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from Notas de Aula

Anotações:

Leitura

O texto de Gadamer é crítico ao projeto iluminista, mas é uma crítica em certa medida conservadora e tradicionalista. Me incomodou a referência a Heidegger (nazista de merda). Apesar disso, não é um texto estúpido e tem sacadas interessantes. Trata da interpretação como processo dinâmico: iniciamos a leitura de um texto com várias preconcepções, que nos fazem projetar significados desde o começo. Essa projeção entra em conflito com o texto em si durante a leitura – se nossas preconcepções divergem do texto, ele começará a não fazer sentido. Para restituir o sentido ao texto, devemos reavaliar nossas preconcepções. Esse movimento circular se repete, e sabemos que estamos na direção certa quando temos poder preditivo, que pode ser confirmado com o texto. Esse processo me lembra a ideia de acomodação de Piaget e parece uma espécie de dialética.

Nesse momento Gadamer faz um passeio por lugares horríveis defendendo uma ideia específica de preconceito útil. Pois é. Passando vivo por esse trecho, vem algo mais relevante: ele critica o que chama de historicismo, que seria a tentativa de estudar a história objetivamente, se desvinculando da substância do que o passado tem a dizer. Uma análise historicista tende a nos separar do passado, como se não houvesse nada a aprender com suas obras, como se não falassem conosco. O texto entra então na defesa de uma ideia de clássico: clássicos seriam aqueles artefatos que estão acima do momento histórico e representam algo mais geral, ao qual pessoas de vários períodos históricos podem se conectar.

Tratando novamente da hermenêutica, Gadamer adota a regra segundo a qual devemos “entender o todo em termos do detalhe e o detalhe em termos do todo”. Quase dá pra ouvir Hermes Trismegisto cantarolando com Jorge Ben “o que está no altoooo é como o que está embaaaaixo”. Defende que o critério que define se entendemos algo ou não é justamente a harmonia dos detalhes com o todo. Mas ele não baseia essa regra em nada muito sólido, cita que é algo conhecido da retórica antiga e tenta mostrar que é auto-evidente. Eu não me convenci muito bem. E se a obra for heterogênea, sem unidade? Não é possível manter conflitos entre partes e todo sem prejudicar o entendimento?

O texto então critica a ideia de que a tarefa da hermenêutica seria colocar-se completamente na mente do autor para solucionar tudo que é estranho no texto. Não que ele considere errada a busca por harmonia, mas sim o foco no autor. Defende que a hermenêutica é na verdade um jogo entre o interpretador (com suas preconcepções derivadas de seu tempo e tradições) e a tradição em que o texto em si se insere. A tradição ultrapassa o sujeito (por isso não basta “entrar na mente do autor”), mas não se livra completamente dele, é uma relação de participação. Não só o autor participa de uma tradição, mas o leitor também. Nesse sentido, a interpretação é sempre produtiva: o significado interpretado sempre ultrapassa o intencionado pelo autor, inclusive porque depende também da nossa participação, condicionada a nossas tradições e a nosso tempo histórico.

Gadamer vê a distância histórica como algo positivo, é como se a obra de arte fosse fermentada pelo tempo e curtida das impurezas que encobririam completamente o sabor de sua importância permanente. Basicamente, a distância histórica valoriza o que é atemporal na arte. Nesse ponto eu me perguntava se não seria interessante aplicar essa ideia à arte de outras culturas em nosso próprio tempo histórico: a distância cultural valoriza aquilo que é universal ou ao menos comum. Achei a ideia interessante, mas não deveria parar aí: ser tocado apenas pelo que se tem em comum é fácil, mas muitas vezes é melhor ser chacoalhado pelo que é diferente. Claro que Gadamer não vai defender isso de jeito algum. Ele se esforça para dar mais valor àquilo que, além de antigo, pertence à mesma tradição do interpretador.

O texto então introduz o conceito de história-efetiva: a soma do objeto histórico em estudo com o ponto de vista histórico em que o investigador está imerso. A história-efetiva determina tanto o que nos parece válido investigar quanto o que se mostra como objeto de investigação. Esse é um conceito bem interessante, que acho que Gadamer não leva às últimas consequências no texto. Em uma associação meio desbaratinada, me lembra a ontologia que na física se chama de superdeterminismo: investigação e fenômeno estão conectados por um fio de causalidade inquebrável.

Depois de montar a ideia da história-efetiva, Gadamer dá uma punhalada final no objetivismo histórico, ou historicismo:

“Historical objectivism resembles statistics, which are such an excellent means of propaganda because they let facts speak and hence simulate an objectivity that in reality depends on the legitimacy of the questions asked.”

Por fim, o texto diz que é possível usar a história-efetiva em benefício da hermenêutica por meio da expansão do nosso próprio horizonte de compreensão. Não se trata de colocar-se no lugar do outro, o que seria útil apenas para objetificar o horizonte histórico do outro, mas sim de colocar-se em relação ao outro, compreender sua mensagem a partir de sua posição histórico-efetiva em relação a nós. Busca-se, assim, concordância, terreno comum. A expansão do horizonte interpretativo, portanto, só seria possível tornando-o mais universal, abstraindo a nossa particularidade e a particularidade do outro.

Aula

Na aula, o professor faz uma rápida passagem pela história da hermenêutica. A hermenêutica, na forma moderna, teve origem com a reforma protestante. No início se restringia à interpretação da bíblia. Conforme a burguesia começou a instaurar formas de governo constitucionais, a hermenêutica se expandiu para incluir a interpretação da lei. Apenas ao final do séc. XVIII a hermenêutica começou a ser aplicada à literatura, em paralelo ao surgimento do romantismo. Até então o ideal da literatura era a transparência, o que significa que qualquer dificuldade de interpretação era indicativa de literatura ruim. A ênfase na “genialidade” do autor, marca do romantismo, tornou os textos literários seculares mais parecidos com os textos bíblicos: importantes e difíceis de entender. A hermenêutica, portanto, habitou uma a uma as clareiras abertas pela secularização burguesa pós-iluminista até chegar à literatura.

Professor ressalta que o círculo hermenêutico é, para Gadamer, uma relação entre o leitor e o texto, mas outres autores usam a ideia de círculo hermenêutico como uma relação entre o leitor e o autor, tendo o texto como meio. Ressalta o padrão dinâmico do círculo hermenêutico: alternância entre compreensão da parte e do todo, ou do presente e do passado (como argumentado por Gadamer ao falar de tradições e horizontes de compreensão). Afirma que Gadamer limitou o círculo hermenêutico a uma relação entre períodos históricos em seu texto, mas que deveria se aplicar a relações entre culturas distintas mesmo que ambas atuais.

Explica a crítica de Gadamer ao objetivismo histórico e diz que é importante que essa crítica busca encontrar maneiras de aprender com o passado, é um reconhecimento de que o passado tem algo a nos dizer e não é apenas um objeto distante. Reforça que é impossível olhar qualquer coisa sem preconcepções. Critica o ponto de vista de Gadamer sobre preconceitos úteis e sobre a busca de terreno comum: é um projeto conservador que pode ser perigoso – é possível encontrar ressonância em ideias horríveis do passado, não apenas em ideias edificantes.

Por fim, cita uma crítica à posição de Gadamer, vinda de Hirsch. Em resumo, há dois pólos opostos que se chocam, o de Gadamer-Heidegger (tradição, interpretação subjetiva, verdade comum), e o de Hirsch-Kant (intenção, interpretação objetiva, imperativo categórico):

  • Gadamer: implícito no historicismo está o abandono do que o objeto analisado tem a nos ensinar – deixamos de ouvi-lo.

  • Hirsch: implícito no círculo hermenêutico está a instrumentalização do outro, o apagamento do autor em prol de nossos próprios fins.

Sinceramente, não me atrai muito essa briga. Entre Heidegger e Kant prefiro tirar um cochilo.

 
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amanheceu

A cidade se deita e estou acordada. Ela dorme, e continuo acordada. Ela ronca. E eu ainda acordada. Oito horas de sono, pra mim, é luxo. E nessas noites não-dormidas, comecei a me encontrar no mundo. A solidão durante a madrugada é grande e por isso dei início a um processo de autoconhecimento. Busco algo para fazer, muitas vezes opto por algo que acho chato na tentativa do sono aparecer. Mas na maioria do tempo, aproveito meu pique pra crescer o quanto posso: artistando, lendo, estudando e escrevendo. Vem também o cansaço antecipado, diante dos pensamentos sobre o dia que virá logo a seguir e não estarei com meu cérebro descansado. E depois de algumas horas, a cidade se levanta e vejo o mundo com sua vida acontecendo. Suas energias parecem estar recarregadas, enquanto me sinto um celular sem bateria. Cresço comigo, mas a cada momento que olho o relógio torço pelo meu primeiro bocejo. Ele normalmente vem quando os pássaros já estão cantando e o dia clareando. Aprendi, na marra, que a insônia não pode ser totalmente ruim. Tem dias que tenho vontade de acordar as pessoas que gosto para que elas possam admirar comigo a beleza do amanhecer. Tem dias que ouço gemidos. Tem dias que esses gemidos veem de mim e eu fico feliz por lembrar que o orgasmo é um dos melhores remédios para me fazer dormir.

 
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from line ليني

escrever é uma vávula de escape ou tentativa às vezes os pensamentos nos prendem a ponto de não sair uma palavra colocar versos em papéis, telas mentes e corações escrever com raiva, ódio ou amor sobre você, sobre mim ou sobre ninguém a liberdade da escrita é algo que se sente é a tentativa de demonstrar sentimento de decodificar meu pensamento que normalmente nem eu entendo

 
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Primeiro encontro

Quando pensamos em sexo, a grande maioria das pessoas já visualizam mentalmente o sexo hétero. Como lésbica, penso, instantaneamente, em um sexo com mulheres. É engraçado como isso faz com que várias situações que seriam constrangedoras, caso acontecessem entre homem e mulher, não sejam. Essa semana aconteceu algo engraçado que me deixou reflexiva sobre essa liberdade e intimidade que só existe entre as mulheres – conversamos umas com as outras nas filas dos banheiros sobre sentimentos como se fossemos amigas de longa data. Geração do Tinder, né, vamos lá. Terminei meu relacionamento há alguns meses. 9 meses de namoro, terminamos porque ela precisou ir embora para outro estado. Enfim, fiquei naquelas. Segui tentando lembrar como é todo esse jogo de flertar e desenrolar. Instalei o Tinder mais uma vez. Mudei a foto, renovei a minibiografia e finalmente estava pronta para atacar. Match! Ela estuda psicologia aqui na UFRJ , é vegetariana e me encantou quando começou a falar aleatoriedades. Tivemos horas de assuntos nada entediantes e isso é um ótimo começo para uma interação a partir de um aplicativo. Curtíamos as mesmas músicas, ela adorava cerveja e fumava maconha. Marcamos de ir ao CCBB e depois tomamos uma cerveja na Ouvidor, uma rua famosa por sua boemia em meio ao caos do centro do Rio de Janeiro, e ali no bar bebemos alguns litros de cerveja. Gostaria de fazer um adendo irrelevante: o litrão de Brahma custava R$16. Depois que algumas cervejas foram tomadas, o álcool começou a fazer efeito e as duas deixaram a vergonha de lado para que o beijo saísse. Desenrolamos. Fomos para a casa dela. Beijos pra lá e pra cá. Amassos pra lá e pra cá. Eis que lembro de uma sequela sapatão: não cortei minhas unhas. Diversas cenas de vaginas arranhadas por unhas grandes me vêm à mente. Argh, sinto nervoso só de pensar. Será que a insegurança que senti ali é semelhante a de um homem que está sem camisinha na carteira?! Acho que não, porque eles nem parecem se preocupar tanto quanto as mulheres. Tentei não pensar na minha unha, mas isso me vinha à mente o tempo inteiro. Pensei em roer, mas sem uma lixa a situação não ficaria muito boa também. Pensei em pedir um cortador de unha pra ela, na cara dura; mas não tive coragem por ainda ser o primeiro encontro. Ainda tinha a incerteza se iríamos transar ou não. Até que em um momento, percebi que já estávamos tirando nossas roupas. Ia rolar. Quando fui pensar novamente sobre o tamanho de minhas unhas, o pensamento foi cortado pelo desejo e me vi sentindo seus pelos e seus gostos na minha boca. Esqueci da unha, meus dedos já estavam dentro dela e então eu percebi que minhas unhas talvez nem estivessem tão grandes quanto imaginei. Aprendi a lição e atualmente, tenho um cortador de unha em meu molho de chaves. O vai e vem, os corpos suados se encostando... mas sinto algo estranho no meio da transa. As minhas coxas estavam mais molhadas do que deveriam… porque minha menstruação decidiu descer naquele exato momento. No mesmo momento entendi o estresse e a carência que senti durante aquela aquela semana. E agora?! Aviso pra ela?! Ela nem percebeu ainda!! São muitos pensamentos!! Ai meu deus!!! Comecei a ficar desesperada e logo ela percebeu que minha feição estava estranha. Parei, olhei pra ela e falei “Cara, acho que minha menstruação desceu”. Eu não achava, já tinha certeza, mas não sabia como falar. Ela olhou as próprias mãos cheias de sangue. Fiquei esperando uma reação e aqueles segundos demoraram a eternidade. Ela fez uma cara normal. Me deu um beijo, foi ao banheiro para lavar as mãos e terminamos no chuveiro o que já tinha começado. Depois de muita risada, ainda colocamos o lençol de molho no sabão. A liberdade no sexo lésbico me encanta, me fascina. Transar com pessoas do mesmo sexo que você te obriga a reinventar o ato, e aprender a transar diferente, porque só nos ensinam sobre o sexo hétero baseado na penetração. Episódios como esse acontecem e eles vêm para nos dar mais experiência. Sexo é muito mais do que mostram que é. Não é limitado nem previsível, tem situações constrangedoras e engraçadas. Essa não foi a primeira vez que me senti constrangida na transa e, com certeza, não será a última. Às vezes, essas situações podem render até um texto para entreter quem sabe que isso acontece.

 
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Sem sexo, com drogas e sem rock'n’roll

Nunca gostei de escrever crônicas, mas senti que esse dia merece ser eternizado em algum lugar. Talvez tenha sido o dia mais louco da minha vida, na verdade. E tudo começou na UFRJ. Era 2016. Eu era aluna da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a famosa UERJ. Em um dia qualquer, meu amigo Eli, aluno de Biblioteconomia da UFRJ, me convidou para ir a uma festa na Reitoria. Nunca tinha ido e não sabia como chegar, então fui para sua casa e partimos juntos para o campus Fundão. Andamos uns 20 minutos até o ponto de ônibus, e eu nem pensei na ideia de gravar o caminho. Mesmo se tentasse, viramos em tantas ruas que não sei se conseguiria me lembrar. Chegamos na festa, muitas pessoas do nosso grupo estavam desanimadas e por isso fui dar umas voltas pra ver se encontrava alguns amigos que estudavam por lá. Achei meu amigo Eduardo. Nos conhecemos desde que tínhamos 12 anos e resolvemos aproveitar a festa juntos por um tempo. Procurei Eli e marcamos um horário para nos encontrarmos: às 21h, embaixo de uma árvore específica. Encontrei outro amigo, Thalles, e ficamos juntos até umas 20h40. Fui pra debaixo da árvore e esperei. Esperei até 21h. Não tinha ninguém que eu conhecia. Tentei ligar pro Eli, mas meu celular descarregou. Minhas coisas não estavam lá. E comigo só tinha um celular descarregado, R$20, nenhum documento e eu não fazia ideia de como sair daquela ilha. É aí que a noite mais louca da minha vida começa. Comecei a caminhar pelo Fundão com Thalles pensando sobre qual seria a solução para minha vida. Thalles morava em uma república na Ilha do Governador, mas não podia receber visitas, ou seja, eu não poderia dormir por lá. Caminhando, caminhando… parei no ponto de ônibus. E encontrei a Jes, uma mina de Nova Iguaçu também, que eu nunca tinha falado diretamente, mas sempre estávamos nos mesmos eventos e tínhamos muitos amigos em comum. Ela estava acompanhada de Rebeca, pois as duas passaram aquele dia rimando e declamando poesia no BRT tentando tirar uma grana. Contei pra Jes a minha situação desesperadora e ela me deu uma solução: ir para uma festa com ela em Botafogo. Seria em uma casa, eu poderia recarregar a bateria do meu celular e me comunicar com o mundo, então fui. Enquanto esperávamos o ônibus, Jes e Rebeca droparam um nbome. O 485 [Fundão x General Osório] veio e Jes conseguiu desenrolar com o motorista para entrarmos pela porta de trás – só eu estava sem nada, mas no fim ele liberou para as três – e assim que entramos no ônibus um menino branco falou “Agora virou bagunça isso aqui?!”, deixando a Rebeca mais exaltada do que ela estava. A primeira saga do ônibus: Rebeca estava puta. O menino foi desrespeitoso e ela começou a discutir com ele. Ele gritava que ela era favelada e mandava que ela calasse a boca. Eu nem queria demonstrar que estava junto. Eu só queria chegar na tal festa. Quando olhei, assisti Rebeca dando um chute na nuca do menino, que já estava sentado nas escadas da porta de saída do ônibus. Ele levantou com o objetivo de bater nela, mas os amigos dele e muitas pessoas do ônibus disseram que ele estaria errado de encostar a mão em uma mulher. Ela retirou uma agulha de crochê da bolsa e começou a ameaçá-lo. Jes conseguiu convencê-la a não fazer besteira. Ele só não bateu nela porque as pessoas realmente o impediram. O ônibus parou quando passou por uma viatura policial e revistaram apenas Rebeca – uma menina preta vinda do Capão. Rebeca, na defensiva, disse que o menino vendia drogas ecstasy e LSD pelo campus – ela nunca tinha visto o menino na vida – e que não o revistaram porque ele tinha cara de playboy. Os policiais retiraram o menino do ônibus para uma revista mais específica. Houve paz por alguns minutos, até que três meninos brancos, sem camisa, entraram e um deles começou a ser cordial com Rebeca, dizendo que era nascido e criado na Penha, um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, e ela começou a ser agressiva com ele nas palavras. O mais engraçado é que enquanto ela discutia com eles, ela rimava as ofensas. O menino ficou irritado, mas um dos amigos comprou a briga e foi discutir com Rebeca. Na verdade, depois de duas frases ele queria bater nela e, novamente, pessoas ao redor tiveram que dizer que ele não deveria bater em mulher. Enquanto tudo isso acontecia, Jes estava quieta. Mas esse último menino deixou Jes irritada, e no fim até ela entrou na discussão. Ela estava fumando um cigarro na janela do ônibus, apagou e foi até o menino. No ouvido dele falou baixinho “Tu baixa tua bola, porque você não é o rei aqui”. E o menino ficou quieto. Graças a Deus o ônibus chegou na Álvaro Ramos, nosso ponto em Botafogo. Ao descermos do ônibus, Rebeca já estava desestabilizada. Elas se conheceram naquele dia e Jes não sabia nada sobre ela. Contou pra gente que perdeu uma filha e que estava com câncer de mama. Chateada com as situações que aconteceram, queria devolver as moedas que arrecadou com Jes durante todo o dia nos ônibus e jogou todas no chão. Disse que não ia nos acompanhar até a “Open House”. Jes conseguiu convencê-la. Iríamos para a casa e ateliê do Vinus. Eu não conhecia ninguém, só queria um lugar para dormir e recarregar meu celular. E aí começa a terceira parte da noite… Chegamos lá, era perto da Álvaro Ramos, uma rua conhecida pelo bairro Botafogo. Assim que entrei na casa, me deparei com três pessoas: Vinus, Glória e Lili. Uma delas estava pelada e essa mulher se apresentou como Glória, nome de uma personagem de Clarice Lispector. Ela dizia que era famosa, e que era só jogar o nome dela no Xvídeos. Quando me viu suando devido à leve subida para chegar, Glória disse que eu também poderia tirar minhas roupas, já que estava calor. Estava no meio de pessoas do cenário pós-pornô e, nudista como sou, tirei minha roupa rapidamente. Depois de alguns minutos, senti que estava sendo observada com olhares diferentes. Não eram olhares de julgamento, mas eram olhares diferenciados para minha forma de agir na primeira visita à casa de uma pessoa que eu nem conhecia. Nesse momento, comecei a prestar mais atenção em detalhes. Glória estava bêbada. As outras duas pessoas que estavam na casa comentaram que tinham acabado de dar um banho nela. E tudo fez sentido: Glória só estava pelada porque estava bêbada, prestes a dar perda total. Vesti minha roupa lentamente, tentando fingir que nada tinha acontecido. E assim fui recepcionada naquele espaço. No meio desse constrangimento, consegui colocar meu celular para recarregar. Finalmente! E mandei mensagem para Eli. Ele disse ter levado minhas coisas embora porque achou que eu voltaria pra casa dele sozinha. Fiquei extremamente chateada porque tínhamos um combinado. Avisei onde estava, que estava segura e iria passar a noite ali em Botafogo. A partir daí, só me dispus a aproveitar porque já era tarde demais pra transitar pelo Rio de Janeiro sozinha, principalmente sentido Zona Norte, sendo preta e sem documentos. Todos pareciam muito legais. E chegou uma atriz pornô famosa no Brasil. A chamaremos de Gabriela Chocolate. Quando ela chegou e se apresentou, as pessoas realmente queriam ver seus vídeos. Colocaram um em que ela fazia anal e todo mundo começou a assistir junto. Chocolate já conhecia Rebeca de outro lugar. Não sei qual e, depois de tanta confusão, eu gostaria mesmo de não saber. Rebeca, como desde o início da noite, parecia estar decidida a desencadear alguma discussão ou briga. O dono da casa, Vinus, ficou extremamente irritado com as provocações que estavam acontecendo entre Chocolate e Rebeca e logo pôs um fim em toda discussão, pedindo, aos berros, para que Rebeca sossegasse e desse descanso para Chocolate. A casa não era grande. E todos estavam fugindo de Rebeca. Sua energia pesada pairava em cada cômodo que parava. As pessoas estavam na sala, ela chegava; as pessoas iam para a varanda, ela tentava novamente se reaproximar, e as pessoas iam para a sala. Eu era uma dessas pessoas. Estava realmente fugindo daquela mulher depois de uma viagem um pouco assustadora dentro do 485. Lili, uma mulher com falas tão sensatas sobre qualquer assunto falado naquela noite, percebeu que o clima não estava agradável e muito menos positivo. Foi quando ela viu a necessidade de uma intervenção espiritual naquele lugar. Lili chamou todos para a sala. Pediu que fizéssemos uma roda e colocou alguns pontos de Orixás pra tocar. Eu nunca tinha sequer ouvido pontos, mas estava lá rodando como se aquilo fizesse parte da minha rotina. Aos poucos, as músicas foram se intensificando, e Rebeca se deitou no sofá que ficava em um canto da sala. E conforme as pessoas iam entrando no clima, talvez espiritual, a menina irritada ia adormecendo. Até que dormiu de vez e Lili agradeceu. Disse que ela estava “pesando o rolê”. Chegaram Renan e Brenno. Eles tinham se conhecido no Tinder e aquele era o primeiro encontro. Renan não gostou muito de Brenno, que ficava forçando uma conversa desesperadamente. Em um determinado momento da noite, Renan começou a ignorá-lo. Sabendo que Renan gostava de drogas, Brenno se ofereceu para comprar cocaína. Os cheiradores de plantão, seis pessoas de nove – se Rebeca estivesse acordada, estaria cheirando também –, aceitaram sem hesitar e Brenno liberou o primeiro galo para o pó. Selecionaram duas pessoas, não lembro quais, para fazerem a “missão” com aqueles R$50. Brenno não usava drogas, dizia nem ter vontade e apenas queria ver o pessoal se divertindo. A bebida alcoólica era caipirinha porque cachaça custa menos que cerveja. E limão também. Todos queriam fumar um baseado, mas só tinha um pedaço que daria para bolar apenas um e, como bons maconheiros, entramos no consenso que seria utilizado em um momento muito propício: quando todos concordassem. A noite foi passando, as pessoas falavam muito com suas mentes aceleradas pela droga que corria no sangue. E como a cocaína é uma droga que acaba rápido, fizeram a missão de comprar pó durante 4 vezes naquela noite. No total Brenno gastou R$200 em uma substância que ele nem usava. Ele falava mais do que as pessoas drogadas. Ele não parava de falar sobre coisas extremamente aleatórias e Renan ficava irritado por ter levado aquele menino para um rolé com os amigos. A noite foi passando… as pessoas foram se cansando… e a bebida acabou. A larica chegou, e rolou uns sanduíches. Já estava frio do lado de fora. Fomos entrando pra sala e nos acomodando. Chocolate, Brenno e Renan foram embora. Restou Glória, Jes, Rebeca – que ainda dormia –, Vinus, Lili e eu. E mesmo com todo o barulho, Rebeca não acordava por nada. Todo mundo que olhava pra ela dizia que a macumba da Lili estava forte. As conversas aconteciam de forma aleatória e mesmo sem conhecer aquelas pessoas até algumas horas atrás, eu conseguia me inteirar dos assuntos. Um ambiente de esquerda com artistas e acadêmicos de humanidades que estavam dispostos a discutir sobre os temas mais inusitados. E por volta das cinco horas da manhã surgiu o consenso de fumarmos aquele baseado. As conversas se estenderam por um tempo entre 40 e 60 minutos. E aos poucos todos foram sentindo sono, à medida que o dia ia amanhecendo. Decidi dormir, naquela sala cheia de pessoas desconhecidas, para logo ir para casa. Todos dormiram. Rebeca acordou desesperada e disse que iria embora. Em menos de 5 minutos desapareceu como se nunca tivesse pisado ali. Até que alguém bateu à porta. Todo mundo acordou assustado. E o dono da casa foi ver: era Brenno, aos prantos. Quando entrou, todos ainda estavam espantados e atentos para ouvir o relato de Brenno sobre o que tinha acontecido. Ele começou a contar que Renan não estava satisfeito com os comportamentos dele e por isso passou a noite inteira ignorando-o. Quando foram embora para a casa de Renan, Brenno ainda tinha a expectativa que algo sexual fosse acontecer. E se frustrou porque Renan não dirigiu sequer uma palavra a ele. E foi se deitar. Brenno contava isso sentado no chão enquanto chorava. Todos estavam depositando extrema atenção nas palavras que saíam da boca daquele menino. E ele contou que se desculpou por não ter sido uma pessoa agradável, mas fez isso de uma forma um pouco diferente. Ele pediu desculpas de acordo com a cultura japonesa, pois era a cultura que mais admirava. Disse ter se sentado no chão e se curvado para Renan. Ele demonstrou como fez e disse algumas frases em japonês. Nesse momento as pessoas da sala se entreolharam enquanto seguravam o riso. Confesso que falhei e umas risadas escapuliram. Lili disse que Brenno não se ajudou quando se curvou para Renan, que “a vida não é um anime”. O menino ainda chorava. E depois de um café, se acalmou e decidiu ir pra casa. Ele também pegaria o metrô e decidi aproveitar essa carona para encontrar Eli e pegar minha bolsa de volta. Combinei o horário certo, avisei às pessoas que iria partir. Jés se certificou algumas vezes que estava tudo sob controle para que eu pudesse ir embora em segurança. Eu pedia desculpas por ter invadido um rolé para em que não fui chamada, mas Vinus chegou até a agradecer minha presença. Não sei até que ponto aquilo foi sinceridade ou pura cordialidade. Desci aquela rua com Brenno, aguardamos o metrô juntos, enquanto ele tentava puxar assunto e eu não estava muito disposta. Consegui chegar na estação São Cristóvão e de lá peguei um trem, sentido Japeri. Parei na estação Méier para pegar minha mochilinha. Eli estava lá me esperando. Não tive nem coragem de trocar palavras com ele porque eu ainda estava com raiva, pois pelo vacilo dele muitas coisas poderiam ter acontecido. Muitas coisas ruins. Mas eu estava bem agora. Estava com minhas coisas, meu dinheiro, documentos e o melhor de tudo: a caminho de casa. E cheguei bem, sem que meus pais desconfiassem de qualquer coisa que passei naquela noite extraordinária. Toda vez que tento contar essa longa história da minha vida, parece mentira. Às vezes, nem eu acredito, mas lembro que tenho Vinus, Lili e Jés no Facebook e que eles não apareceram lá por acaso. E certamente, o maior ensinamento que levarei sobre essa noite é que, não importa o erro que eu cometer, o importante é não pedir desculpas em japonês.

 
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from Notas de Aula

  • Prof.: Paul H. Fry (Universidade de Yale)

  • Vídeos: 1 – Introdução 2 – Introdução (cont.)

  • Leituras:

    • Foucault: “O que é um autor?”
    • Barthes: “The Death of the Author”

Anotações:

Interessantes os textos. Foucault fala de “fundadores de modos de discurso” como Marx e Freud, que seriam sempre revisitados e reinterpretados pelos marxistas e psicanalistas e que representam um tipo de discursividade, em contraste com cientistas como galileu e newton, que são superados e englobados pela discursividade “impessoal” do método científico. A descoberta de um texto novo de Marx, por exemplo, influencia o marxismo atual (como aconteceu com o estudo dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844), ao passo que um texto novo de Galileu seria mera curiosidade histórica. Foucault fala disso no contexto do seu conceito de “função autor”: o autor é uma “cola” que mantém a coerência de uma obra, ou uma linha que traça os limites do que se considera uma obra. No caso dos modos de discurso, o autor “fundador” passa a ser usado como cola de uma obra que ultrapassa a si mesmo. Outros detalhes: Foucault localiza a origem da autoria na repressão: historicamente, passa-se a apontar autores quando se quer puni-los, ou seja, quando há a possibilidade de transgressão; enfatiza também que muitos tipos de discurso não utilizam a função autor.

Já Barthes argumenta que há diversas vozes ou perspectivas no texto: a do autor (como sujeito consciente da escrita), a da pessoa de carne e osso que possui ideias que dão forma ao texto, a dos personagens, a do momento histórico etc. comparando isso à tragédia grega em que palavras ambíguas são entendidas de maneiras distintas por personagens diferentes, mas em que o espectador consegue ver por todos esses ângulos (no caso do texto, seria o leitor). Para Barthes, portanto, o leitor é o foco da escrita após a “morte” do autor.

O professor chama a atenção para o período histórico em que Foucault e Barthes escreveram seus artigos (~ anos 60), insistindo na ideia de que são artigos contra a “autoridade” percebida na noção de autor, no sentido policial ou coercivo do termo. O autor seria um limitador da interpretação, um tolhedor dos significados – Barthes tem uma passagem em que zomba dos críticos, que adoram a ideia de autor pois lhes permite “desvendar” o “significado real” da obra e encerrar o caso. Foucault teria tentado recuperar a noção de autor – descartando a coerção – quando fala de Marx e Freud como fundadores de modos de discurso, flexíveis e permeáveis aos desenvolvimentos posteriores, cumprindo apenas uma “função autor” ampla sem imposição de verdades. Ao final da aula, uma contraposição ao pensamento de Foucault e Barthes é citada: a condição de autor, de sujeito, é algo que pode ser apropriado e reinvindicado por pessoas marginalizadas como ferramenta de afirmação e representatividade.

Vejo essa última crítica com curiosidade. Certamente as ferramentas do amo não podem destruir os sistemas do amo (leia-se: modernidade, colonialidade...), mas quais são essas ferramentas? Autoridade coerciva sim, mas também objetificação. A posição de Foucault e Barthes parece extremamente objetificadora, ao menos para o(a) autor(a). Barthes garante apenas ao(a) leitor(a) um papel de sujeito, Foucault também parece fazer isso implicitamente. No entanto, outra ferramenta do amo que pode complicar tudo isso é o individualismo hegemônico – do lado de Foucault e Barthes o indivíduo leitor-sujeito como foco de sentido (o que Foucault ameniza com os “modos de discurso”, se vistos como tradições coletivas), do lado da crítica um indivíduo autor-sujeito como foco (o que poderia ser amenizado se o autor-sujeito fosse não uma pessoa, mas uma coletividade, por exemplo). O lado do “autor-sujeito” foi apresentado de forma superficial na aula, seria interessante pensar a construção de autorias coletivas ou fluidas ou, de outra forma, anticapitalistas/decoloniais.

 
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from gbrlpires

Ontem fiquei pensando no tempo que não publico nada em lugar algum, sem que seja a timeline das redes sociais.

Fiquei sentindo falta de escrever, de ter um blog, de jogar pensamentos mais elaborados. De repente eu percebi: mas eu tenho um blog. Tenho uma newsletter também. Tenho uns textos perdidos por aí que nunca ninguém viu. Por que eu não publico nada lá?

Esse pensamento chacoalhou umas tantas inquietações que já me perseguem desde muito. Percebi que eu sinto falta mesmo é de escrever sem culpa. Sem a gramática perfeita. Sem ser o texto coeso com início, meio e fim. Sem ser o textão, mas também sem ser o textinho. Ou qualquer fucking coisa que eu tenha vontade. E que é isso que me impede de publicar um pouco dos sem número de coisas que passam pela minha cabeça e pelo meu corpo.

A culpa.

Já não aguento mais sentir culpa por ser quem eu sou ou quero ser. Com todos os defeitos. A pessoa horrível, ou boa, ou só a pessoa que sou. Incoerente e bagunçada, caótica. Inteligente ou meio burra. Cafona, hipster. Diferentona ou comum demais, que seja.

E nessas eu acabo sendo nada.

 
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from dobrado

Era Agosto de 2021, esse ano não houve festa junina e uma mínima esperança de festas de fim de ano com a família ainda brilhava timidamente dentro do coração das pessoas. Foi um ano difícil, e continua sendo, para todos nós.

No quinto dia daquele mês eu tive uma ideia:

Vou fazer uma instância para pessoas pretas e pardas brasileiras. Sugestões de nomes?

Meu mano André Farias respondeu na hora com sugestões de nomes. E logo após isso eu já havia registrado o domínio bantu.social.

O Mastodon

Ta, mas e daí? O que é uma “instância”?, você me pergunta.

Instância é o nome que se da para sites que rodam o Mastodon. Uma rede social federada que usa o protocolo Activity Hub.

Ta, mas e daí?, você sabiamente me pergunta de novo.

Ninguém precisa saber como o Mastodon funciona por baixo dos panos, mas imagine um mundo onde você, na sua conta do Twitter, pode falar com seus amigos do Facebook e Instagram? É quase isso, só que melhor, com mais moderação, pessoas de verdade, sem anúncios, etc.

O Mastodon se parece bastante com o Twitter, com alguns recursos. Mas não existe “um mastodon” e sim várias redes interligadas. Para pessoas brasileiras ou que falam português, nós temos:

  • masto.donte.com.br
  • mastodon.com.br
  • social.pesso.al
  • colorid.es

Com essas quatro instâncias (e centenas de outras) as pessoas podem se comunicar com pessoas de outras instâncias. Mas cada uma uma tem suas próprias regras, administradores e tema.

Se quiser saber mais, sobre redes federadas, recomendo esse excelente episódio do Toca do Saci: https://klh.radiolivre.org/library/tracks/76/

A bantu.social

Naquele Agosto, a ideia era criar uma instância para pessoas pretas e pardas. Mas eu sou preto e uchinanchu. Achei que seria mais justo usar o termo “não-brancas” e deixar a bantu aberta também para pessoas amarelas e indígenas.

Na bantu temos regras bem específicas contra racismos e preconceitos. Hoje somos em torno de 20 pessoas ativas. Postando discutindo coisas sérias e bobagens do cotidiano. Isso se tornou um espaço para conhecermos a nós mesmos e pessoas parecidas conosco. :)

 
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Álbum: The Bitter Truth Artista: Evanescence Data de lançamento: 26 de março de 2021 Gravadora: BMG

Tracklist

“Artifact/The Turn” “Broken Pieces Shine” “The Game is Over” “Yeah Right” “Feeding The Dark” “Wasted on You” “Better Without You” “Use My Voice” “Take Cover” “Far From Heaven” “Part of Me” “Blind Belief”

Favoritas na primeira ouvida

Artifact/The turnBroken Pieces Shine Wasted on You Far From Heaven

Comentários:

Ao começar “Artifact/The turn”, eu tive que aumentar o som. Senti que era tudo que eu tava esperando em um novo álbum da banda. Quase como se fosse o retorno do The Open Door (meu álbum preferido deles). Minhas expectativas aumentaram muito a partir daqui.

A transição pra “Broken Pieces Shine” foi um carinho e uma porrada ao mesmo tempo. As duas músicas juntas me convenceram que esse é um bom álbum e eu nem precisava ouvir o resto. Mas eu ouvi.

“The game is Over” e “Yeah Right” já tinham sido lançadas anteriormente. A única surpresa é que TGIO cresceu bastante pra mim, ouvindo no conjunto do álbum. Eu gosto muito do começo de YR, mas a música não segue pra onde eu esperaria que ela fosse e isso pode ser bom ou ruim: a ser constatado ainda.

Passando por “Feeding the Dark”: por que eu estou com vontade de chorar? Alguma coisa conectou. E essa ser a música para fazer a transição pra “Wasted on You” pareceu certo. Tudo certo! Um ano ouvindo WoY e a música só melhora! Tive um pouco de birra quando ela foi lançada, mas fui conquistada com a versão feita com a Lindsey Sterling. Eu aprendi a amar ambas!

“Far From Heaven” pareceu uma continuação de “Lost in Paradise” do Ev3 (2011), pelo menos os acordes e a forma como começou me lembraram. É como se nós estivéssemos perdidos no paraíso e, de tão perdidos, nós nos afastamos dele. Nos afastamos de tudo que poderia nos fazer bem, querendo ou não.

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Vou precisar ouvir mais algumas vezes pra sentir o álbum, ler as letras e entender mais do que se trata. No geral, eu achei um ótimo álbum! Um conjunto pra ouvir do início ao fim, sem necessidade de pular nenhuma música. Valeu a espera de 10 anos por um álbum de inéditas!

Vi muita gente comentando que esse é o álbum da carreira do Evanescence. No Metacritic, o The Bitter Truth tem a melhor nota dentro da discografia da banda, 84 pontos. Concordo que esse é o melhor álbum da carreira deles? Não. Mas com certeza é um dos melhores.

 
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Completei os 30 dias de Yoga com a Adriene! Fiquei muito feliz com tudo que passei e aprendi nesse mês. Teve cansaço, relaxamento, introspecção, suor, choro, risos, vontade de “pular” um dia e até desistir, acho que faz parte do processo.

O que vai ser daqui para frente, eu ainda não sei, mas espero experimentar diferentes tipos de yoga, diferentes práticas, diferentes instrutores até achar o que me faz sentir bem (find what feels good, já dizia a Adriene).

Registrei tudo, dia a dia, no mastodon. Para que não se perca, resolvi deixar registradinho aqui também, lá vai:

Dia 1

Sobre se convidar à mudança. Um convite à observação da nossa respiração e do nosso corpo.

A prática começou simples, com foco na respiração, e foi cheia de esforço. Já não tenho a mesma concentração, nem o mesmo equilíbrio ou força de antes. Tô com as pernas bambas, mas feliz por ter começado.

Day 1 – Invite | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/ZSIp00SewO8

Dia 2

A cada nova respiração nós chegamos a algum lugar, independente de onde seja.

Fazia tempo que não ouvia minha respiração tão claramente. A prática de hoje foi mais leve que a anterior, mas teve bastante trabalho de braço. Acho que o exercício de hoje é prestar mais atenção à respiração e ver onde ela me leva.

Day 2 – Arrive | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/GaL3YF1vY2k

Dia 3

“A respiração é minha âncora. A minha âncora é a respiração”.

A introdução da respiração do oceano (respiração Ujjayi), que eu inconscientemente fazia sem saber que era uma técnica, é daquelas coisas que preciso empregar na vida. Um oceano dentro de mim, que poético.

Hoje a Adriene começou a acelerar as posições dos dois dias anteriores (o que eu prefiro). Já me sinto mais forte e esticada xD

Day 3 – Anchor | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/hJjqx6YlcWs

Dia 4

Sobre escutar sua respiração e retomar a ideia de ancoramento nela.

Como a Adriene sempre diz, a parte mais difícil é aparecer no tapete pra fazer a prática. Hoje foi difícil pra mim, meu humor tá instável, não tive uma boa noite de sono, ligações infinitas que não me deixam em paz etc etc. Mas apareci e foi bom. Foi praticamente tudo no chão, mais focado na atenção, o que eu precisava.

Day 4 – Listen | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/-rjYMUNJsO0

Dia 5

Não pensem que eu esqueci, eu tardo, mas não falho. Tive que resolver umas coisas de manhã e só tive tempo agora (a verdade é que prefiro começar meu dia com a prática, faz toda diferença).

Apesar de só 23 min, essa foi a mais pesada até agora, tô toda suada. Às vezes, a gente precisa sentir esse fogo ardendo kkkk é sobre nos reabastecer.

Day 5 – Replenish | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/jWMtgM_8jAE

Dia 6

Não posso dizer que senti falta de abdominais, mas também não posso dizer que foi ruim. Até na respiração foi feito um trabalho de abdômen.

Quando perdia o ritmo, era só deixar a respiração me trazer de volta. Tava sentindo falta dessa consciência corporal, é muito bom começar a recuperá-la.

Quase uma semana, lesgoooo!

Day 6 – Burn | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/aAVOdXvdtk8

Dia 7

Sobre sincronizar os movimentos do corpo com a respiração.

Não importa quantos anos eu esteja fazendo yoga, focar na respiração é algo que sempre me foge. Mas parece que a Adriene tá do meu lado dizendo “para de prender a respiração” kkkk

Uma semana, yay! Sem dúvidas eu já me sinto mais forte e condicionada, quanto à respiração: vamos trabalhando xD

Day 7 – Synchronize | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/uxWJRKyUNZo

Dia 8

Sobre se aconchegar e se permitir descansar.

Depois de 7 dias de desafio, no dia 8 chegou a merecida meditação e o descanso. Fazia tempo que a minha mente não ficava assim tão quieta, só sentia a respiração ressoando.

Não estava em casa hoje cedo, dei uma olhadinha rápida pra ver o tema de hoje e achei pertinente fazer a prática antes de dormir.

Day 8 – Snuggle | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/18oXIcsTpUY

Dia 9

Sobre equilíbrio.

Essa foi mais rápido do que eu esperava. Tem algo muito bom em desequilibrar e começar tudo de novo. Quando eu comecei a fazer yoga, lembro que ficava muito frustrada quando não acertava uma postura de primeira, eu queria fazer tudo perfeito... Hoje em dia eu aprecio muito mais a construção da postura, eu sei que um dia eu chego lá.

Day 9 – Balance | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/JAOUZR3Jw3E

Dia 10

Sobre conectar a respiração com o movimento e o movimento com a respiração. Uma coisa de cada vez.

Eu prefiro muito fazer a prática de manhã, mas hoje foi um daqueles dias que não dava. Bom, pelo menos ainda consegui fazer hoje e me conectar.

Day 10 – Connect | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/upiiNyibfF0

Dia 11

“Just go with the flow”. Quão difícil é a gente seguir o fluxo? E por quê dificultamos para nós mesmos?

Essa prática me lembrou os bons tempos de yoga na UFAL. O fato de ir pr'aquela aula sem saber muito bem o que esperar e voltar toda quebrada, mas com uma mentalidade diferente, mudou a minha vida. Por mais que eu me afaste, eu sempre volto pra yoga.

Day 11 – Flow | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/hmUAQIxZwXw

Dia 12

Sobre se desfazer das suas expectativas. Cada dia é um novo dia. Nem toda prática vai satisfazer as suas necessidades.

Isso me fez pensar em porque não deu certo continuar a yoga em 2020, depois do desafio dos 30 dias. Eu decidi fazer por conta própria, mas esqueci de ouvir o meu corpo. Ficava esperando dar conta de umas coisas irreais, quando, às vezes, só meditar já seria suficiente.

Day 12 – Drop | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/5sTZMSGurlg

Dia 13

Sobre se permitir sentir.

Lá pro final da prática, a Adriene sugere que a gente se deixe sentir. Eu me senti num espaço tão receptivo que acabei chorando. Sabe-se lá tudo que estava preso pra eu precisar que alguém de tão longe me abrisse os braços e me permitisse sentir. Ainda estou meio emotiva e, mais do que isso, aliviada.

Fica aí o desejo que eu me permita mais.

Day 13 – Feel | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/_O0z9EBEO6g

Dia 14

Sobre criar espaço no corpo.

Pela manhã eu tava me sentindo muito quebrada, que bom que essa prática investiu no alongamento do corpo inteiro. Tô outra pessoa agora! Bom demais quando essas coisas coincidem!

Duas semanas, quase metade do caminho!

Day 14 – Space | BREATH – A 30 Day Yoga Journey” https://youtu.be/PVJtNPVq26Q

Dia 15

Metade do caminho, boraaaa!

Sobre entrar nessa nova etapa, permitindo que a respiração nos guie.

Hoje não estava me sentindo muito conectada, também tô com uma dorzinha de cabeça chata, mas consegui fazer. Quando chegou na Balasana, postura da criança, eu quis ficar ali pra sempre 😅 é uma das minhas preferidas pra relaxar.

Day 15 – Enter | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/uZ0J5Sj_0Yw

Dia 16

Sobre ter disciplina até na respiração.

Ih, hoje a preguiça tava tão grande que até esqueci de atualizar a jornada. Pelo menos, foi uma prática mais focada em técnicas de respiração e eu pude fazer tudo sentadinha.

Quase fico sem ar, muito bom hahaha. Yoga tem que ser um negócio diário mesmo, fico vendo tudo que perdi de avanço porque parei de praticar...

Day 16 – Discipline | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/mnw2-SUbcCI

Dia 17

Sobre explorar seus movimentos sem definir aonde você quer chegar.

Tô com uma dor intensa na base das minhas costas, faço a prática, sinto alívio, mas depois tenho que passar horas na frente do computador e não melhoro :~ esse negócio de estudo só atrapalha a vida da pessoa kkkk

Por ser uma prática exploratória, eu pude focar em posições que ajudam a aliviar a dor :blobcatjustright:

Day 17 – Explore | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/sqbavY4lOyI

Dia 18

O que acontece se a gente começar a se mover a partir do nosso centro?

Percebo que costumo fazer pressão nos lugares errados ao me movimentar. Tô finalmente recuperando essa consciência sobre meu corpo.

A jornada da mulher com dor na lombar continua. A yoga tá ajudando muito com a redução da dor, mas na verdade eu preciso diminuir meu tempo no computador. Talvez hoje eu estude na cama.

Day 18 – Center | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/RfJseP0-Tys

Dia 19

Sobre se fortalecer com base na respiração e na quietude.

Eu tentei outros tipos de exercício e até academia, mas só com a yoga eu me sinto fortalecida e vejo avanço físico rapidamente. Dezenove dias e eu já sinto uma tonificação nos braços e nas pernas. Não que esse seja meu objetivo, mas é bom pra autoestima também.

Day 19 – Strength | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/z0q2K-ot_R4

Dia 20

Sobre pausar e apreciar o momento. Estar presente.

O tema desse desafio de 30 dias ser respiração era tudo o que eu precisava. Penso que isso vai até me ajudar a voltar pra meditação. É o tipo de coisa que eu nunca devia ter parado, mas eu me deixo levar pela correria da vida. Eu nunca pauso e isso tem que mudar.

Day 20 – Pause | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/_aCNiRAyOlI

Dia 21

Sobre respirar e se movimentar com controle.

Eita que hoje eu senti o suor escorrer (pode ser o calor também kkkk). A grande vantagem de fazer yoga ou qualquer exercício com orientação é que as atividades ficam balanceadas. Tem dia de relaxar, tem dia de pegar pesado, e tudo contribui pra eu me manter na linha, um dia de cada vez.

Day 21 – Control | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/iTvFko3tOKY

Dia 22

Sobre se renovar a cada prática.

Hoje foi um daqueles dias que eu não queria fazer nada, até esqueci da yoga. Só lembrei porque fui bolerar no YouTube e o vídeo de hoje era a primeira recomendação kkkkk

Mas tá bom, pelo menos, foi uma prática bem tranquila.

Day 22 – Renew | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/T1VJBw0vL_Q

Dia 23

Sobre o quanto nós estamos dispostos a nos dedicar a prática de yoga (ou aos projetos da nossa vida).

Eu não precisava desse tapa na cara. Sinto que tem faltado dedicação em muitas das coisas que tenho feito e essa prática me fez pensar e querer repensar um pouco o meu posicionamento com essas coisas. Espero que não seja passageiro.

Só falta uma semana pra acabar essa etapa da jornada.

Day 23 – Dedicate | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/mfjo2dCuU9s

Dia 24

Sobre o sentimento de rejuvenescer.

Não é sempre que a prática possibilita esse sentimento, mas acho que na maior parte do tempo, sim. Só o fato de você ganhar (ou recuperar) um pouco da flexibilidade do corpo tão rápido já é um indício. Fora a sensação de novidade que você ganha ao lidar com coisas cotidianas.

Day 24 – Rejuvenate | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/d1jKp2mZkSQ

Dia 25

Sobre nos dar aquele amor que esperamos que os outros nos deem.

Pela primeira vez nessa casa, fiz yoga a céu aberto. Antes a área tava um pouco tumultuada e não pude aproveitar. Mas com tudo arrumado, hoje vi a primeira estrela surgindo no céu ao fim da prática :blobaww:

Vou tentar fazer aqui fora mais vezes.

Day 25 – Love | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/DRNdD9c7HMc

Dia 26

Sobre expandir nossa perspectiva sobre nós mesmos.

Tem tanta coisa que a gente acredita não ser capaz, mas com um pouquinho de dedicação dá pra fazer acontecer. Todos os dias que eu pensei em não fazer a prática, mas fiz mesmo assim porque assumi um compromisso comigo. Quanto disso eu posso levar pra fora do tapete?

Day 26 – Expand | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/jc27Unjv_tM

Dia 27

Sobre encontrar um momento para a cura.

Nem só de flexões e abdominais viverá a mulher! Um alongamentozinho é de lei também! Chega dá um alívio quando eu vejo que a prática é mais próxima ao chão, é um alongamento ou uma prática respiratória. Vem sempre no momento certo.

Day 27 – Heal | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/-j9o8sxTnbs

Dia 28

Sobre confiar que nós estamos onde devemos estar.

Como é difícil, né? Não tanto na yoga, mas na vida. Vira e mexe, eu queria estar fazendo e sendo outra coisa, mas e tudo que construí até aqui? Não foi por acaso. E se não tiver que ser assim, as coisas irão mudar quando for a hora. Confia.

Day 28 – Trust | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/ZvX-N5c0pVA

Dia 29

Sobre acreditar na jornada.

Quase não faço hoje, mas me senti tão mal de “falhar” faltando dois dias pra terminar que acabei vindo pro tapete. Sei lá, hoje eu não tô bem fisicamente e talvez o tanto de besteira que eu comi hoje também não me ajudou, mas é isso, eu fiz e tô viva. Acreditei que dava e deu.

Day 29 – Believe | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/_j0zxr9RZwM

Dia 30

Sobre o fim também indicar novos começos.

Essa última prática foi surpreendente. Não lembrava como foi ano passado, mas, assim que a Adriene explicou, lembrei que fiquei bem perdida no que fazer. Dessa vez foi diferente, não porque eu sabia mais do que antes, mas porque eu estava muito confortável em seguir o meu próprio caminho.

Feliz por terminar bem essa jornada! Até amanhã no tapete?

Day 30 – Begin | BREATH – A 30 Day Yoga Journey https://youtu.be/TVwyEtS_7OQ

#yoga #pessoal

 
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from 22

Uma das minhas primeiras resoluções para 2021 é retomar a yoga. No começo de 2020, eu fiz o desafio de 30 dias do Yoga With Adriene e senti muitos benefícios através da prática. Mas na correria da vida e tantas outras coisas inesperadas que aconteceram, eu acabei deixando a yoga em segundo plano até o ponto em que parei de praticar.

Abri o YouTube hoje, atrás de uma prática mais leve pra tentar retomar com calma, já que meu corpo não é mais o mesmo, e encontrei um vídeo da Adriene, postado a pouco tempo, nos convidando a participar mais uma vez desse desafio.

O vídeo é curto e traz apenas algumas explicações sobre como será o desafio e o que você precisa saber pra começar. O desafio começa de verdade amanhã, então dá tempo de preparar esse psicológico.

Acho que é um bom modo de reiniciar. Primeiro porque eu acho a Adriene uma graça e, segundo, porque dá pra sentir que ela não quer ditar o que é certo ou errado, mas incentivar o autoconhecimento.

Veremos se vou conseguir seguir com os 30 dias e, mais importante, se eu consigo ir além deles.

#yoga #pessoal

 
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from renaN

É corrido, mesmo em casa as vezes cê nem para pra reparar. Levanta, toma café, senta, lê, estuda, as vezes finge. Desce pro almoço, faz a digestão as vezes assistindo algo, as vezes olhando a paisagem. Sobe pro quarto, enrola, lê, estuda, estágio, as vezes finge. Noite, janta, ler, dormir. Rotina de quarentena: incluir conversar com amigos de casa, trocar mensagens, produzir pesquisa.

A rotina mecânica não é culpa da pandemia e do isolamento social. Talvez esse contexto facilite perceber ou torne as atividades de rotina menos variadas na medida em que o espaço no qual podemos circular é reduzido. Esse texto não é sobre essa rotina mas sobre o dia em que anoiteci.

Existe, nos extremos de um dia, um espaço de tempo em que não é dia tampouco noite. Talvez o final de tarde exemplifique o que quero dizer mas, sem observar atentamente, é fácil incorrer no erro de considerar o “final de tarde” algo à parte da noite. É provável que o momento ao qual me refiro seja, em um diagrama de venn, a intersecção entre tarde e noite e é dessa intersecção, desse momento que é várias coisas, final de tarde, inicio de noite, hiato ?? mas que nomeio à contragosto, que falo aqui.

Não estou apelando pra mágica desse momento, nem advogo que a salvação da humanidade será fruto dele. Esse é só um texto sobre o dia em que, junto com a Terra, senti que estava anoitecendo; desacelerei; reconheci brevemente que, não importa onde ou com

Foi olhando da minha janela, depois de uma chuva de verão responsa, com o sol iluminando as nuvens no céu que comecei a anoitecer. Se ainda estava escuro por conta da chuva torrencial e das nuvens ainda no céu, havia luz suficiente pra entender que ainda não era noite, que o dia ainda não havia findado e que ainda faltava coisa a ser feita: sobre a Terra, ainda faltava anoitecer; natural seria, que a natureza à acompanhasse nesse processo; estranho seria se eu, como humano no século XXI, me considerasse ligado à ele. A questão é que nesse dia eu me senti.

Mas o que, afinal, é esse anoitecer? Em partes envolve reconhecer que o dia tem momentos específicos pra determinadas atividades. Nesse dia pude observar isso. Com a chuva recém-passada os pássaros iam dando seus últimos voos, os ben-te-vis anunciavam que ainda bem-viam, mas que logo já não mais. Os mariporãs insistiam em dar um ou outro rasante entre as árvores e, conferindo o aspecto de metrópole, os pombos pombeavam. Tudo isso, no final das contas, pra assumir que já nesse momento a ordem das coisas era tal que se encaminhava para o descanso. Eu gostaria de poder descrever outros aspectos da natureza “anoitecendo” com relativa serenidade mas não é o caso.

O dia que anoiteci envolveu compreender, no intersticio entre o dia e a noite, a oportunidade de serenar o coração, de me encaminhar com corpo, mente e todo o mais que me compõe para a noite e pras graças de Hipnos. Foi nesse momento, depois de reverenciar a doce compreensão recém adquirida sobre inícios de noite, que parei para refletir sobre o que tinha feito de meu dia até então, desacelerar meu corpo da rotina e ouvir, sentir e respirar. Um momento pra me desapoquentar e encarar com mais brandura as últimas atividades do dia.

A ironia? Faz cerca de semana desde então e, na rotina acelerada, só agora, escrevendo sobre, me ocorreu que em nenhum outro dia tentei repetir a experiência. Está dado o novo compromisso: tire um tempo e, assim como a Terra, anoiteça antes de seguir adiante

 
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from dobrado

Capítulo 1 – Escatologia

Parou em frente a porta, olhou-a de baixo pra cima tentando demorar o máximo possível esperando o milagre da coragem chegar. Fez uma reverência para desviar da ripa pregada no batente. Empurrou aquela pequena porta arredondada e atravessou com a pose de quem ia revelar o vilão do filme… Mas a Rafa estava dormindo. Voltou a postura normal. Ombros relaxados, talvez cansados e um olhar de quem procura comida no chão.

Cruzou o trailer desviando dos entulhos e sentou-se ao lado da cama, onde ela dormia com as pernas encolhidas pro lado da parede. Apenas alguns dias antes Rafa explicou que era mais seguro assim, poderia engasgar durante o sono. Hoje não possui mais forças para falar. Pedro pousou a mão em suas costas, pra ver se ainda estava respirando. Os cabelos não aparentavam mais o mesmo bagunçado bonito de antes e os ossos já marcavam suas articulações como se fosse uma boneca de madeira.

Por estar ao seu lado o coração já batia mais calmo e os lábios tentavam uma pequena emoção, não o suficiente para poder ser um sorriso. Mas ficar ao lado de seu amigos sempre lhe causou esse bem. Faziam dez pares de anos que se conheciam. A Rafa contava para qualquer estranho no bar que conheceu Pedro e Marcelo enquanto fugia da polícia, por estar fumando maconha na praça, e os dois ajudaram-a a se esconder. Mas ele lembrava que era só por causa do skate e era o diretor da escola, mas a história era mais legal assim. Sempre teve um olhar de aluada e sorria pra tudo. O Marcelo era o mais popular da tríade, com diversas namoradas, colecionava piadas e histórias engraçadas. Os dois eram tudo de importante que ele já teve por perto durante boa parte da sua história.

Nunca poderia pensar que a amizade fosse durar tanto, passaram pelo colégio juntos e mesmo as faculdades sendo diferentes, compartilharam os bares. Não havia nada que eles não tivessem vivido juntos. Depressões, saudades, divórcios, doenças… Quando a Rafa fez quimioterapia, ele que assou o bolo espacial pra ela. Quando o Marcelo foi preso, eles que iam visitá-lo toda semana. Quando precisou de ajuda para crescer e ter coragem de ser uma alguém, foram eles.

Se seu calendário mental estivesse correto, o que duvidava um pouco, fazia três meses que não viam o Marcelo. Foi mais ou menos nesses dias que começou a doença. Ela precisou ficar de cama, não dava para sair para procurá-lo, a prioridade era buscar por remédios que aliviassem as dores. O esconderijo ainda era o mesmo, um pequeno trailer abandonado ao lado do parque que a vegetação já havia escondido. Se estivesse bem, poderia voltar. Se não, era melhor nem saber.

Naquele momento, sentado no chão ao lado da cama, abraçou as pernas e afundou o rosto nos joelhos. A respiração, incerta como a vida presente, competia com a força que fazia para fechar os olhos e não deixar as lágrimas fugirem. Ouviu a chuva começar a se atirar contra teto do trailer. Segurou na cama e fez força para se levantar, engoliu a seco as mágoas pelo mau do mundo e atravessou o trailer em direção à porta. Vestiu sua capa capa de chuva, uma velha lona azul, e hesitou procurando forças para adentrar o mundo. Por menos de um segundo sorriu como uma autoflagelação: ainda não fazia nem dois anos que o mundo havia acabado.

Tipo

#contos #SantissimaTrindade

 
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from Amarelo Gemada

Mais um texto de 2015. Até agora está sendo interessante reler estes escritos e perceber o que mudou e o que não mudou. O mais difícil, porém, é não julgar o que eu pensava ou a maneira como eu escrevia ou desenhava.

Há alguns anos eu tinha uma verdadeira preguiça em usar e-mail, mas eu invariavelmente tenho preguiça pelas coisas antes de conhecê-las mais a fundo. Quando acabo conhecendo, por vezes me empolgo tanto com a descoberta da utilidade delas na minha vida que as pessoas ficam sem entender o motivo de toda minha euforia. Deve ser porque ao contrário do que esperam de uma virginiana e de um ISTJ (ou INTP-T, whatever), eu sou bastante desorganizada. Então, qualquer ferramenta que eu consiga adaptar à minha vida e me ajude a ter o mínimo de controle sobre minhas tarefas eu estou abraçando (ou ao menos tentando). Tenho uma amiga, virginiana também, a próposito, com cerca de 10 anos a menos do que eu que fica simplesmente indignada com o fato de eu ainda usar e-mail. Dias atrás, um dos slides da aula de marketing na faculdade descrevia que a geração Z considerava o e-mail como old-fashioned e, apesar de eu odiar marketing e não levar quase nenhuma dessas ideias a sério, a indignação dela fez um pouco mais de sentido pra mim.

Apesar de ser considerado por muita gente apenas mais uma coisa dentre tantas que precisamos ter para nos cadastrarmos em qualquer lugar, sejam elas redes sociais ou para conseguir alugar uma casa — como um RG — , eu encontrei meu amor há alguns anos quando meu companheiro passou a se comunicar cada vez mais comigo por e-mail. Provavelmente isso aconteceu com a decadência e anunciado fim do MSN, e como estávamos com pouco tempo de relacionamento, tínhamos que achar outras alternativas de nos comunicarmos, já que cada um morava em cantos extremos da cidade. Atravessar São Paulo de ônibus nunca foi uma coisa muito rápida. Por causa disso, sem perceber passei do estado de quase nem lembrar o meu próprio endereço, até ser uma das primeiras coisas que eu faço no dia. Hoje quando estou no computador, eu abro meu e-mail antes de qualquer outra rede social e algumas vezes ainda meio dormindo enquanto ainda estou sentada no banheiro (informação demais, eu sei). Meu e-mail fica aberto o dia todo e durante todo o tempo que estou conectada na internet via wi-fi, e só não no smartphone porque não sou das pessoas adeptas ao 3G (caro demais, lento e uma telinha minúscula que me irrita, não obrigada). Em contrapartida, apesar do vício assumido, algumas outras redes sociais eu uso esporadicamente, ou simplesmente “sumo” por tempo indeterminado quando estou de saco cheio do mundo. Até porque algumas delas não contribuem em nada para manutenção da minha saúde mental ou porque eu realmente canso de ficar tão exposta o tempo todo. Ok, você pode até me dizer que e-mail não pode ser considerado bem uma rede social, mas vejamos como eu uso meu próprio e-mail:

Eu tenho uma série de amigos que eu me comunico quase que exclusivamente por e-mail, quando não pessoalmente. Alguns se conhecem entre si, outros só sabem da existência destes outros pelo endereço de e-mail, alguns são amigos dos amigos. Há amigos que são ex-metaleiros, outros são ex-otakus, ou os dois ao mesmo tempo. Não seria mais prático então usar uma lista e-mails? Uma lista de e-mails não daria exatamente certo no nosso caso. Por que dentro deste minúscula rede, há os que gostam de humor mais rebuscado, meio Monty Python, outros são viciados em gifs animados encontrados no Imgur. Tem também os que são verdadeiros, e num ótimo sentido, Social Justice Warriors e outros que apesar de pessoas muito legais, têm outras prioridades. Ou seja, somos muito diferentes e nossos e-mails são escolhidos e enviados exatamente para as pessoas que queremos, porque o que pode ser interessante para um, não faria muito sentido para o outro. Isso é o que é mais bacana, nós nos conhecemos minimamente, (e alguns é minimamente mesmo), mas já é suficiente para sabermos que não seria bacana mostrar aquele vídeo sobre sei lá, os males da indústria da carne, para um amigo que é vegano e que pode se sentir mal vendo aquilo. Não existe uma timeline única que você vez ou outra pode se deparar com alguma coisa bem desagradável. Não existem pessoas que invadirão a sua página para falarem o que bem entenderem contra o que você está compartilhando. Não existem insultos ou assédios por inbox. Não existe a cobrança de você estar ali todos os dias, “batendo ponto”, porque o compartilhamento de ideias é espontâneo. Não se tenta medir a sua saúde mental, emocional pela quantidade de vezes que você ficou online. E apesar disso tudo, existe a discussão de tópicos, a troca de informações, a desconstrução, o entretenimento e a possibilidade real das pessoas escolherem com quem e quando vão compartilhar, o que as vezes é bem difícil de controlar nas redes sociais mais comuns. O mais importante de tudo é que na nossa pequena rede social temos respeito um pelos outros, por suas particularidades e pensamentos e aprendemos muito escutando uns aos outros, independente do assunto que estiver correndo. E claro, nos divertimos muito também.

Este texto e estes pontos nem podem fazer sentido para você, você pode continuar achando (e tem todo o direito disso!) o e-mail uma coisa velha demais, chata demais, etc. Mas para meu ser introvertido, neurótico pelo controle de privacidade, e avessa a algumas cobranças, o e-mail ainda é para mim, A Melhor Rede Social do Mundo™.

Texto publicado originalmente em: 3 de Outubro de 2015 no Medium.

 
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from renaN

Esse é um texto sem nada. Esse é um texto sem preparo. Mas não sem carinho.

É um texto que precisava sair, então ta aqui. Tal qual aquele arroz que tu faz às pressas, enquanto refoga a cebola pica o alho, e enquanto o alho na panela corre pra pegar o arroz antes que comece a subir o cheiro de queimado.

Mas do jeitinho que saí esse arroz, esse texto nasce porque quem fez queria. Ou precisava. Ou os dois.

O fato é que faz tempo que penso em escrever, em publicizar esses pensamentos que a gente sempre vai colocando no papel, ou aquelas ideias que vez ou outra surgem, cutucando, dizendo poderia escrever sobre isso.

Seguindo as boas normas de convivência seria educado me apresentar aqui. Vou aproveitar o texto cru sem estrutura pra dizer quem sou ou acho que sou e o que quero ser.

Sou Latino-Americano, estudante universitário de Gestão de Políticas Públicas que acredito piamente que esse deveria ser um curso de formação cidadã, e não de ensino superior. Pode parecer técnico, mas bebe muito na sociologia, história e direito.

O que quero ser é tanta coisa; Tem uma coleção de hobbies, passatempos, vontades e planos que vão sendo relegados pro segundo plano até termos tempo. MAS com certeza, já que falei de tempo, quero ser alguém que usa o seu para fazer o que quer, o que sabe que gosta. É diante dessa vontade que me azucrina, que me exige escrever e publicizar, tal qual o besouro que azucrina Bras Cubas enquanto não se decide sobre Eugênia, que publico esse primeiro texto.

Como apresentação confesso que não fica muito bem, fui incapaz de expor do que vou tratar aqui, mas é isso. Esse texto precisava sair, tenho agora uma obrigação contigo, sério, que ta lendo. Nos falamos mais daqui uma semana!

Como um texto cru, até que ficou bem feito. Talvez um pouco empapado por não usar a técnica de ferver a água antes de botar no arroz. As vezes sem sal, pela pressa ou medo de exagerar mas aqui está ele. Pronto pra vir ao mundo e servido à mesa, senão com orgulho, com coragem.

 
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from Nada, não!

𔑺 it's never too late

Olá! Acho que não nos vemos por volta de uns três anos, não é mesmo?

Nesse meio tempo não posso dizer que escrevi muito. A verdade é que eu escrevi pouquíssimo e parte foi por conta de uma rotina de estudos e trabalho intenso, mas parte foi por me encontrar numa fase em que desacreditei da qualidade da minha produção, num todo. É fato que eu sempre tive grandes questões em ver valor no meu trabalho mas, neste meio tempo, enquanto eu continuava lutando por isso, eu estava tentando também botar muitas outras coisas no lugar.

Volto agora — não necessariamente com as coisas todas no lugar —, pensando se o nome antigo desta newsletter ainda faz sentido. É um nome do qual eu me apeguei horrores, é verdade. Amarelo Gemada. Acho ele marcante, divertido e único. Pode soar bobo, mas eu tenho orgulho de tê-lo criado. Se você me perguntar, vou dizer que não lembro exatamente o motivo da minha escolha por ele. Tenho quase certeza (ênfase no “quase”) que surgiu por conta de uma brincadeira com a música Amarelo Manga, de Otto, que eu escutei incessantemente num passado recente. À época, acho que funcionou. Hoje eu já não tenho tanta certeza disso.

O que eu não sei é se este nome ainda diz sobre quem eu sou ou sobre o que tenho pensado atualmente. Ao contrário da minha percepção sobre a música de Otto (que canta sobre um corpo que não fala e que não sente), Amarelo Gemada sempre teve um quê de engraçadinho. E era fato que, por mais que algumas edições tenham sido sobre assuntos mais sérios, minha tentativa sempre foi pincelar um risinho aqui ou ali.

No entanto, não sei se me sinto mais assim tão divertida. Ao menos não da mesma maneira.

O problema, na verdade, é que minha tentativa de ser divertida sempre esteve ligada a uma expectativa do Outro (este mesmo que sempre ronda esta pessoa e portanto, esta newsletter).

Para o Outro era isso mesmo que eu queria ser: a legalzona, a amiga pra todo momento, a querida e “boa moça” — como minha terapeuta tanto gosta de nomear este fenômeno na minha personalidade. Mas, se você pedisse para que eu me descrevesse, muito provavelmente eu escolheria palavras como ácida, impaciente, sarcástica, metódica e... chata.

Jesus-maria-josé, eu sou muito chata.

Pode ser surpresa para alguns que eu me veja assim. Para outros, nem tanto. Mas, dificilmente, a não ser que um dia você venha a ser parte da minha família, amiga muito íntima ou que moremos na mesma casa, você vai perceber essa minha chatice. Eu não deixo transparecer muito e, por que não dizer, que eu puxo o freio mesmo. Algumas pessoas com quem já trabalhei devem ter tido algum vislumbre da minha chatice quando, por exemplo, eu tenha defendido insistentemente uma ideia da qual acreditava muito, ou quando argumentei de mil maneiras diferentes sobre um ponto de vista, ou quando tive dificuldade de deixar algum colega tomar a frente de tarefas que eu acreditava que faria de maneira melhor ou mais efetiva.

Uns chamariam de persistência. Eu chamo de chatice mesmo. Até por que, dentro de casa e dependendo da época, eu sou quase insuportável. E talvez seja exatamente por não deixar minha chatice extravasar para o além família que isso acontece. Não é apenas a vontade de ter meu trabalho valorizado, mas a maneira como eu faço isso.

Porém, ser chata não me impede também de ser divertida, aos meus termos. Ambas as características podem e coexistem na minha personalidade. Meu humor é ácido e sarcástico e revela toda essa minha impaciência. Não é pra todo mundo e constantemente eu preciso afirmar para os meus pares que “é apenas uma brincadeira”. Não é um tipo de humor do qual me orgulho. E isso também não impede de, eventualmente, eu magoar alguém. Mas é meu humor. Não é especial, não é genial. Mas é meu e é de uma pessoa humana única.

Um das coisas que eu tenho tentado colocar no lugar e que eu vejo como a mais promissora é a minha própria humanização. É a aceitação de que eu sou uma pessoa falha, que não tem a obrigação de agradar. É a auto percepção de que o que eu tenho para falar é importante e que deveria ser posto no mundo, mesmo que a única ouvinte seja eu mesma. Mesmo que o que eu tenha para falar revele todos os meus maiores defeitos.

Não é fácil. Eu cresci acreditando que eu deveria ser perfeita. Que eu deveria ser agradável. Que eu deveria nunca desejar o mal ao outro. Que eu deveria falar baixo e o menos possível. É impressionante relembrar uma das minhas primeiras memórias da infância onde uma professora disse à minha mãe em uma reunião, que eu era “uma ótima aluna, mas conversava demais na aula”. Então, eu cresci acreditando que além de ótima aluna eu deveria também me calar.

Sendo bem franca, eu provavelmente devia falar além da conta mesmo. Lembro-me também de estar sempre virada para a carteira atrás de mim enquanto contava alguma história para colegas. Eu lembro da minha infância ser uma infância falante. Eu falava com pessoas imaginárias. Demorava dias para contar ao meu irmão o enredo de algum programa que eu tinha assistido, por conta de tantos detalhes que eu adicionava à narrativa. Lembro de contar sonhos ao meu pai enquanto tomávamos café da manhã. Eu não parava de falar.

Então, é claro que não foi culpa apenas desta professora. Mas, o calar-se, ao longo dos anos, me afetou de maneira profunda. A dificuldade de fala é uma coisa que me persegue até hoje. Que afeta todas as áreas da minha vida. Se disfarça de timidez, de introversão, ou se junta à elas. Se materializa no bolo que fecha a minha garganta toda vez que penso em reclamar sobre algo que me incomoda. Revela os contatos amigos que perdi, os trabalhos que me sujeitei a fazer por valores baixíssimos, o sentimento de solidão que não passa nem com todo amor que tenho ao meu redor. A dificuldade que, contra toda a expectativa que minha maturidade traz, só aumenta.

Audre Lorde, que foi uma mulher negra incrível, disse em um de seus textos que a dificuldade de fala é uma característica facilmente encontrada em mulheres negras. E, obviamente, é consequência de violência racista ao longo da vida, desde a infância. Minha terapeuta, que também é uma mulher negra incrível, provavelmente não aguenta mais repetir em nossas sessões que eu preciso falar. E, falar, implica em deixar ser vista, em ser desagradável, com errar e errar e errar e lidar com isso.

What are the words you do not yet have? What do you need to say? What are the tyrannies you swallow day by day and attempt to make your own, until you will sicken and die of them, still in silence? Audre Lorde

Depois de refletir sobre tudo isso, acho que essa newsletter merecia um novo nome. Um nome que comunicasse a tentativa da fala, seja ela com o humor que vier.

Assim sendo, esta é a primeira edição da Nada, não! Uma frase que vivo dizendo quando desisto de dizer (risos). O que eu nunca tinha percebido, até então, é que estas duas palavras sozinhas com uma vírgula no meio, diziam o contrário do que eu sempre quis comunicar.

A verdade é que eu tenho muito a dizer e esta é mais uma tentativa de continuar dizendo. Além de apenas dizer, é uma tentativa de ver valor na minha fala. Um corpo que tem todo o direito e dever, consigo mesmo, de falar (e ser uma pessoa chata).

𔒰 secos e molhados

Esta nova versão da minha newsletter provavelmente continuará aparecendo na sua caixa de entrada de quinze em quinze dias, a partir de agora. Vou seguir falando sobre a vida e minhas percepções e aprendizados neste mundo.

Estou separando cada edição por quatro seções simples:

  • tema central onde trarei o texto principal da quinzena, com um título que muda de acordo;
  • secos e molhados: para dar recados e assuntos fora do tema central;
  • gratuito, livre ou aberto: sessão de indicações de coisas acessíveis pela internet;
  • F12: seção para documentar os recursos que usei na edição como fontes, símbolos unicode e afins.

Tenho planos de fazer um spin-off dedicado a falar sobre design, que é minha profissão. Quando (e se) acontecer, volto aqui para avisar.

𔒥 gratuito, livre ou aberto

  • The Transformation of Silence into Language and Action (em inglês/em português): o texto de Audre Lorde, que me fez chorar e está intimamente conectado com o que falei nesta edição. Audre disseca a dificuldade que, especialmente, a mulher negra tem em falar o que pensa, o que sente e em como esse sentimento precisa ser superado. Obrigada por me indicar @pato!
  • Manual do Usuário: um site sobre tecnologia, que conta também com a newsletter Bloco de Notas e os podcasts Guia Prático e Tecnocracia. O que gosto muito no Manual é que ele fala sobre tecnologia sem exagerar nos jargões e sem aquele formato de review de produtos que vemos por aí. É sobre como nos relacionamos com a tecnologia e como ela impacta na sociedade, com uma linguagem muito acessível.
  • Ora, Thiago: Canal no youtube sobre cinema e cultura pop. Thiago é uma pessoa negra, gay e maravilhosa que trata dos assuntos com profundidade e um humor muito particular e cativante. Especial para as 30+ que curtem aquele saudosismo e referências à infância noventista.

𔑳 F12

A fonte utilizada para o título da newsletter é a Bagnard Regular, desenhada por Damien Poulain. Os símbolos unicode utilizados no início de cada seção são os do grupo Anatolian Hieroglyphs, respectivamente: U+1447A, U+144A5, U+144B0, U+14473.

Newsletter originalmente publicada e enviada por e-mail em 24 de Junho de 2020. Para assinar, é só clicar neste link: Quero me inscrever!

 
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