com quatro pretos no encarte. Me fez decidir sobre meu destino: Quero ser como eles.

E assim sendo, me fiz Racionais.

Engraçado. Naquela época eu mal sabia que já era como eles. Eu não fazia rap, não era famoso, não era de São Paulo, não vivia a violência, não era nascido na favela. E mesmo que anos depois, quando Mano Brown rimou “eu acho que todo preto como eu”, era de mim também, que ele falava. Demoraram duas dezenas de verões, para descobri que nada poderia me tornar menos preto do que eu era.

Viver aquela minoria no Japão era um misto de revolta, preconceito e exoticismo. Pois enquanto a cor e cabelo me dava entrada para as baladas, minha entrada nos recintos sempre despertavam olhares. Era um animal a ser observado no zoológico.

E todos os verões de aprendizado, serviram para mostrar que não era apenas cor. Era história também. Esta que nos foi roubadas. Fizeram de, nós deuses do Orum, apenas pessoas escravizadas. Ou pior: escravos. Resumidos a isso, nunca entendi a comemoração do Brasil 500 Anos, pois não era sobre meu povo que memoravam.

E assim sendo, me fiz preto.

Chegado o momento de voltar para a terra que diziam ser minha pátria, percebi que era somente o onde eu não precisava de permissão para existir. Era claro, ou talvez branco, o quanto eu não sou como eles. Minhas falas, pensamentos e trejeitos fizeram-me japonês.

Estranho, já que eles mesmos não me queriam lá. Estranho, já que meus avós não gostavam de japoneses. Estranho, já que antes eu era preto e agora eu sou... amarelo?

Ouvindo e aprendendo de novo sobre história, descobri que minha família nunca foi japonesa. Sempre foi Uchinanchu. Como povos nativos, foram colonizados e lutaram ao máximo. Mesmo sendo chamados de 負け組, meus avós nunca perderam. Os derrotados foram eles, que conservaram as ideias imperialistas e causou a diáspora dos meu antepassados.

Aprendi que Okinawa é terra protegida pelos Shisaa que já derrotaram dragões e maremotos. Faz partes das ilhas de Ryukyu, povo que mata um Tigre Asiático por dia. Pessoas que até hoje mantém seu idioma, mesmo tendo sido enviadas para vinte mil quilometros da sua terra.

E assim sendo, me fiz Índio.

Voltando ao começo, para chegar no final. Talvez no fundo, eu nunca tenha sido nada. Mas vou continuar sempre sendo.

 
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from gbrlpires

Aviso de Conteúdo: Morte, Luto, Covid-19 —

Eu não tenho uma boa relação com a morte. No geral, eu finjo que a morte de pessoas, principalmente as mais distantes, não me atingem. Mas não é bem assim. Não sei se estou no nível ainda de falar profundamente sobre isso, entender realmente de que maneira o luto se movimenta pelo meu corpo.

Uma coisa que tenho pensado mais, nos últimos dias, é em como lidar com o luto na atualidade das redes sociais.

Este ano perdi um colega da época da faculdade pela covid-19. Ela não era uma pessoa exatamente próxima mas era uma pessoa pela qual eu tinha muito carinho e admiração. Uma pessoa que eu ficava vendo e torcendo de longe, comemorando seu sucesso, sua visibilidade e a vida que parecia melhorar a cada dia. Um profissional e uma pessoa incrível.

Apareceu na tv a notícia de sua morte. Mas, quando soube pelo grupo de mensagem, chorei como antes nunca tinha chorado, nem mesmo por familiares. Sei lá. Por mais que saibamos que acontece, a morte de uma pessoa jovem é sempre um baque. Ainda mais um corpo jovem preto. Um corpo jovem LGBTQIA+. Choramos pela pessoa e um pouco por nós mesmos, talvez.

O foda é que por ter sido muito presente nas redes sociais, eu encontro fragmentos digitais do que foi a pessoa em vida. Uma playlist no Spotify, uma imagem de seu trabalho no Pinterest, um quadro na parede da casa de alguém com quem estou fazendo reunião. Esses dias, procurando uma foto antiga para publicar, encontrei um print de tela que tirei de uma postagem feita por ele. Era uma recomendação, não lembro exatamente do quê. Acho que uma música que eu queria ouvir mais tarde. Mas além da recomendação, uma foto também desta pessoa. Sorrindo, quase sempre como fazia.

Nestes quase cinco meses desde a sua morte foram poucos dias em que não pensei nele. Guardo algumas poucas lembranças. O compartilhar da preguiça por alguns dogmas da nossa profissão, da vida acadêmica meio torta como é. Lembrei que tenho guardado um desenho que ele me fez, num dia de aula chata. Não lembro exatamente o que ele fazia lá, já que éramos de turmas diferentes. Fiquei me sentindo incrível naquele dia, quase naquela sensação de fã que foi notado pelo artista preferido. Ele ainda não era famoso naquela época. Mas eu já o admirava. Colei o desenho dele na parede da kitnet que eu morava, feliz da vida.

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Sonhei com ele na noite de véspera da minha primeira dose da vacina. Fui me vacinar mas não consegui ficar feliz. “faltava tão pouco” era a frase que não saía da minha cabeça.

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“Não posso correr de mim mesmo Eu sei, nunca mais é tempo demais Baby, o tempo é rei”

—Black Alien

 
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from receitas práticas agora

engoliam os abacates e carregavam no trato digestivo as enormes sementes para depositá-las no campo mergulhadas em caca – os abacates, então, brotavam no tempo

pergunte a um abacatinho de mercado, desses selecionados olá, querido, saberia me dizer pra que serve o caroção e ouvirá do progresso, do mistério, do amor: nenhuma palavra sobre cocôs ancestrais

 
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from line ليني

B869.91

quero te alfabetizar no idioma que vivo pra você ler meu velho livro vindo de uma biblioteca passado por diversas mãos com anotações a lápis caneta ou marca texto neon

da lista de quem pegou menos da metade leu às referências ninguém chegou o título o tempo apagou

sou achada por código no prefácio mostro meu melhor lado finjo ser interessante e envolvente e te frustro no quinto capítulo

uso um vocabulário que não te ensinei você não é capaz de me traduzir não me rabisque mais

me feche e me devolva continuarei a esperar algum poliglota disposto a estudar toda minha estrutura gramatical

 
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from brenno

Tomei a vacina. A ansiedade era grande, tanto que acabei tomando um dia antes do calendário certo por um erro meu... era pra tomar no dia do meu aniversário. A junção desses dois fatos mexeu um pouco com meu tico e teco, e acho que vou escrever um pouco sobre isso (e muito mais) para me distrair um pouco dessa ansiedade.

Faz 490 dias desde que foi decretado o primeiro “lockdown” por aqui, e não foi fácil para a imensa maioria das pessoas... e ainda não é para muitas outras. Avalanches de notícias e informações assustaram muitos, e como sociedade não sabíamos bem como lidar. O mundo tentava entender o que estava começando e se voltando para quem pudesse responder: profissionais, especialistas e pesquisadores em saúde, biologia, medicina, e etc. O mundo se voltou para as pessoas que trabalham diretamente com ciência e ou que dela fazem uso em suas práticas diárias. Esforços enormes foram feitos por esses, que salvaram muitas vidas. Esforços que resultaram na vacina que está no meu braço e no de outros milhões aqui e no mundo, e que espero que esteja no braço de muitos mais logo em breve.

Mas todo esse esforço e conhecimento sobre o que deveríamos fazer não foi o suficiente para nós e parece que nunca será. “Poderíamos ter feito mais, poderíamos de feito melhor”, acredito que essa deva ser a máxima, fazer sempre o melhor e mais. Mas muitos de nossos governantes, políticos, empresários e pessoas influentes trabalharam para ir no caminho contrário de todo esforço e conhecimento realizado por profissionais e comunidades sérias. Mentiram, desinformaram e mataram muitos de nós... sem eles a tragédia já seria grande, mas eles fizeram questão de deixar ainda maior. Muitos dos que não perderam suas vidas perderam empregos e sustento, esses poderiam também ter sido menos prejudicados se não estivéssemos envoltos nessa espiral de contaminação gigante.

É difícil, eu perdi amigos muito queridos, amigos meus perderam amigos e parentes próximos... sinto dor e choro por saber que não poderei mais abraçá-los. Eles poderiam ter tomado a vacina antes, eles poderiam estar num país onde o governo não incentivasse o contágio da população, não desinformasse e usasse o ódio, o medo, o sentimento de muitos a favor deles e da contaminação. Eles poderiam estar com seus amigos e entes queridos hoje.

Viver momentos históricos não é fácil, muitas vezes nem é perceptível, e certamente esse é um desses momentos. No futuro nossos erros como sociedade ficarão mais claros, os responsáveis por tantas mortes ficarão nos registros e no imaginário de nossos descendentes. Só espero que possam aprender com nossa história, pois infelizmente parece que nós não aprendemos.

Sei que nossas vidas não são pautadas em todos os momentos pelo que é ciência, por um saber que nem sempre é fácil de explicar e que pode entrar em conflito com outros saberes, outros discursos, sentimentos e crenças. Convivi com pessoas dentro da área de educação que eram formadas em áreas da saúde e que por não saberem como funciona uma vacina discursavam que essas poderiam fazer mal, que era um excesso de remédio, que o “natural” é melhor. Um discurso que eu achava perigoso, potencialmente criminoso e que é base de discurso antivacina, anticientífico... e isso acaba valendo para muitas outras pessoas e para muitos outros assuntos, não só vacinas. Somos regidos por nossas vivências, nossas experiências próximas, nossas relações pessoais e profissionais, sentimentos que cultivam em e perto de nós, e se isso por vezes se choca com um saber novo, que questiona e/ou confronta o que acreditamos até então ser o certo, nós fechamos os olhos e muitas vezes agimos contra. É assim, e infelizmente continuará sendo assim... e é por isso que comunicação científica é difícil, e por muitas vezes não é valorizado.

Mas apesar de todos esses vieses que possuímos, o trabalho científico tá aí... salvando vidas e indo parar no braço de muitos. Espero que esse trabalho continue, pois com certeza ainda vamos precisar muito dele.

Cada parágrafo aqui daria para destrinchar em textos enormes sobre o que aprendi, senti e vivi nesses 490 dias..., mas não consigo mais. Só quero que todos tomemos vacina e que “tudo isso logo acabe”.

Tomando vacina Vacina tomada
 
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from receitas práticas agora

ó, bicho-boia guardião das águas poças que teu rabo balançante suavize as muriçocas até a inundação

ó, princeso das fronteiras que voa, nada e penteia à minha matéria choca peço-te que conceda grasnos de direção

dá-me patas nadadeiras dá-me óleo besuntante para os dias de peleja para as quedas de elefante

trago-te ofertas: pão serenado pela lua quirela de boa tritura que dura, em tua moela o tempo da migração

mas se o ninho te conjura perdoa meu zum de abelha e que o vento em tuas penas proteja meu par de orelhas até a inundação

 
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from receitas práticas agora

do que é feito um urubu? um lago de água doce empoçada pelos anos: o tempo que leva o tombo do boi

do que é feito um urubu? vento pena ritmo flutuação o vulto dos vivos no rabo do olho e todas as delícias da terra

do que é feito um urubu? e se eu trocasse as suas penas uma a uma ao longo de doze luas seria outro urubu no retorno do sol? e se eu trocasse as suas rotas as suas dívidas e rearranjasse as angústias onde você passaria suas férias de verão?

do que é feito um urubu? come paca, não vira paca come peba, não vira peba come pomba, ah não, urubu! não coma pomba não

um urubu não é feito é música castelo de areia distância de hamming charada e o chute perfeito mas onde, por que, de que jeito do que é feito um urubu?

 
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from Notas de Aula

Anotações:

Leitura

O texto de Gadamer é crítico ao projeto iluminista, mas é uma crítica em certa medida conservadora e tradicionalista. Me incomodou a referência a Heidegger (nazista de merda). Apesar disso, não é um texto estúpido e tem sacadas interessantes. Trata da interpretação como processo dinâmico: iniciamos a leitura de um texto com várias preconcepções, que nos fazem projetar significados desde o começo. Essa projeção entra em conflito com o texto em si durante a leitura – se nossas preconcepções divergem do texto, ele começará a não fazer sentido. Para restituir o sentido ao texto, devemos reavaliar nossas preconcepções. Esse movimento circular se repete, e sabemos que estamos na direção certa quando temos poder preditivo, que pode ser confirmado com o texto. Esse processo me lembra a ideia de acomodação de Piaget e parece uma espécie de dialética.

Nesse momento Gadamer faz um passeio por lugares horríveis defendendo uma ideia específica de preconceito útil. Pois é. Passando vivo por esse trecho, vem algo mais relevante: ele critica o que chama de historicismo, que seria a tentativa de estudar a história objetivamente, se desvinculando da substância do que o passado tem a dizer. Uma análise historicista tende a nos separar do passado, como se não houvesse nada a aprender com suas obras, como se não falassem conosco. O texto entra então na defesa de uma ideia de clássico: clássicos seriam aqueles artefatos que estão acima do momento histórico e representam algo mais geral, ao qual pessoas de vários períodos históricos podem se conectar.

Tratando novamente da hermenêutica, Gadamer adota a regra segundo a qual devemos “entender o todo em termos do detalhe e o detalhe em termos do todo”. Quase dá pra ouvir Hermes Trismegisto cantarolando com Jorge Ben “o que está no altoooo é como o que está embaaaaixo”. Defende que o critério que define se entendemos algo ou não é justamente a harmonia dos detalhes com o todo. Mas ele não baseia essa regra em nada muito sólido, cita que é algo conhecido da retórica antiga e tenta mostrar que é auto-evidente. Eu não me convenci muito bem. E se a obra for heterogênea, sem unidade? Não é possível manter conflitos entre partes e todo sem prejudicar o entendimento?

O texto então critica a ideia de que a tarefa da hermenêutica seria colocar-se completamente na mente do autor para solucionar tudo que é estranho no texto. Não que ele considere errada a busca por harmonia, mas sim o foco no autor. Defende que a hermenêutica é na verdade um jogo entre o interpretador (com suas preconcepções derivadas de seu tempo e tradições) e a tradição em que o texto em si se insere. A tradição ultrapassa o sujeito (por isso não basta “entrar na mente do autor”), mas não se livra completamente dele, é uma relação de participação. Não só o autor participa de uma tradição, mas o leitor também. Nesse sentido, a interpretação é sempre produtiva: o significado interpretado sempre ultrapassa o intencionado pelo autor, inclusive porque depende também da nossa participação, condicionada a nossas tradições e a nosso tempo histórico.

Gadamer vê a distância histórica como algo positivo, é como se a obra de arte fosse fermentada pelo tempo e curtida das impurezas que encobririam completamente o sabor de sua importância permanente. Basicamente, a distância histórica valoriza o que é atemporal na arte. Nesse ponto eu me perguntava se não seria interessante aplicar essa ideia à arte de outras culturas em nosso próprio tempo histórico: a distância cultural valoriza aquilo que é universal ou ao menos comum. Achei a ideia interessante, mas não deveria parar aí: ser tocado apenas pelo que se tem em comum é fácil, mas muitas vezes é melhor ser chacoalhado pelo que é diferente. Claro que Gadamer não vai defender isso de jeito algum. Ele se esforça para dar mais valor àquilo que, além de antigo, pertence à mesma tradição do interpretador.

O texto então introduz o conceito de história-efetiva: a soma do objeto histórico em estudo com o ponto de vista histórico em que o investigador está imerso. A história-efetiva determina tanto o que nos parece válido investigar quanto o que se mostra como objeto de investigação. Esse é um conceito bem interessante, que acho que Gadamer não leva às últimas consequências no texto. Em uma associação meio desbaratinada, me lembra a ontologia que na física se chama de superdeterminismo: investigação e fenômeno estão conectados por um fio de causalidade inquebrável.

Depois de montar a ideia da história-efetiva, Gadamer dá uma punhalada final no objetivismo histórico, ou historicismo:

“Historical objectivism resembles statistics, which are such an excellent means of propaganda because they let facts speak and hence simulate an objectivity that in reality depends on the legitimacy of the questions asked.”

Por fim, o texto diz que é possível usar a história-efetiva em benefício da hermenêutica por meio da expansão do nosso próprio horizonte de compreensão. Não se trata de colocar-se no lugar do outro, o que seria útil apenas para objetificar o horizonte histórico do outro, mas sim de colocar-se em relação ao outro, compreender sua mensagem a partir de sua posição histórico-efetiva em relação a nós. Busca-se, assim, concordância, terreno comum. A expansão do horizonte interpretativo, portanto, só seria possível tornando-o mais universal, abstraindo a nossa particularidade e a particularidade do outro.

Aula

Na aula, o professor faz uma rápida passagem pela história da hermenêutica. A hermenêutica, na forma moderna, teve origem com a reforma protestante. No início se restringia à interpretação da bíblia. Conforme a burguesia começou a instaurar formas de governo constitucionais, a hermenêutica se expandiu para incluir a interpretação da lei. Apenas ao final do séc. XVIII a hermenêutica começou a ser aplicada à literatura, em paralelo ao surgimento do romantismo. Até então o ideal da literatura era a transparência, o que significa que qualquer dificuldade de interpretação era indicativa de literatura ruim. A ênfase na “genialidade” do autor, marca do romantismo, tornou os textos literários seculares mais parecidos com os textos bíblicos: importantes e difíceis de entender. A hermenêutica, portanto, habitou uma a uma as clareiras abertas pela secularização burguesa pós-iluminista até chegar à literatura.

Professor ressalta que o círculo hermenêutico é, para Gadamer, uma relação entre o leitor e o texto, mas outres autores usam a ideia de círculo hermenêutico como uma relação entre o leitor e o autor, tendo o texto como meio. Ressalta o padrão dinâmico do círculo hermenêutico: alternância entre compreensão da parte e do todo, ou do presente e do passado (como argumentado por Gadamer ao falar de tradições e horizontes de compreensão). Afirma que Gadamer limitou o círculo hermenêutico a uma relação entre períodos históricos em seu texto, mas que deveria se aplicar a relações entre culturas distintas mesmo que ambas atuais.

Explica a crítica de Gadamer ao objetivismo histórico e diz que é importante que essa crítica busca encontrar maneiras de aprender com o passado, é um reconhecimento de que o passado tem algo a nos dizer e não é apenas um objeto distante. Reforça que é impossível olhar qualquer coisa sem preconcepções. Critica o ponto de vista de Gadamer sobre preconceitos úteis e sobre a busca de terreno comum: é um projeto conservador que pode ser perigoso – é possível encontrar ressonância em ideias horríveis do passado, não apenas em ideias edificantes.

Por fim, cita uma crítica à posição de Gadamer, vinda de Hirsch. Em resumo, há dois pólos opostos que se chocam, o de Gadamer-Heidegger (tradição, interpretação subjetiva, verdade comum), e o de Hirsch-Kant (intenção, interpretação objetiva, imperativo categórico):

  • Gadamer: implícito no historicismo está o abandono do que o objeto analisado tem a nos ensinar – deixamos de ouvi-lo.

  • Hirsch: implícito no círculo hermenêutico está a instrumentalização do outro, o apagamento do autor em prol de nossos próprios fins.

Sinceramente, não me atrai muito essa briga. Entre Heidegger e Kant prefiro tirar um cochilo.

 
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from line ليني

amanheceu

A cidade se deita e estou acordada. Ela dorme, e continuo acordada. Ela ronca. E eu ainda acordada. Oito horas de sono, pra mim, é luxo. E nessas noites não-dormidas, comecei a me encontrar no mundo. A solidão durante a madrugada é grande e por isso dei início a um processo de autoconhecimento. Busco algo para fazer, muitas vezes opto por algo que acho chato na tentativa do sono aparecer. Mas na maioria do tempo, aproveito meu pique pra crescer o quanto posso: artistando, lendo, estudando e escrevendo. Vem também o cansaço antecipado, diante dos pensamentos sobre o dia que virá logo a seguir e não estarei com meu cérebro descansado. E depois de algumas horas, a cidade se levanta e vejo o mundo com sua vida acontecendo. Suas energias parecem estar recarregadas, enquanto me sinto um celular sem bateria. Cresço comigo, mas a cada momento que olho o relógio torço pelo meu primeiro bocejo. Ele normalmente vem quando os pássaros já estão cantando e o dia clareando. Aprendi, na marra, que a insônia não pode ser totalmente ruim. Tem dias que tenho vontade de acordar as pessoas que gosto para que elas possam admirar comigo a beleza do amanhecer. Tem dias que ouço gemidos. Tem dias que esses gemidos veem de mim e eu fico feliz por lembrar que o orgasmo é um dos melhores remédios para me fazer dormir.

 
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from line ليني

escrever é uma vávula de escape ou tentativa às vezes os pensamentos nos prendem a ponto de não sair uma palavra colocar versos em papéis, telas mentes e corações escrever com raiva, ódio ou amor sobre você, sobre mim ou sobre ninguém a liberdade da escrita é algo que se sente é a tentativa de demonstrar sentimento de decodificar meu pensamento que normalmente nem eu entendo

 
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from line ليني

Primeiro encontro

Quando pensamos em sexo, a grande maioria das pessoas já visualizam mentalmente o sexo hétero. Como lésbica, penso, instantaneamente, em um sexo com mulheres. É engraçado como isso faz com que várias situações que seriam constrangedoras, caso acontecessem entre homem e mulher, não sejam. Essa semana aconteceu algo engraçado que me deixou reflexiva sobre essa liberdade e intimidade que só existe entre as mulheres – conversamos umas com as outras nas filas dos banheiros sobre sentimentos como se fossemos amigas de longa data. Geração do Tinder, né, vamos lá. Terminei meu relacionamento há alguns meses. 9 meses de namoro, terminamos porque ela precisou ir embora para outro estado. Enfim, fiquei naquelas. Segui tentando lembrar como é todo esse jogo de flertar e desenrolar. Instalei o Tinder mais uma vez. Mudei a foto, renovei a minibiografia e finalmente estava pronta para atacar. Match! Ela estuda psicologia aqui na UFRJ , é vegetariana e me encantou quando começou a falar aleatoriedades. Tivemos horas de assuntos nada entediantes e isso é um ótimo começo para uma interação a partir de um aplicativo. Curtíamos as mesmas músicas, ela adorava cerveja e fumava maconha. Marcamos de ir ao CCBB e depois tomamos uma cerveja na Ouvidor, uma rua famosa por sua boemia em meio ao caos do centro do Rio de Janeiro, e ali no bar bebemos alguns litros de cerveja. Gostaria de fazer um adendo irrelevante: o litrão de Brahma custava R$16. Depois que algumas cervejas foram tomadas, o álcool começou a fazer efeito e as duas deixaram a vergonha de lado para que o beijo saísse. Desenrolamos. Fomos para a casa dela. Beijos pra lá e pra cá. Amassos pra lá e pra cá. Eis que lembro de uma sequela sapatão: não cortei minhas unhas. Diversas cenas de vaginas arranhadas por unhas grandes me vêm à mente. Argh, sinto nervoso só de pensar. Será que a insegurança que senti ali é semelhante a de um homem que está sem camisinha na carteira?! Acho que não, porque eles nem parecem se preocupar tanto quanto as mulheres. Tentei não pensar na minha unha, mas isso me vinha à mente o tempo inteiro. Pensei em roer, mas sem uma lixa a situação não ficaria muito boa também. Pensei em pedir um cortador de unha pra ela, na cara dura; mas não tive coragem por ainda ser o primeiro encontro. Ainda tinha a incerteza se iríamos transar ou não. Até que em um momento, percebi que já estávamos tirando nossas roupas. Ia rolar. Quando fui pensar novamente sobre o tamanho de minhas unhas, o pensamento foi cortado pelo desejo e me vi sentindo seus pelos e seus gostos na minha boca. Esqueci da unha, meus dedos já estavam dentro dela e então eu percebi que minhas unhas talvez nem estivessem tão grandes quanto imaginei. Aprendi a lição e atualmente, tenho um cortador de unha em meu molho de chaves. O vai e vem, os corpos suados se encostando... mas sinto algo estranho no meio da transa. As minhas coxas estavam mais molhadas do que deveriam… porque minha menstruação decidiu descer naquele exato momento. No mesmo momento entendi o estresse e a carência que senti durante aquela aquela semana. E agora?! Aviso pra ela?! Ela nem percebeu ainda!! São muitos pensamentos!! Ai meu deus!!! Comecei a ficar desesperada e logo ela percebeu que minha feição estava estranha. Parei, olhei pra ela e falei “Cara, acho que minha menstruação desceu”. Eu não achava, já tinha certeza, mas não sabia como falar. Ela olhou as próprias mãos cheias de sangue. Fiquei esperando uma reação e aqueles segundos demoraram a eternidade. Ela fez uma cara normal. Me deu um beijo, foi ao banheiro para lavar as mãos e terminamos no chuveiro o que já tinha começado. Depois de muita risada, ainda colocamos o lençol de molho no sabão. A liberdade no sexo lésbico me encanta, me fascina. Transar com pessoas do mesmo sexo que você te obriga a reinventar o ato, e aprender a transar diferente, porque só nos ensinam sobre o sexo hétero baseado na penetração. Episódios como esse acontecem e eles vêm para nos dar mais experiência. Sexo é muito mais do que mostram que é. Não é limitado nem previsível, tem situações constrangedoras e engraçadas. Essa não foi a primeira vez que me senti constrangida na transa e, com certeza, não será a última. Às vezes, essas situações podem render até um texto para entreter quem sabe que isso acontece.

 
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from line ليني

Sem sexo, com drogas e sem rock'n’roll

Nunca gostei de escrever crônicas, mas senti que esse dia merece ser eternizado em algum lugar. Talvez tenha sido o dia mais louco da minha vida, na verdade. E tudo começou na UFRJ. Era 2016. Eu era aluna da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a famosa UERJ. Em um dia qualquer, meu amigo Eli, aluno de Biblioteconomia da UFRJ, me convidou para ir a uma festa na Reitoria. Nunca tinha ido e não sabia como chegar, então fui para sua casa e partimos juntos para o campus Fundão. Andamos uns 20 minutos até o ponto de ônibus, e eu nem pensei na ideia de gravar o caminho. Mesmo se tentasse, viramos em tantas ruas que não sei se conseguiria me lembrar. Chegamos na festa, muitas pessoas do nosso grupo estavam desanimadas e por isso fui dar umas voltas pra ver se encontrava alguns amigos que estudavam por lá. Achei meu amigo Eduardo. Nos conhecemos desde que tínhamos 12 anos e resolvemos aproveitar a festa juntos por um tempo. Procurei Eli e marcamos um horário para nos encontrarmos: às 21h, embaixo de uma árvore específica. Encontrei outro amigo, Thalles, e ficamos juntos até umas 20h40. Fui pra debaixo da árvore e esperei. Esperei até 21h. Não tinha ninguém que eu conhecia. Tentei ligar pro Eli, mas meu celular descarregou. Minhas coisas não estavam lá. E comigo só tinha um celular descarregado, R$20, nenhum documento e eu não fazia ideia de como sair daquela ilha. É aí que a noite mais louca da minha vida começa. Comecei a caminhar pelo Fundão com Thalles pensando sobre qual seria a solução para minha vida. Thalles morava em uma república na Ilha do Governador, mas não podia receber visitas, ou seja, eu não poderia dormir por lá. Caminhando, caminhando… parei no ponto de ônibus. E encontrei a Jes, uma mina de Nova Iguaçu também, que eu nunca tinha falado diretamente, mas sempre estávamos nos mesmos eventos e tínhamos muitos amigos em comum. Ela estava acompanhada de Rebeca, pois as duas passaram aquele dia rimando e declamando poesia no BRT tentando tirar uma grana. Contei pra Jes a minha situação desesperadora e ela me deu uma solução: ir para uma festa com ela em Botafogo. Seria em uma casa, eu poderia recarregar a bateria do meu celular e me comunicar com o mundo, então fui. Enquanto esperávamos o ônibus, Jes e Rebeca droparam um nbome. O 485 [Fundão x General Osório] veio e Jes conseguiu desenrolar com o motorista para entrarmos pela porta de trás – só eu estava sem nada, mas no fim ele liberou para as três – e assim que entramos no ônibus um menino branco falou “Agora virou bagunça isso aqui?!”, deixando a Rebeca mais exaltada do que ela estava. A primeira saga do ônibus: Rebeca estava puta. O menino foi desrespeitoso e ela começou a discutir com ele. Ele gritava que ela era favelada e mandava que ela calasse a boca. Eu nem queria demonstrar que estava junto. Eu só queria chegar na tal festa. Quando olhei, assisti Rebeca dando um chute na nuca do menino, que já estava sentado nas escadas da porta de saída do ônibus. Ele levantou com o objetivo de bater nela, mas os amigos dele e muitas pessoas do ônibus disseram que ele estaria errado de encostar a mão em uma mulher. Ela retirou uma agulha de crochê da bolsa e começou a ameaçá-lo. Jes conseguiu convencê-la a não fazer besteira. Ele só não bateu nela porque as pessoas realmente o impediram. O ônibus parou quando passou por uma viatura policial e revistaram apenas Rebeca – uma menina preta vinda do Capão. Rebeca, na defensiva, disse que o menino vendia drogas ecstasy e LSD pelo campus – ela nunca tinha visto o menino na vida – e que não o revistaram porque ele tinha cara de playboy. Os policiais retiraram o menino do ônibus para uma revista mais específica. Houve paz por alguns minutos, até que três meninos brancos, sem camisa, entraram e um deles começou a ser cordial com Rebeca, dizendo que era nascido e criado na Penha, um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, e ela começou a ser agressiva com ele nas palavras. O mais engraçado é que enquanto ela discutia com eles, ela rimava as ofensas. O menino ficou irritado, mas um dos amigos comprou a briga e foi discutir com Rebeca. Na verdade, depois de duas frases ele queria bater nela e, novamente, pessoas ao redor tiveram que dizer que ele não deveria bater em mulher. Enquanto tudo isso acontecia, Jes estava quieta. Mas esse último menino deixou Jes irritada, e no fim até ela entrou na discussão. Ela estava fumando um cigarro na janela do ônibus, apagou e foi até o menino. No ouvido dele falou baixinho “Tu baixa tua bola, porque você não é o rei aqui”. E o menino ficou quieto. Graças a Deus o ônibus chegou na Álvaro Ramos, nosso ponto em Botafogo. Ao descermos do ônibus, Rebeca já estava desestabilizada. Elas se conheceram naquele dia e Jes não sabia nada sobre ela. Contou pra gente que perdeu uma filha e que estava com câncer de mama. Chateada com as situações que aconteceram, queria devolver as moedas que arrecadou com Jes durante todo o dia nos ônibus e jogou todas no chão. Disse que não ia nos acompanhar até a “Open House”. Jes conseguiu convencê-la. Iríamos para a casa e ateliê do Vinus. Eu não conhecia ninguém, só queria um lugar para dormir e recarregar meu celular. E aí começa a terceira parte da noite… Chegamos lá, era perto da Álvaro Ramos, uma rua conhecida pelo bairro Botafogo. Assim que entrei na casa, me deparei com três pessoas: Vinus, Glória e Lili. Uma delas estava pelada e essa mulher se apresentou como Glória, nome de uma personagem de Clarice Lispector. Ela dizia que era famosa, e que era só jogar o nome dela no Xvídeos. Quando me viu suando devido à leve subida para chegar, Glória disse que eu também poderia tirar minhas roupas, já que estava calor. Estava no meio de pessoas do cenário pós-pornô e, nudista como sou, tirei minha roupa rapidamente. Depois de alguns minutos, senti que estava sendo observada com olhares diferentes. Não eram olhares de julgamento, mas eram olhares diferenciados para minha forma de agir na primeira visita à casa de uma pessoa que eu nem conhecia. Nesse momento, comecei a prestar mais atenção em detalhes. Glória estava bêbada. As outras duas pessoas que estavam na casa comentaram que tinham acabado de dar um banho nela. E tudo fez sentido: Glória só estava pelada porque estava bêbada, prestes a dar perda total. Vesti minha roupa lentamente, tentando fingir que nada tinha acontecido. E assim fui recepcionada naquele espaço. No meio desse constrangimento, consegui colocar meu celular para recarregar. Finalmente! E mandei mensagem para Eli. Ele disse ter levado minhas coisas embora porque achou que eu voltaria pra casa dele sozinha. Fiquei extremamente chateada porque tínhamos um combinado. Avisei onde estava, que estava segura e iria passar a noite ali em Botafogo. A partir daí, só me dispus a aproveitar porque já era tarde demais pra transitar pelo Rio de Janeiro sozinha, principalmente sentido Zona Norte, sendo preta e sem documentos. Todos pareciam muito legais. E chegou uma atriz pornô famosa no Brasil. A chamaremos de Gabriela Chocolate. Quando ela chegou e se apresentou, as pessoas realmente queriam ver seus vídeos. Colocaram um em que ela fazia anal e todo mundo começou a assistir junto. Chocolate já conhecia Rebeca de outro lugar. Não sei qual e, depois de tanta confusão, eu gostaria mesmo de não saber. Rebeca, como desde o início da noite, parecia estar decidida a desencadear alguma discussão ou briga. O dono da casa, Vinus, ficou extremamente irritado com as provocações que estavam acontecendo entre Chocolate e Rebeca e logo pôs um fim em toda discussão, pedindo, aos berros, para que Rebeca sossegasse e desse descanso para Chocolate. A casa não era grande. E todos estavam fugindo de Rebeca. Sua energia pesada pairava em cada cômodo que parava. As pessoas estavam na sala, ela chegava; as pessoas iam para a varanda, ela tentava novamente se reaproximar, e as pessoas iam para a sala. Eu era uma dessas pessoas. Estava realmente fugindo daquela mulher depois de uma viagem um pouco assustadora dentro do 485. Lili, uma mulher com falas tão sensatas sobre qualquer assunto falado naquela noite, percebeu que o clima não estava agradável e muito menos positivo. Foi quando ela viu a necessidade de uma intervenção espiritual naquele lugar. Lili chamou todos para a sala. Pediu que fizéssemos uma roda e colocou alguns pontos de Orixás pra tocar. Eu nunca tinha sequer ouvido pontos, mas estava lá rodando como se aquilo fizesse parte da minha rotina. Aos poucos, as músicas foram se intensificando, e Rebeca se deitou no sofá que ficava em um canto da sala. E conforme as pessoas iam entrando no clima, talvez espiritual, a menina irritada ia adormecendo. Até que dormiu de vez e Lili agradeceu. Disse que ela estava “pesando o rolê”. Chegaram Renan e Brenno. Eles tinham se conhecido no Tinder e aquele era o primeiro encontro. Renan não gostou muito de Brenno, que ficava forçando uma conversa desesperadamente. Em um determinado momento da noite, Renan começou a ignorá-lo. Sabendo que Renan gostava de drogas, Brenno se ofereceu para comprar cocaína. Os cheiradores de plantão, seis pessoas de nove – se Rebeca estivesse acordada, estaria cheirando também –, aceitaram sem hesitar e Brenno liberou o primeiro galo para o pó. Selecionaram duas pessoas, não lembro quais, para fazerem a “missão” com aqueles R$50. Brenno não usava drogas, dizia nem ter vontade e apenas queria ver o pessoal se divertindo. A bebida alcoólica era caipirinha porque cachaça custa menos que cerveja. E limão também. Todos queriam fumar um baseado, mas só tinha um pedaço que daria para bolar apenas um e, como bons maconheiros, entramos no consenso que seria utilizado em um momento muito propício: quando todos concordassem. A noite foi passando, as pessoas falavam muito com suas mentes aceleradas pela droga que corria no sangue. E como a cocaína é uma droga que acaba rápido, fizeram a missão de comprar pó durante 4 vezes naquela noite. No total Brenno gastou R$200 em uma substância que ele nem usava. Ele falava mais do que as pessoas drogadas. Ele não parava de falar sobre coisas extremamente aleatórias e Renan ficava irritado por ter levado aquele menino para um rolé com os amigos. A noite foi passando… as pessoas foram se cansando… e a bebida acabou. A larica chegou, e rolou uns sanduíches. Já estava frio do lado de fora. Fomos entrando pra sala e nos acomodando. Chocolate, Brenno e Renan foram embora. Restou Glória, Jes, Rebeca – que ainda dormia –, Vinus, Lili e eu. E mesmo com todo o barulho, Rebeca não acordava por nada. Todo mundo que olhava pra ela dizia que a macumba da Lili estava forte. As conversas aconteciam de forma aleatória e mesmo sem conhecer aquelas pessoas até algumas horas atrás, eu conseguia me inteirar dos assuntos. Um ambiente de esquerda com artistas e acadêmicos de humanidades que estavam dispostos a discutir sobre os temas mais inusitados. E por volta das cinco horas da manhã surgiu o consenso de fumarmos aquele baseado. As conversas se estenderam por um tempo entre 40 e 60 minutos. E aos poucos todos foram sentindo sono, à medida que o dia ia amanhecendo. Decidi dormir, naquela sala cheia de pessoas desconhecidas, para logo ir para casa. Todos dormiram. Rebeca acordou desesperada e disse que iria embora. Em menos de 5 minutos desapareceu como se nunca tivesse pisado ali. Até que alguém bateu à porta. Todo mundo acordou assustado. E o dono da casa foi ver: era Brenno, aos prantos. Quando entrou, todos ainda estavam espantados e atentos para ouvir o relato de Brenno sobre o que tinha acontecido. Ele começou a contar que Renan não estava satisfeito com os comportamentos dele e por isso passou a noite inteira ignorando-o. Quando foram embora para a casa de Renan, Brenno ainda tinha a expectativa que algo sexual fosse acontecer. E se frustrou porque Renan não dirigiu sequer uma palavra a ele. E foi se deitar. Brenno contava isso sentado no chão enquanto chorava. Todos estavam depositando extrema atenção nas palavras que saíam da boca daquele menino. E ele contou que se desculpou por não ter sido uma pessoa agradável, mas fez isso de uma forma um pouco diferente. Ele pediu desculpas de acordo com a cultura japonesa, pois era a cultura que mais admirava. Disse ter se sentado no chão e se curvado para Renan. Ele demonstrou como fez e disse algumas frases em japonês. Nesse momento as pessoas da sala se entreolharam enquanto seguravam o riso. Confesso que falhei e umas risadas escapuliram. Lili disse que Brenno não se ajudou quando se curvou para Renan, que “a vida não é um anime”. O menino ainda chorava. E depois de um café, se acalmou e decidiu ir pra casa. Ele também pegaria o metrô e decidi aproveitar essa carona para encontrar Eli e pegar minha bolsa de volta. Combinei o horário certo, avisei às pessoas que iria partir. Jés se certificou algumas vezes que estava tudo sob controle para que eu pudesse ir embora em segurança. Eu pedia desculpas por ter invadido um rolé para em que não fui chamada, mas Vinus chegou até a agradecer minha presença. Não sei até que ponto aquilo foi sinceridade ou pura cordialidade. Desci aquela rua com Brenno, aguardamos o metrô juntos, enquanto ele tentava puxar assunto e eu não estava muito disposta. Consegui chegar na estação São Cristóvão e de lá peguei um trem, sentido Japeri. Parei na estação Méier para pegar minha mochilinha. Eli estava lá me esperando. Não tive nem coragem de trocar palavras com ele porque eu ainda estava com raiva, pois pelo vacilo dele muitas coisas poderiam ter acontecido. Muitas coisas ruins. Mas eu estava bem agora. Estava com minhas coisas, meu dinheiro, documentos e o melhor de tudo: a caminho de casa. E cheguei bem, sem que meus pais desconfiassem de qualquer coisa que passei naquela noite extraordinária. Toda vez que tento contar essa longa história da minha vida, parece mentira. Às vezes, nem eu acredito, mas lembro que tenho Vinus, Lili e Jés no Facebook e que eles não apareceram lá por acaso. E certamente, o maior ensinamento que levarei sobre essa noite é que, não importa o erro que eu cometer, o importante é não pedir desculpas em japonês.

 
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from Notas de Aula

  • Prof.: Paul H. Fry (Universidade de Yale)

  • Vídeos: 1 – Introdução 2 – Introdução (cont.)

  • Leituras:

    • Foucault: “O que é um autor?”
    • Barthes: “The Death of the Author”

Anotações:

Interessantes os textos. Foucault fala de “fundadores de modos de discurso” como Marx e Freud, que seriam sempre revisitados e reinterpretados pelos marxistas e psicanalistas e que representam um tipo de discursividade, em contraste com cientistas como galileu e newton, que são superados e englobados pela discursividade “impessoal” do método científico. A descoberta de um texto novo de Marx, por exemplo, influencia o marxismo atual (como aconteceu com o estudo dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844), ao passo que um texto novo de Galileu seria mera curiosidade histórica. Foucault fala disso no contexto do seu conceito de “função autor”: o autor é uma “cola” que mantém a coerência de uma obra, ou uma linha que traça os limites do que se considera uma obra. No caso dos modos de discurso, o autor “fundador” passa a ser usado como cola de uma obra que ultrapassa a si mesmo. Outros detalhes: Foucault localiza a origem da autoria na repressão: historicamente, passa-se a apontar autores quando se quer puni-los, ou seja, quando há a possibilidade de transgressão; enfatiza também que muitos tipos de discurso não utilizam a função autor.

Já Barthes argumenta que há diversas vozes ou perspectivas no texto: a do autor (como sujeito consciente da escrita), a da pessoa de carne e osso que possui ideias que dão forma ao texto, a dos personagens, a do momento histórico etc. comparando isso à tragédia grega em que palavras ambíguas são entendidas de maneiras distintas por personagens diferentes, mas em que o espectador consegue ver por todos esses ângulos (no caso do texto, seria o leitor). Para Barthes, portanto, o leitor é o foco da escrita após a “morte” do autor.

O professor chama a atenção para o período histórico em que Foucault e Barthes escreveram seus artigos (~ anos 60), insistindo na ideia de que são artigos contra a “autoridade” percebida na noção de autor, no sentido policial ou coercivo do termo. O autor seria um limitador da interpretação, um tolhedor dos significados – Barthes tem uma passagem em que zomba dos críticos, que adoram a ideia de autor pois lhes permite “desvendar” o “significado real” da obra e encerrar o caso. Foucault teria tentado recuperar a noção de autor – descartando a coerção – quando fala de Marx e Freud como fundadores de modos de discurso, flexíveis e permeáveis aos desenvolvimentos posteriores, cumprindo apenas uma “função autor” ampla sem imposição de verdades. Ao final da aula, uma contraposição ao pensamento de Foucault e Barthes é citada: a condição de autor, de sujeito, é algo que pode ser apropriado e reinvindicado por pessoas marginalizadas como ferramenta de afirmação e representatividade.

Vejo essa última crítica com curiosidade. Certamente as ferramentas do amo não podem destruir os sistemas do amo (leia-se: modernidade, colonialidade...), mas quais são essas ferramentas? Autoridade coerciva sim, mas também objetificação. A posição de Foucault e Barthes parece extremamente objetificadora, ao menos para o(a) autor(a). Barthes garante apenas ao(a) leitor(a) um papel de sujeito, Foucault também parece fazer isso implicitamente. No entanto, outra ferramenta do amo que pode complicar tudo isso é o individualismo hegemônico – do lado de Foucault e Barthes o indivíduo leitor-sujeito como foco de sentido (o que Foucault ameniza com os “modos de discurso”, se vistos como tradições coletivas), do lado da crítica um indivíduo autor-sujeito como foco (o que poderia ser amenizado se o autor-sujeito fosse não uma pessoa, mas uma coletividade, por exemplo). O lado do “autor-sujeito” foi apresentado de forma superficial na aula, seria interessante pensar a construção de autorias coletivas ou fluidas ou, de outra forma, anticapitalistas/decoloniais.

 
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from gbrlpires

Ontem fiquei pensando no tempo que não publico nada em lugar algum, sem que seja a timeline das redes sociais.

Fiquei sentindo falta de escrever, de ter um blog, de jogar pensamentos mais elaborados. De repente eu percebi: mas eu tenho um blog. Tenho uma newsletter também. Tenho uns textos perdidos por aí que nunca ninguém viu. Por que eu não publico nada lá?

Esse pensamento chacoalhou umas tantas inquietações que já me perseguem desde muito. Percebi que eu sinto falta mesmo é de escrever sem culpa. Sem a gramática perfeita. Sem ser o texto coeso com início, meio e fim. Sem ser o textão, mas também sem ser o textinho. Ou qualquer fucking coisa que eu tenha vontade. E que é isso que me impede de publicar um pouco dos sem número de coisas que passam pela minha cabeça e pelo meu corpo.

A culpa.

Já não aguento mais sentir culpa por ser quem eu sou ou quero ser. Com todos os defeitos. A pessoa horrível, ou boa, ou só a pessoa que sou. Incoerente e bagunçada, caótica. Inteligente ou meio burra. Cafona, hipster. Diferentona ou comum demais, que seja.

E nessas eu acabo sendo nada.

 
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